O regresso à leitura
Há quem diga que precisamos de bater no fundo para podermos renascer de um outro modo mais digno. Cá por mim, já estamos numa espécie de fundo, mas talvez haja efeitos positivos a retirar das circunstâncias. O jornal The Independent publicava há semanas uma estranha notícia sobre o renascimento do interesse pela leitura numa pequena comunidade espanhola nos arredores de Granada. Ao que parece, todas as tardes e noites a população anda num entra-e-sai da biblioteca local com livros em sacos e debaixo do braço. A biblioteca – note-se – fechou oficialmente há dois anos (presumo que por falta de leitores), não tem funcionários pagos e – mais curioso ainda – funciona à luz da vela porque a electricidade está cortada. Mas uma dúzia de voluntários e muitos dadores de livros perceberam que esta era a altura de a ressuscitar e começaram a organizar actividades que levaram os locais de volta à biblioteca, onde a afluência subiu mais de 50%. Uma das bibliotecárias refere que, se antes quem vinha buscar romances cor-de-rosa eram as donas-de-casa, hoje são principalmente os desempregados que requisitam livros (não só estão sem dinheiro, como têm mais tempo). A situação repete-se em muitas outras regiões de Espanha e talvez contribua para a criação de hábitos de leitura em muita gente. Ler nunca fez mal a ninguém e ajuda a esquecer os maus bocados.
O regresso à leitura é quase como uma consequência natural das crises de escassez.
ResponderEliminarA escassez parece centrar o ser humano na percepção risonha de que há vida para além do material. Vida reflectida que permite conjugar os nossos com os outros sinais de uma forma menos centrada no EU.
E nessa medida a miséria ou a pobreza só existe enquanto não houver um livro para ler ou uma folha de papel. Mesmo a nossa memória pode ordenar a nossa vida de forma complexa, tornando-se um lugar de leitura e de ficção. E até a frase de Mia Couto (produzida para num outro contexto) parece aqui entroncar:
«O escritor não é apenas aquele que escreve. É aquele que produz pensamento, aquele que é capaz de engravidar os outros de sentimento e de encantamento.» Haja leitura e escrita...que é a leitura dos livros em nós impressos!
"produzida num outro contexto"
EliminarÉ verdade que o desemprego, no que concerne ao tempo disponível que cria, pode contribuir para fomentar a leitura. Contudo, as relações de causa-efeito não são universais. O que funciona num espaço e numa determinada circunstância, pode não resultar noutro sítio qualquer. Por isso, é preciso cuidado com o idealismo que se coloca na análise desses comportamentos sociais. De facto, não acredito que, num país (nem vale a pena referir um exemplo) em que o Governo tem a coragem de roubar descaradamente os míseros tostões que se esvaem pelos buracos dos bolsos dos cidadãos desempregados, haja condições para que a leitura seja um refúgio dos que, infelizmente, não têm emprego, pois a preocupação imediata dessa gente é assegurar o sustento da barriga, e esta não se consola com leituras, assim como a fome é inimiga de delírios literários.
ResponderEliminarABC
Quando leio esqueço tudo pois embarco numa viagem de sonho, para qualquer parte do Universo (que eu queira).
ResponderEliminarLer é viver!
Hum...
ResponderEliminar"escrita...que é a leitura dos livros em nós impressos (sic Pedro Sande)
Hoje é um dos tais dias que valem a pena, e em que se encontram os tais momentos de felicidade!
É que já é a segunda frase ou pensamento que me é presenteada, e me preenche ou ajuda a entender melhor as coisas, o Mundo e a mim mesmo!
Extraordinário, Pedro Sande!
Uma curta reflexão: Será que o interesse dos cubanos pela literatura e escrita, tem a ver com o que diz a nossa Extraordinária Anfitriã? Porque são pobres e nada mais têm?
Saudações kaluandas
Excelente notícia!
ResponderEliminarEm tempos de escassez voltámos ao essencial.
Quando não se alimenta o corpo ou o desejo consumista, suprem-se outras necessidades.
O ser humano está imerso em necessidades, e se esquecermos um pouco a tecnologia e os tempos modernos, o que é que nos liga ao homem do séc. XIX e XVIII?
Uma vela e um livro. O imenso apelo da luz. A leitura, meus caros, nunca fez mal a ninguém.
Abraços
É bom ler notícias como estas. Também por cá, cada vez mais, se vêm homens e mulheres de cabeça enfiada em leituras, passam para o 'mundo de lá' e quando regressam enfrentam melhor o 'mundo de cá'. "Ler é altamente" :)
ResponderEliminarQue maravilha. Estremecemos ao ler isto. E que inspirador.
ResponderEliminarOra aqui está uma boa noticia de facto. Não devia repetir as palavras da anfitriã e dos comentadores, mas apetece-me dizer que ler nunca fez mal a ninguém (desculpem lá a falta de originalidade, mas...).
ResponderEliminarE ler não enche, efectivamente, a barriguinha, mas alimenta a alma e se a carne já a pré anunciamos como morta, não deixemos que nos assassinem também a alma... Mergulhar nas páginas de um livro e depois regressar lentamente ao mundo real é das melhores sensações que tenho sentido... Tenho outras claro, mas esta é única.
Abraço leitores extraordinários
Oxalá os bibliotecários / solidários de Granada e restante Espanha tenham o rasgo de ir ajudando os novos leitores / desempregados a, progressivamente, não utilizarem a leitura apenas como passatempo para esquecer as agruras da vida.
ResponderEliminarA Literatura pode fazer mais do que isso.
Os livros, se bem escolhidos, podem ajudar os leitores, se bem orientados, a ganhar esclarecimento e capacidade para decifrar o que está mal na vida, na sociedade – e ganhar perspectiva, força e ânimo para enfrentar, intervir, lutar, transformar.
E, já agora, seria interessante que esse movimento de cidadania pela valorização das bibliotecas contaminasse o bocadito mais ocidental da Península Ibérica.
"Cá por mim, já estamos numa espécie de fundo, mas" Há ainda e sempre um fundo falso...
ResponderEliminarQuem tem fé agarre-se...
Gosto de a ler.
Maria Helena
Quando a vida não se aguenta, é esquecê-la, dobrá-la nas folhas do livro que se lê. Para poder retomá-la.
ResponderEliminarPor cá tivemos a história de um Engenheiro Electrotécnico que ficou desempregado e "à custa disso" arrecadou em Prémio Leya e muitas dezenas de milhares de livros vendidos (refiro-me, obviamente, a "O Teu Rosto Será o Último", de João Ricardo Pedro).
ResponderEliminarA história desta biblioteca espanhola é exemplar.
Há males que vêm por bem, está provado!