Envelhecer

Sinto-me um bocado bota-de-elástico ao não querer perceber que a arte pode ser uma coisa que – sinceramente – eu preferia que não fosse. Uma vez, um senhor que estimo bastante e que tem cultura e bom gosto, disse-me que hoje já não havia arte, apenas instalações; e, conquanto eu tenha então achado que estava diante de um bota-de-elástico (até porque há instalações formidáveis), talvez hoje o tenha finalmente compreendido. É que, num jornal de referência, vejo dedicarem uma página inteira cheia de encómios a uma exposição de escultura. Mas, na fotografia que encima o texto, observo apenas paredes brancas, nas quais estão pendurados auscultadores, e uma cadeira banal à frente. A proposta é que o visitante se sente, coloque as «bandeletes» e fique à escuta. Bem, eu não sei o que dizem lá do outro lado – e até admito que possa ser «arte» (imaginemos que nos atiram com bela literatura); o que entendo menos bem é que isto seja uma exposição de «escultura», ainda por cima classificada com cinco estrelas, pois eu não vejo lá nenhuma peça escultural da autoria do escultor (acho que as cadeiras podiam ser do Ikea). Mas, pronto, devo ser eu que estou a envelhecer, e não tardará muito a que fique azeda e a começar as frases todas por «No meu tempo». Avisem-me, por favor, se isso começar a acontecer…


 


P.S. Se alguém tiver ido ver a exposição e me puder dizer o que sopram os fones, avance, porque posso estar a ser injusta, mas não estou com muita vontade de lá ir.

Comentários

  1. Ó como eu te compreendo extraordinária (e bela) MRP... mas (sabes isto melhor do que eu) o mundo está sempre, mas sempre em mudança, só que nós só nos apercebemos disso quando dela (mudança) não participamos ou não queremos participar. De quando em quando dou comigo a falar sozinho e a pensar nestes assuntos e não é que isto mesmo que estou a pensar já tinha ouvido ao meu pai quando eu era um puto...realmente,o vento não se pode parar com as mãos!

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  2. Tive que me rir... Numa ocasião fui ver uma exposição com o meu filho, ainda pequeno. A dada altura sentámo-nos, nós e outras pessoas, num vulgar tamborete a meio da sala, coisa banal, a ver as peças. Veio de lá o vigilante e correu connosco, como nos atrevíamos a sentar na peça de arte? A sério? Teria ele a certeza que aquilo era uma das peças? Tinha pois! E era mesmo...
    Por favor...

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  3. Começa a ser um ritual trocar os nomes às coisas. Escultura talvez hoje seja coisa de se ouvir e não de se ver... Talvez um concerto amanhã seja composto por telas e não por musica.

    Um abraço.



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    1. Correndo o risco de ser velha do Restelo, zona que até desconheço, ou se, não me lembro de termos sido apresentadas, afirmo que tenho um desgosto dos grandes se as partituras se mudem em telas. Que cada uma das artes tinge a seu a jeito uma parte da realidade quem nem sempre vemos. Mas não são a mesma coisa.

      Bom, já dou por mim a dirigir ao governo impropérios bem semelhantes aos do meu progenitor, cujo muito critiquei. Então...

      Mas, como a Rosário, suponho que a escultura exija uma matéria trabalhada a escopo e cinzel. Ou de semelhante ordem. É verdade que algumas peças são tão apelativas que me apetecia estivesse ali uma cadeirinha em frente. Contempla-se melhor sentado.
      Quem sabe seja para isso a cadeira...e as esculturas hajam. Em sua densidade alada. Pode ser.

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  4. Não resisto a contar uma anedota muito a propósito daquilo que nos conta a NEA sobre o colocar dos auscultadores/peças e escutar:

    Fazendo a sua ronda de final de dia ao manicómio,
    o médico vê um internado debruçado, imóvel e de ouvido encostado à parede. Faz um sinal de interrogação ao enfermeiro que encolhe os ombros e lhe diz que ele esteve assim o dia todo.
    Intrigado o médico aproxima-se e pergunta ao doente o que se passa.
    Este endireita-se e com um gesto convida o médico: Oiça!
    O médico encosta o ouvido à parede, e logo se endireita e vira para o paciente que o olha ansioso: Não se ouve nada!
    E desesperado o doente: Pois não! Tem estado assim o dia inteiro!

    Bom... só posso dizer que na minha opinião "artistas" deste quilate e a quem se dá tempo, importância e pior, dinheiro! Deviam estar internados!

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  5. Esperando poder ter criado aqui um momento de humor são, agora mais a sério:

    Tenho a presunção de ser uma pessoa normal, comum, medianamente instruída e cultivada.
    Sei que gostos não se discutem como acredito que a maior maravilha da humanidade é a diversidade, onde incluo a do pensamento.
    É o que aqui aprendo e vejo diáriamente, e repito o quanto me sinto grato pelo que me ajudam a cultivar como pela oportunidade de trocar impressões com gente educada e cultivada!

    Porém, talvez porque sou fundamentalmente um camponês, portanto limitado, para mim arte é aquilo que me impressiona positivamente me dá sensações boas ou transmite algo, mas sempre agradável.
    Poderei estar a ser limitado, mas é o que penso!
    É o que me satisfaz!
    É aquilo que sinto quando oiço o concerto de Aranjuez ou Lizz Right... pronto, tá bem ó Severino... e a Amália ou o Rui Veloso!
    É o que sinto quando leio Torga e Gedeão!
    É o que sinto quando vejo um quadro de Malhoa, Silva Porto, Rembrandt ou a impressão que me causam os impressionistas!
    Ou quando vejo dançar o Lago dos Cisnes, Joaquin Cortés ou um par de fandanguistas!
    Ou quando vi a exposição de Rodin!
    Quando vi o rei Lear representado por Rui de Carvalho!
    Quando oiço Vilaret dizer: "Tocam os sinos..."
    Quando me emociono com "Incrivelmente alto, incrívelmente perto"!
    Quando vejo num quadro uma flor feita de cascas de alho e escamas de peixe!
    Acrescentaria quando vejo o António Palha Ribeiro Telles a cravar um ferro ao estribo ou o Pedrito de Portugal num capotazo magistral, correndo o risco de ferir as diferentes sensibilidades artísticas...
    Etc.

    Para mim, pela impressão e prazer que me dão, são arte...

    Aceito que outras pessoas se sintam extasiadas diante de um calhau no meio de uma sala, tanto quanto eu aprecio um penedo nas margens do Douro ou a rocha dos bordões... apenas divergindo no local onde ela se insere e torna admirável, para mim não dentro de uma sala!
    Mas isso é uma questão de sensibilidades...

    Agora, aceitar como arte, uns objectos quaisquer comprados algures e colados numa parede, ou umas borradelas de tinta atiradas para um lado qualquer... e pior, aceitar como arte e artistas uns tipos/as que urinam em cima de fotografias...

    Ó minha Cara e Extraordinária Anfitriã e demais comparsas tertulianos... isso já é demais!
    Pelo menos para este barrão, rude, ignaro e inculto... e me perdoem.

    Acho que não tem nada a ver com outra coisa que não seja bom-gosto, sensibilidade e senso!

    Saudações kaluandas e bom fim-de-semana!

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    1. Parafraseando o meu amigo Pacheco também eu tenho a presunção de ser uma pessoa normal, comum, medianamente instruída e cultivada, mas também é aquilo que sinto quando vejo (embevecido) uma centena de panelas transformadas num sapato que provavelmente até ficaria bem à Lenka (a tal, essa mesmo, esse monumento de mulher, a do gordo...).

      E aquele croché que a minha avó faria em mês e meio...

      E aquele macaco que aqui há meia dúzia de meses teve a distinta lata de fazer uma exposição sobre o buraco ao fim das costas...e teve assistentes também embevecidos, ai se teve...

      E atenção que,aqui há semanas fizeram bicha (de quilómetros) para ver a exposição da "artista" do regime...

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  6. Eu sinto exatamente o mesmo quando vou a exposições de arte contemporânea, a que até vou com bastante. Mas já não me incomodo a decidir se são peças de arte ou não, no sentido em que já não vou a essas exposições em busca de beleza ou na expectativa de a fruir.
    Vou tão só procurar algo que me toque, me questione ou me provoque. E se isso acontecer, chega para eu dar por bem entregue o meu tempo. Por exemplo, vi recentemente um vídeo (com som em auscultadores) em que cães de uma aldeia mexicana vão progressivamente cercando o operador de uma câmara de filmar (o artista) até se tornarem tão agressivos que ele tem que largar a câmara (que continua a filmar) e fugir. Aparentemente, segundo o texto do comissário da exposição, a mensagem seria a rejeição daquele que não é igual nós próprios quando nos organizamos em matilha. Teve graça, foi interessante e demorou 5 minutos.
    Agora se a exposição é constituída por montinhos de pedras no chão ou umas quantas tábuas pregadas caoticamente, então resmungo e dou por mal empregue o meu tempo.
    Criação contemporânea que me delicia totalmente como arte ainda é a pintura da Paula Rego ou a escultura do seu genro Ron Mueck, ambas muito próximas do sentido clássico da beleza.

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  7. A propósito de arte contemporânea: já alguém leu "A Desumanização" do Valter Hugo Mãe ?

    Tem sido tão intensamente promovido este livro ! (e eu fiquei tão desalentado ao ler o excerto em pré-publicação que foi transcrito no último JL).

    Estava à espera de um livro enormíssimo como "A Máquina de Fazer Espanhóis"...

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  8. Será que os fones sopram instruções para que cada visitante crie a sua própria escultura? (Bem, eu não ia lá nem com uma dezena de workshops).
    Ou a fotografia apenas não apanhou as esculturas, posicionadas em frente das cadeiras?
    Agora, também fiquei curiosa...

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  9. O que eu costumo dizer, já desde os meus verdes anos, é: "as coisas que se fazem em nome da imaginação..." (agora, mais "amadurecida" acrescento um suspirante: "..., valha-me Deus!").

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  10. Absolutamente impagável...
    Acho que nem sequer é uma questão geracional...

    As artes plásticas têm andando tão afastadas do cidadão comum que...

    Enfim, sejamos honestos, alguns dos "artistas" estão tão vidrados em causar uma sensação que se esqueceram de passar uma mensagem.

    E se não percebemos a "mensagem"... e se só nos restar a "sensação" que nos estão a pregar uma grande partida ou a gozar connosco, porque haveríamos de consumir o que se torna tão impossível de compreender?

    Tenho 35 anos e há quase 18 anos que me sinto um bota-de-elástico...

    Há coisas assim... e estes tempos aprestam-se a vendedores de banha-de-cobra .

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  11. O meu primeiro professor de Filosofia aconselhou-me um dia a ir ver uma exposição de escultura na baixa de Coimbra.
    Como tinha dezasseis anos, claro que fui.
    Meti-me num dos velhinhos eléctricos que circulavam na cidade, a apanhar vento à janela e satisfeito por ir ver mundo.
    Chegado ao salão, olhei para as paredes e vi umas tampas de sanita penduradas, um autoclismo, alguns penicos e outros apetrechos das horas de aflição.
    Não percebi bem o que se passava. Talvez fosse Filosofia.
    Algumas pessoas falavam umas para as outras, apontando para o pormenor das peças e para outras teorias estranhas. Tudo mais ou menos maravilhado.
    Nessa noite, deitei-me preocupado com a minha falta de cultura.
    Imaginava o Michelangelo a esculpir um bacio e a ser corrido à pedrada nas ruas de Florença. Ou a Vénus de Milo sentada na sanita e sem conseguir limpar-se.
    Estava mesmo baralhado.
    Ainda para mais, era uma coisa que tinha a ver com filosofia.
    Provavelmente, como diz o António Luiz Pacheco na maravilhosa anedota que nos ofertou, e se alguém me perguntasse o que era aquela obra de arte na parede, talvez eu tivesse dito «Não sei, tem estado ali o dia inteiro.»
    O que vale é que eu só tinha dezasseis anos e tinha o futuro todo para entender Filosofia.
    No entanto, e agora é que fiquei mesmo preocupado, ainda não entendi bem o que se passou naquele salão.
    Estavam maravilhados com quê?
    Acho que fui um bota de elástico precoce.

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    1. Tinha o futuro todo para entender filosofia e também a arte. Ser bota de elástico não desmerece o entendimento de nenhuma delas. E ambas merecem a atenção que decerto lhes deu. Que, sabendo-as ou não, as temos dentro de nós para uso, ampliação e disfrute.

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  12. Não é a única... também eu sinto o mesmo e não sou velha, estou na casa dos 20. Acho que a maior parte das pessoas não entende a arte contemporânea, mas aceita-a como "arte" mais virada para as ideias e não para a beleza.
    Não percebo, sinceramente. Não sou ninguém para falar deste tipo de arte, ate porque a abomino por completo. Acho mal empregue o meu tempo nesses museus, o meu dinheiro e o facto de haver segurança apertada. Por favor... quem vai roubar uma pedra do chão que pertence a uma "obra de arte"?
    Agora que não percebo bem qual a ideia das pessoas que criam esse tipo de arte, não percebo. Mas acreditem que me estou a esforçar para perceber.

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