Leituras obrigatórias

O Manel, por causa da ideia do Expresso de que já aqui falei, anda a reler Os Maias; e esse facto gerou uma conversa sobre as leituras escolares obrigatórias e a imaturidade com que todos lemos determinados livros e autores, como Gil Vicente, Fernão Mendes Pinto, Camões (o d’Os Lusíadas) ou o próprio Eça que, relido na idade adulta, contém um suplemento de prazer. Nessa conversa, que decorreu durante uma sessão de autógrafos sem grande afluência (a praia a ganhar ao livro, claro), a escritora Inês Pedrosa referiu que tinha dado a Lírica de Camões a ler recentemente à filha (que a adorou) porque a achara desavinda com a épica camoniana estudada na escola (se calhar, a fazer divisão de orações); e acrescentou que, sendo hoje uma grande admiradora da obra de Agustina, não gostara assim tanto de A Sibila quando a lera pela primeira vez em adolescente. Isso acendeu porém uma recordação que não resistiu a partilhar connosco e eu faço o mesmo com essa história deliciosa: Agustina Bessa-Luís ficou a certa altura sem empregada e, andando à procura de uma pessoa que pudesse trabalhar para si, uma conhecida recomendou-lhe uma rapariga de confiança que, além de estar a precisar de emprego, não era propriamente uma ignorante. Puseram-se então ambas em contacto e foi combinado um dia para conversarem e verem até que ponto podiam ser úteis uma à outra. Porém, quando a rapariga se apresentou em casa da escritora e soube finalmente o seu nome (ou reconheceu o seu rosto de alguma contracapa, já não sei), foi peremptória ao afirmar que não havia nada a fazer, pois de modo algum trabalharia para aquela senhora. A razão era simples: a autora de A Sibila era a verdadeira responsável por a rapariga nunca ter conseguido acabar o liceu… 

Comentários

  1. Apontamento delicioso para começar o dia bem.
    Muitos dos problemas do insucesso na disciplina de Português devem-se à falta de perspectiva no abordar a língua e os seus manejantes , os autores.
    A nossa entrega aos escritores não se faz com forceps ou de cesariana, tem de ser natural. Milhares são os que são obrigados a comer determinado alimento que detestam e, em adulto, odeiam, afastando-se dos pratos que o contêm. Milhares são os que debitam As armas e os barões assinalados sem saberem o que estão a dizer, sem conseguirem saborear as palavras e disseminando até um certo repúdio pelos autores aos próprios filhos.
    É uma pena, e das grandes.

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  2. Agustina Bessa Luis - (mais) uma grande escritora a descobrir pelos portugueses. Quando deixar o mundo dos vivos falar-se-à dela!

    SIBILA-grande livro.

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  3. Neste verão li mais um excelente livro da Agustina Bessa Luís, que aconselho: FANNY OWEN. História baseada em factos reais.

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  4. é verdade.

    normalmente escolhem-se livros "chatos" e difíceis para os adolescentes, a maior parte ainda sem "treino" de leitura.

    todos os exemplos focados são bons.

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  5. Bom dia a todos:

    1º - Li muitos livros, descobri obras e autores, a partir das "Selecta Literária" ou dos livros de leitura escolares, da primária e liceu!
    ´
    2º - Tive a felicidade de ter tido no 5º ano do curso geral dos liceus, um professor muito pouco ortodoxo, que no entanto não só me conseguiu fazer entender o que é uma epopeia e qual o significado dos Lusíadas, em termos da exaltação lusa mas sobretudo pela notável cultura clássica de um rufião zarolho que foi soldado na Índia, para ser capaz de escrever tal obra! Finalmente passou-me a paixão pela lírica Camoniana.
    O professor, cujo apelido era Barata se bem me recordo, era dito à boca pequena como sendo "comunista", o que em 1972 não era um elogio... mas era óbviamente um apaixonado pelos Lusíadas, e, tinha um notável sentido de humor, sem complexos histórico-filosóficos de esquerda, talvez porque era um homem esclarecido!
    Animava-me a escrever e dava-me sempre muito boa nota nas composições ou trabalhos. Não tenho aqui a caderneta mas julgo que tive 16 ou 17 a português... aliás, note-se, dispensei das provas escritas do curso geral! Não fiz exames... graças ao dr. Valdemar de Passos e Sousa que me deu um 10 final a matemática e assim me ajudou a dispensar, pois não se podia dispensar "cortado" a matemática ou português, nesse tempo...

    3º - Num período remoto, entre 1978 e 1983 fui eu mesmo professor do ensino secundário! É verdade, fui dos que terão contribuído activamente para a degradação do ensino... na área das Ciências Naturais, Saúde e Biologia para que tinha "habilitação suficiente".
    A propósito deste triste facto e daquilo que aqui é dito neste Post Extraordinário, lembro que muitos dos meus colegas de português, na época, eram oriundos de Histórico-Filoóficas, e, não conseguindo colocação nessa área tinham como recurso ir leccionar protuguês!
    Eram quase todos da esquerda revolucionária, e as aulas de português passavam a ser de análise política aos textos, onde se buscavam as essências do capitalismo burguês e do imperialismo num paralelo com o fascismo salazarista, em detrimento da poesia e literatura... não creio que desse modo se tenham formado ou despertado para a leitura, grandes apreciadores... para quem um texto passou a ser um manifestou ou panfleto, e claro de uma chatice e desinteresse total!

    Saudações kaluandas!

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    1. Brilhante comentário! Solidez narrativa pincelada de humor! E assim se explica muita coisa naquele perído de agitação revolucionária.

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  6. É tal e qual.
    Li os Maias, teria uns 15 ou 16 anos e não lhes achei nada de especial.
    Nessa altura eu lia muito mas gostava especialmente de livros de aventuras do tipo do Emílio Salgari - o Sandokan ; o Corsário Negro, etc.
    E os Maias não tinham nada dessas aventuras movimentadas.
    Foi preciso chegar aos 25 anos e comprar os Maias numa edição da Circulo de Leitores para descobrir o magnífico romance que ele é.
    Tão magnífico que até hoje já o li para aí umas 5 ou 6 vezes.
    E dos Maias passei para o Crime do Padre Amaro - de que eu ainda gosto mais -- e tudo o que o Eça deixou.
    E tenho hoje o prazer de falar dos Maias com a minha filha mais nova, aluna do 12.º ano, a quem completo a informação com dados da época, com a biografia do Eça, com coisas lidas no Guerra da Cal, etc.

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    1. Esta coisa dos livros de aventuras e do Eça lembrou-me agora uma história interessante. Andava eu no 8º ano (Liceu de Gaia, agora Almeida Garrett), quando a professora de Português decidiu apimentar a obrigatoriedade da leitura de uma obra dando-nos duas à escolha, a fim de votarmos. Ler-se-ia a que fosse mais votada.

      Haveria de ser Eça. Mas uma era um original dele - "O Mandarim" - a outra, uma tradução dele de "As Minas de Salomão" de Henry Rider Haggard.
      Que esperava a professora de miúdos de 13/14 anos? É claro que o livro de aventuras ganhou por larga margem. Ela mostrou-se contrariada, disse-nos que "O Mandarim" tinha muito mais valor literário, mas aceitou a votação.
      Hoje dou-lhe razão, claro. Mas é curioso que, apesar de ser fã do Eça ("Os Maias" também 5 ou 6 vezes, pelo menos, "O Crime do Padre Amaro" umas 3, "A Cidade e as Serras" idem e alguns outros só uma vez), apesar de ser fã, dizia eu, nunca li "O Mandarim". Nem o tenho. Acho que vou esperar que o "Projecto Adamastor" o digitalize, para o ler no meu Sony ;)

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    2. Creio que o ebook está disponível para download gratuito no Projecto Gutenberg
      (www.gutenberg.org)
      E, sim, O Mandarim merece uma leitura. Aliás, há um conto divertidíssimo de Mário de Carvalho que retoma a história: Do conserto do mundo, em Contos Vagabundos. Leia, que não se arrependerá.

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    3. Cristina, veja só o início do Mandarim:

      "Eu chamo-me Theodoro―e fui amanuense do Ministerio do Reino.
      N'esse tempo vivia eu á travessa da Conceição n.º 106, na casa d'hospedes da D. Augusta, a esplendida D. Augusta, viuva do major Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração do bairro central, esguio [4] e amarello como uma tocha d'enterro ; e o possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola franceza."

      Diga lá, não apetece continuar a ler?
      Cump.
      Rui Esteves

      P.S. retirei esta citação do site Gutenberg que agradeço.

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    4. Muito obrigada pela sugestão :)

      Já tinha ouvido falar no Projecto Gutenberg, mas não me lembrava.

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    5. Claro que apetece. Irei ao site brevemente :)

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  7. História deliciosa!
    Ainda me estou a rir.

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  8. Também estou a reler Os Maias por via dos livrinhos do Expresso, já pertinho do fim: o Ega acabou de saber pelo Guimarães que Maria Eduarda é afinal irmã de Carlos da Maia... quanto à obrigatoriedade de ler clássicos "maçudos" no secundário sinto sentimentos contraditórios: uma seca sim, naquelas idades, mas não há aprendizagem sem esforço e o facilitismo não é bom caminho.

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  9. Aprender com as palavras a substância mais nocturna

    Aprender com as palavras a substância mais nocturna
    é o mesmo que povoar o deserto
    com a própria substância do deserto
    Há que voltar atrás e viver a sombra
    enquanto a palavra não existe
    ou enquanto ela é um poço ou um coágulo do tempo
    ou um cântaro voltado para a própria sede
    talvez então no opaco encontremos a vértebra inicial
    para que possamos coincidir com um gesto do universo
    e ser a culminação da densidade
    Só assim as palavras serão o fruto da sombra
    e já não do espelho ou de torres de fumo
    e como antenas de fogo nas gretas do olvido
    serão inicialmente matéria fiel à matéria

    António Ramos Rosa

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  10. Estou a ler agora "A Sibila" e li há pouco tempo o "Memorial do Convento" e parece-me que são obras muito desajustadas para alunos do secundário. Eu, que não sou propriamente um leitor inexperiente, estou a achar "A Sibila" um livro difícil, imagino o que sentiriam jovens com menos de 18 anos... Se bem que nos tempos em que este livro era leitura obrigatória havia também maior preparação.

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    1. Ouvi Saramago dizer numa entrevista que o Memorial não era a leitura mais adequada para aquela faixa etária. Sugeriu então Rodrigues Miguéis, creio que Gente de Terceira Classe.
      Nem A Sibila, digo eu, que a leccionei durante anos e anos... Surpreendentemente, os miúdos de 12º ano reagiram bem à Aparição. Foi destronada pelo nobel...
      Se a minha opinião alguma vez tivesse contado, escolhia para 0 12º — o Amor de Perdição.

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  11. Julgo que tudo depende de como são apresentados os autores e as leituras, como decorrem as aulas onde se fala deles, do amor e entusiasmo que se lhes tem, etc. Os alunos detectam isso como motor, uma espécie de perfume a envolver a encomenda.
    Li A Sibila sem professores e não gostei. Mas, por exemplo, o meu extraordinário professor de português, deu-nos a ler a lírica de Camões - não toda - antes de passar aos Lusíadas. E ficaram-me até hoje as "Endexas a Bárbara". E, com Eça, fez algo semelhante e leu-nos por exemplo, extractos das "Prosas bárbaras". E era outro Eça.

    Funduras de gratidão aos dois professores de português que me deram gostos novos e a oportunidade - sobretudo ele que era um bera rotulado - de apreciar o seu ângulo de humanidade moldável.
    Pode que frequentem o Horas Extraordinárias:)

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