O botequim de Natália Correia

Já sou suficientemente antiga para ter frequentado um bar ali à Graça chamado Botequim, cuja mestra-de-cerimónias, por assim dizer, era Natália Correia com a sua longa boquilha. Fui lá ainda universitária com o meu pai, que gostava bastante da boémia, e mais tarde, já a trabalhar na edição, para assistir a um lançamento de um livro de Javier Marías (Todas as Almas, que, aliás, recomendo a quem não tiver lido). Acho que não voltei lá, mas sei que por ali passou muita gente interessante, mesmo que nem sempre tão interessante como a patronne, que era uma mulher directa, impagável e espirituosa como houve poucas em Portugal. Ora, o jornalista e escritor Fernando Dacosta publicou recentemente O Botequim da Liberdade, que fará decerto as delícias de quem frequentou o local e poderá, com a ajuda da obra, recordar e rever muita coisa que esqueceu; e, por outro lado, é um excelente fresco desse bar mítico e da sua grande dama, que ajudará os que não tiveram oportunidade de o conhecer a fazer uma pequena ideia da sua importância nesses tempos de tertúlias e encontros de intelectuais (com muito álcool e tabaco à mistura). Irresistível, portanto.

Comentários

  1. É caso para dizer que no Botequim da Liberdade estão muitas almas; não todas, como no romance de Javier Marías, que julgo estar esgotado.

    ABC

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  2. Curioso... ainda há dias prantei no meu mural do ... face book (desculpa lá ó Severino, mas este é dos que não sei como traduzir... eheheh!) um
    texto de Natália Correia, com previsões de pitonisa!

    Porque é que o Fernando Dacosta não faz um guião para um pequeno filme?

    E já agora, de tertúlias com ar puro e água mineral, duvido que saísse alguma coisa de jeito!
    Se bem que agradassse aos modernos cruzados... é que esses me parecem antes nebulosos nas idéias e ébrios nos propósitos!

    Saudações kaluandas

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  3. O Fernando Dacosta é um indivíduo bastante criativo e muito dado ao surrealismo.

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  4. o botequim continua vivo, e mesmo sem a alma de outrora é um sítio que vale a pena visitar! para petiscar, beber um copo e conversar :)

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  5. Atenção que é talvez enganosa, talvez tendenciosa, a imagem mediática que ficou de Natália, associada à exuberância, à boémia, à brejeirice (ficaram talvez demasiado famosos aqueles versos que fez no parlamento a propósito de um deputado que defendeu que o acto sexual apenas deve ter lugar com vista à procriação – sendo que o deputado tinha apenas um filho…).

    Não sou especialista em poesia, mas o certo é que, de vez em quando, cruzo-me com versos de Natália que demonstram toda uma outra dimensão, transcendente, do seu trabalho poético.

    Para melhor esclarecer o que quero dizer, e uma vez que entramos no Outono, apreciem-me só este pequeno poema e digam-me lá se ela não colocou aqui muito mais do que apenas os oito versos rimados:

    É um outono que não é outono.
    Tampouco a estação por que se espera
    na dor de nos deixarem ao abandono
    as ninfas que são flores na primavera.

    No entanto nas coisas o segredo
    de uma só alma põe a sabedoria
    dando à terra repouso no arvoredo
    de que o cedro é a sagrada biografia.

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    1. Poema com belíssima música ! Obrigado !
      Mas algo me deixa perplexo porquê o "cedro" e não qualquer outra árvore? Para mim é totalmente misteriosa a última estrofe.

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    2. Ao abrigo da liberdade da asneira, por demais consagrado na net e demais media:

      - A escolha do cedro, por ser uma árvore que à semelhança do cipreste é associada a cemitérios (sepulturas)? Cipreste seria demasiado longo... cedro é curto e tem esse significado.
      Será?

      Um abraço arbóreo!!!

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    3. “O cedro é a sagrada biografia do arvoredo”.

      Na minha interpretação, Natália consagra a longevidade própria dos cedros e as formas caprichosas que eles vão assumindo ao longo dos tempos, como que homenageando e perpetuando partes de outras árvores, entretanto desaparecidas – consagrando-lhes a biografia.

      Talvez tenha andado pela mente de Natália o facto de a variedade lusitana do cedro, o cipreste, estar na nossa cultura associado aos cemitérios – e daí a conotação com o sagrado.

      O cemitério é o sítio onde vai parar a nossa biografia – e, com os ciprestes, onde se eterniza a biografia de todas as árvores.

      Mas isto sou eu a interpretar, ou seja: a tirar benefício da poesia – que é, aliás, o que nos compete.
      Por isso, caro Artur, não me agradeça – agradeça a Natália.

      Um abraço.

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    4. Olha que engraçado, curioso, interessante! Só depois de colocar a resposta ao Artur é que verifico que o Pacheco já tinha trazido aqui a mesma interpretação.
      Valente Pacheco! Folgo muito que tenha visto o poema como eu o vejo.
      (E com isto o Artur sofreu dois golos de rajada. Mas é homem para recuperar e empatar o jogo)

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    5. Excelente explicação ! Eu não cheguei lá e faz todo o sentido. Obrigado !

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    6. O Joaquim Jordão tem a sensibilidade poética que me falha e me faz encalhar. Muito obrigado pela excelente explicação. É muito interessante para mim constatar que tanto o Joaquim Jordão como o António Luíz Pacheco, de modo independente, interpretaram a palavra cedro no poema de modo tão consonante. Que bela tertúlia online !

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    7. Eu tenho uma explicação talvez mais prosaica. O som "ê" de cedro está relacionado com o de duas outras palavras importantes no poema: segredo e arvoredo. Cedro está ali muito bem e desse ponto de vista não se arranjaria melhor.

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    8. Interpretação que não invalida as restantes.

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    9. Obrigado ! Bem interessante a sua interpretação e tem a ver com a música do poema que para mim é o que é mais belo nesta criação da Natália.

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    10. Exatamente, o que não invalida outras abordagens. Poema também é som e o som deste é soberbo.

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    11. Este aspecto do poema que o Paulo “ouviu”, e nos decifra, mais confirma que Natália trabalhava a poesia com empenho, sabedoria e talento, sendo portanto claramente injusta e tendenciosa a imagem mediática que dela ainda se faz prevalecer, associada à exuberância, boémia e brejeirice.

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    12. Caro Artur
      Gostaria que, já agora, visse o meu comentário à interessante observação do Paulo, aí abaixo.

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    13. Caro Pacheco
      Gostaria que visse, já agora, o meu comentário à interessante observação do Paulo.

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  6. "A nossa entrada na CEE vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-à miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser.
    Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente..."

    dixit Natália Correia (Botequim da Liberdade)

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    1. Ora aí está um afirmação avant la lettre que apoio.

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    2. Até dá arrepios ler este texto com algum tom premonitório... Mas sejamos justos: a Comunidade Europeia está na sua fase egoísta, mas já nos deu muitíssimo. A ingratidão não é virtude.

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    3. Olha... foste ver no meu mural do facebook ó Severino?

      Um abraço internáutico!

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    4. Inteiramente de acordo Extraordinário Artur!

      A Europa da CEE ou da UE (por muito que se não goste delas) trouxeram-nos aquilo que a longa noite do Salazarismo nos tirou... isso é inegável, seja qual for a nossa orientação política!

      Sejamos sobretudo esclarecidos - e julgo que Natália Correia era - ao perceber que nem tudo antigamente era bom e nem tudo hoje é bom, como nem tudo no amanhã será bom!
      A modernidade apresenta uma factura que vai sendo paga ao longo da existência... foi paga pelos nossos antepassados que evoluiram até nós, é paga por nós que demos o salto em frente e será paga pelos nossos descendentes, na sua continuidade.

      Por isso é que há saudades e esperanças, coisas que são necessárias ao nosso equilíbrio e viver.

      Saudações kaluandas!

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    5. Ó Pacheco por acaso não tenho facebook mas já tenho o livro lá em casa tá na bicha) e, entretanto , vou-o desfolhando - aqui vai mais esta premonição:

      "As primeiras década do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A CEE vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, o Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas..."

      Anda Pacheco

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    6. Não sejamos avaros... eis o texto de Natália:


      As premonições de Natália Correia

      "A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista".

      "A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!"

      "Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente".

      "Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica".

      "Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão".

      "Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?"

      "As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir"."


      Natália Correia

      Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993

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    7. Extraordinário texto ! Obrigado pela sua transcrição completa ! Eu, que também nasci em S. Miguel, fico ainda mais orgulhoso da minha patrícia.

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  7. Pronúncia de Cedro

    A pronúncia correcta, aliás de esperar porque em latim o e da palavra era breve, sempre foi com vogal tónica aberta, como em leve ou pé. Portanto: /cédru/.

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    1. Assim sendo, cairá pela base a minha leitura que no entanto não pretendia ser mais do que isso. Radica no facto de toda a vida ter dito cedro com som ê, provavelmente mal, à semelhança por exemplo de joelho que em Lisboa (ou Lesboa) ouço sempre dizer joeilho. Vá-se lá saber como diria Natália?!...

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  8. A palavra cedro (em inglês, "cedar") vem do Hebreu "qatar", significando "manchar", indicando que a madeira de cedro era utilizada em rituais de purificação e limpeza. No Himalaia, o cedro é chamado de "deodar", da palavra do Sânscrito "devdar", significando "timbre dos deuses".


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