Fugir das palavras

Li há tempos um belo artigo do jornalista Tiago Bartolomeu Costa no jornal Público sobre uma mesa-redonda durante o último Festival de Teatro de Avignon, para a qual foram convocados filósofos com o objectivo de darem o seu contributo para, de algum modo, se prever o que acontecerá no futuro e nos ajudarem, com as suas ideias, a sairmos desta terrível crise. Ups! É melhor não utilizar sequer a palavra «crise». Yves Citton, o pensador suíço presente no debate, alega que «o uso de certas palavras tem como objectivo a não produção de pensamento» e que, se em vez de os políticos dizerem «despesa», disserem «investimento», o mais provável é não sentirmos que estamos em crise (e lá disse eu outra vez o vocábulo proibido). E propõe que, em lugar de andarmos à procura de hipóteses e explicações, há que responder com concretizações – logo, a imaginação tem de ser posta a trabalhar, porque, como diz o filósofo francês Didi-Huberman, «de cada vez que se cria uma nova forma, cria-se um desejo de transformação». Toca, pois, a pensar – e a deixar de falar em... não, agora já não me apanham a repetir a palavra.

Comentários

  1. Pois então não falemos da tal «coisa»!
    Eu, por mim, vou falar do próximo Bairro Alto, rtp 2, sábado às 22horas.
    Vi no teletexto que é com a Maria do Rosário Pedreira...
    Será?
    É que se for, é mesmo um programa a não perder!
    Não acham?
    :)
    Antonieta

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  2. Não sou filosofa... Meu Deus, longe de mim, mas essa coisa de se focarem nas palavras negativas é como uma alavanca que funciona do avesso, afunda-nos. Isso tenho por experiência. Aqui por terras de França, segundo se fala na Europa, também há essa coisa, mas dificilmente se ouvem os noticiários falar na palavra e o certo é que a coisa funciona... Tudo consome à grande e à francesa. Experimentem, como eu fiz várias vezes quando estava em Portugal, deixar de ouvir noticias por uma semana que seja... Tudo muda. Os problemas deixam de ter o peso da palavra que nos bombardeia a toda a hora.

    Um abraço leitores extraordinários e cara anfitriã

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  3. António Luiz Pacheco4 de setembro de 2013 às 02:32

    Crise? Qual crise? (Digo em português por respeito a notório Extraordinário fortemente inimigo de anglicismos).
    By Supertramp... (Intraduzível ó A.S.)
    Lembram-se?

    Saudações kaluandas!

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    Respostas
    1. Intraduzível Extraordinário Pacheco?
      What about Super Vagabundos?
      Lembra-se daquela do Francis Albert «The Lady is a Tramp»?
      Saudações Beirãs!
      Antonieta

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    2. Ó Pacheco neste caso é absolutamente intraduzível - Crisis, What Crisis - de qualquer modo obrigado se te lembraste de mim (ou de alguém que comunga da minha crença).
      Anda Pacheco...

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  4. Há quem chame lei da atracção a uma postura que avisa para se usarem palavras positivas e descartarem-se as negativas. Assim, se queremos a ausência de chuva, por exemplo, não devemos dizer 'Não quero chuva' e sim 'Quero sol', pois a palavra 'não' por si só é negativa (grande conclusão...).
    A verdade é que há palavras que, tal como certos comeres ou peças de roupa, cansam e enjoam. Crise é uma delas neste momento, mas temos que a engolir, que a vestir, que a viver :(

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  5. Que interessante ideia !

    Seria de facto fantástico se conseguíssemos sempre seguir o conselho de, perante uma dificuldade, "responder com concretizações" em vez de respondermos com palavras "que produzem não pensamento" e que, portanto, impedem a transformação (mas que nos seduzem pela efémera segurança que as palavras-chavão oferecem).

    Sossegar e inativar o pensamento pela escolha e repetição de uma palavra-chavão é cada vez mais uma atitude dos europeus; em contraste, os americanos continuam pragmáticos e são mais de responder com concretizações. Não acabaram eles hoje de comprar a Nokia, a última grande empresa europeia da área das novas tecnologias?

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