Bebé sabe

Tenho um irmão que é professor universitário e sempre viveu rodeado de livros (quando, na infância, eu lia quadradinhos, já ele lia a História Universal da Verbo, em dez volumes, durante as férias). Esse meu irmão tem três filhas, a mais velha das quais foi um bebé voluntarioso e independente que nunca deixava que lhe fizéssemos nada (nem sequer dar de comer), empurrando-nos e respondendo apenas: «Bebé sabe.» Um dia, estava o meu irmão a fazer um trabalho importante com vários livros abertos sobre a secretária quando ela começou a mexer-lhes e a fingir que os lia. A princípio, ele achou graça, mas, ao fim de um quarto de hora, reparou que ela lhe tinha desmarcado as páginas e começou a ficar ligeiramente aborrecido. Mandou-a então ir brincar com os livros dela, que tinham bonecos, dizendo-lhe que aqueles livros que ali estavam só tinham letras e que não lhe serviam para nada, pois ela (então com dois anos e meio) não sabia ler. A resposta, contudo, foi a de sempre: «Bebé sabe.» Precisando de retomar o trabalho e querendo pôr fim às interrupções, ele decidiu que o melhor era desafiá-la, passando-lhe um livro aberto e dizendo-lhe: «Então, se sabes ler, diz lá o que é que está aqui escrito.» Contra todas as expectativas, ela não se deixou abater: acompanhou com o dedo minúsculo uma linha inteira do texto (como certamente já vira alguém fazer) e respondeu com ar maroto ao cabo de uns instantes: «O bebé pode mexer nos livros do pai.»

Comentários

  1. Que história deliciosa, obrigada por partilhar! :)

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  2. Uma "mulher e peras" essa menina :)
    ~CC~

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  3. Teremos de ter cuidado com essa menina quando crrescer, que seja sempre "perigosamente" atenta ao mundo e não se deixe convencer com o habitual...

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  4. Vamos ter uma leitora exigente e criativa. Que história maravilhosa. Obrigado.

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  5. este bebé leu
    e gostou
    e também sabe

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  6. Olá bom dia

    Venho aqui diariamente e adoro acompanha-la. Hoje a ternura desta partilha já marcou o meu dia com um sorriso bom. Também tenho uma dessas miúdas em casa. Tem dois anos e sempre que faz alguma asneira arranja sempre "alguém" responsável pelo disparate. Quando não se lembra de mas ninguém (pois vamos contra argumentando) é a nossa gata que leva com as culpas e às vezes consegue ir mais longe e chega mesmo ao cão da nossa vizinha! Obrigada pelas partilhas. Bom fim de semana! Isabel Mota

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  7. Cristina Gomes da Silva3 de julho de 2010 às 01:41

    Reencontrei este pai há dias, ao fim de alguns anos, e encontrei o mesmo sorriso de sempre...se calhar não deixou que se perdesse e a "sabedoria" sorridente do bebé colou-se-lhe ao rosto. abraço de cá :-)

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  8. sonia ferreira da silva6 de julho de 2010 às 14:34

    Queria ter sido um bebê assim! Quem sabe onde estaria hoje?

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