Juvenil ou nem tanto

Hoje, muitos adultos consomem literatura claramente juvenil – Harry Potter e aquela saga dos vampiros muito em voga são exemplos disso. Pessoa escreveu que um bom livro para crianças deveria ser lido sem enfado por todos os adultos, mas nos casos que referi não creio que se trate exactamente disso (talvez avançasse com a infantilização de alguns leitores, mas também não estou completamente segura deste argumento). Sei, contudo, de alguns títulos que podem ser partilhados por leitores de várias idades e que todos o lerão, se não com o mesmo entusiasmo, pelo menos com igual interesse. Antes de mais, O Principezinho, de Saint-Exupéry, ou Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez. Mas também A História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda, ou Os Capitães da Areia, de Jorge Amado (neste último, há uma cena inesquecível em que um menino ensina a outro a diferença entre um gato e uma gata, explicando que ele tem um saquinho de moedas e ela uma ranhura de mealheiro). E porque não Cão como Nós, de Manuel Alegre, que, sendo um livro escrito para o público adulto, pode e deve ser lido por adolescentes (sobretudo se estes tiverem perdido um animal de estimação)?

Comentários

  1. ...que curioso... ontem, a minha mãe de 80 anos pediu-me O Principezinho para ler ... e claro, eu que o lera aos 10, não resisti, antes de lho entregar, a voltar a relê-lo: 30 anos depois descobri-lhe ainda mais encanto!

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  2. "História de um Cão de Circo", de Jack London; "Tempestade na Jamaica", de Richard Hughes; "O Deus das Moscas", de William Golding - li-os todos quando era "juvenil" e asseguro-vos que aprendi muito e, claro, deliciei-me na leitura e inquietei-me em algumas passagens. São todos melhores do que os Harry Potter, os vampiros delicodoces e as memórias caninas do poeta que também mata animais. Os três livros tinham, nessa altura, edições em português. Hoje talvez já só reste "O Deus das Moscas" em qualquer (re)edição.

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  3. O Menino Nicolau e todos os episódios da série, cujos desenhos de Sempé permitiram anos depois essa maravilhosa viagem de retorno à infância que é a História do Senhor Sommer . E a propósito de Maravilhosa Viagem, também aquela que fez Nils Holgersson onde fui buscar o meu nick para a internet.

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  4. Olá!
    Sabe, já tinha reparado nisso, mesmo não tendo ainda uma opnião formada acerca do assunto, acho que se trata de markting, o que leva à curiosidade...(isto em relação à saga dos vampiros).
    Já o Princepezinho, sou de opnião de que, quem gosta, deve lê-lo nas mais variadas alturas da vida. Por exemplo, a primeira vez que o li, tinha 8 anos... voltei a lê-lo com 12, e li-o à pouco tempo, agora que tenho quase 19... Cada vez que o li, deu-me uma mensagem diferente. É um belo livro que deve acompanhar o nosso amadurecimento.

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  5. Li todos esses exemplos, do Harry Potter aos vampiros e, mais afectivamente, O Principezinho... Quanto ao último não me deixou de todo vazia, descobri-o na infância, reencontre-o na adolescência através de uma amiga e, já na faculdade, uma colega fez-me viver algumas passagens. Ele é um todo. No outro dia, na Livraria Pó dos Livros, uma simpática funcionária deixou-me folhear a edição pop-up (bonito). Um livro para sempre, arrisco.

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    1. Tenho ideia dessa cena (a do saquinho de moedas vs rachadura), mas de um livro do José Mauro de Vasconcelos. Não apostaria se é n'O Meu Pé de Laranja Lima ou no Vamos Aquecer O Sol. Na verdade, são tal de forma continuação um do outro que o meu coração de criança nunca os distinguiu convenientemente, e não o faz melhor, hoje, a minha memória de adulta. Em todo o caso, recordo-me vivamente, isso sim, que a explicação era dada por Zézé (o protagonista) a um menino rico, seu colega de escola, que por esmola lhe emprestara a bicicleta e o levara a comer rabanadas em casa dos pais. Injustamente obnubilado, ou pelo menos recordado pelas obras menos tocantes, ainda que mais fáceis, José Mauro continua a ser um dos meus escritores favoritos.

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  6. Guardei frases escritas pelos meus alunos, quando (há meia dúzia de anos) leram Capitães da Areia:

    «É nas ruas da Bahia que os Capitães da Areia se aventuram – descobrem e pisam a linha sempre incerta que separa o Bem do Mal, a Inocência e a Violência, não se apercebendo da ousadia que é viver esta vida que não pediram.»

    «Com um sorriso tímido conhecemos os meninos da rua, com uma gargalhada sincera ficamos seus amigos, com angústia verdadeira conhecemos os seus perigos e com saudade nos despedimos destes nossos Capitães da Areia.»

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  7. E As aventures de Tom Sawyer, as de Huck Finn, a Ilha do Tesouro, Robinson Crusoé, Os Três Mosqueteiros...

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  8. Cara Maria do Rosário

    Sou uma jovem escritora e gostaria de entrar em contacto consigo. Uma vez que não sei qual a melhor forma de o fazer, gostaria de lhe pedir o seu email.

    Obrigada
    Sónia Alcaso

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  9. Por falar em Juvenil. O que aconselhava a um adolescente de 16 anos que iniciou férias e me pediu para lhe indicar livros para ler.

    Antes leu Harry Potter (todo). Leu Orgulho e Preconceito e gostou (mas era na escola).
    Indiquei-lhe Patrick O'Brien.

    Sugestões?

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    1. "Orgulho e Preconceito e Zombies" :-) É bastante divertido e respeita muito o original!

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    2. Todos os adolescentes são diferentes e, sem conhecer o rapaz, é difícil, porque nem sempre se consegue empatia com um livro. Mas dê-lhe a ler, por exemplo, A Ilha do Tesouro, do Stevenson. É um grande pequeno livro e, se ele gostar, óptimo.

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  10. Aquele escritor que morreu recentemente e você escandalosamente nem referiu o seu nome dizia que os livros para crianças deviam ser lidos pelos adultos.

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  11. parece faltar aqui um dos principais, 'o gato malhado e andorinha sinhá' do Amado. para mim foi O livro.

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