Escrita criativa
Nunca frequentei cursos de escrita criativa e imagino que haja de tudo, do melhor ao pior. Como editora, sou muitas vezes vítima de maus cursos – ou maus alunos, que não conseguem aprender que descrever uma personagem não é exactamente dizer quanto mede e pesa (juro que já me mandaram um original que era exaustivo em relação a estes detalhes de cada vez que introduzia uma personagem). No entanto, concordo que há exercícios que podem ajudar alguém que já tenha algum talento a organizar as ideias e escrever melhor. Sobre exercícios, conheço, ainda assim, um livro que é a todos os títulos excepcional. Chama-se Exercícios de Estilo, foi escrito por Raymond Queneau e, embora o tenha em francês numa edição de bolso daquelas baratinhas, penso que já existe em tradução portuguesa (quase juraria que foi publicado na Âmbar ou na Sextante pelo João Rodrigues). Nele, o autor descreve mais de cem vezes o mesmo episódio, mas sempre de diferentes pontos de vista: probabilístico, metafórico, macarrónico, injurioso, olfactivo, exclamativo, precioso, animista, onírico... Uma maravilha para quem queira treinar as suas capacidades criativas (ou assistir às de outrem).
Bom-dia, com Queneau e muito estilo. Abraço e bom fim-de-semana :-)
ResponderEliminar"Exercícios de Estilo" de Raymond Queneau, foi editado pela Colibri na colecção Voz de Babel N.º 7 (2000), mas deve estar esgotado. ;)
ResponderEliminarObrigada pela informação. Não há como uma boa livraria para nos esclarecer.
EliminarO site da Colibri diz que está esgotado. Há um blog brasileiro que disponibiliza uma digitalização em pdf da edição brasileira, aqui: http://www.4shared.com/document/8CD57ha7/Raymond_Queneau_-_Exerccios_de.html.
EliminarO blogue é:http://cabeceiradigital.blogspot.com/2010/04/exercicios-de-estilo-raymond-queneau.html
Acho que para já vou querer assistir...
ResponderEliminarCoincidência das coincidências (o tema), tenho precisamente em mãos "A Fé de um Escritor", de Joyce Carol Oates, um livro premiado e recente, publicado em 2003 e coligindo uma série de ensaios da aclamada autora, publicado pela Casa das Letras e que adquiri pela pechincha de pouco mais de 4 Euros na Fnac (um "crime, considerando que nem sequer edição de bolso é). Este, graças a Deus, não fala de escrita criativa, mas da natureza do escritor. E é, por vezes, brilhante ou, mais do que isso, reconfortante.
ResponderEliminarDeixem-me ser um pouco mais abrangente. É essencial saber escrever. Ou, pelo menos, saber utilizar bem as ferramentas da escrita e ter uma boa experiência. Admito que aprender por via da "escrita criativa" (talvez essencial para quem nunca teve de, escrevendo, criar...) possa ser extremamente importante. Haverá decerto um elemento determinante mais pessoal que é difícil de avaliar. A experiência adquirida pela leitura parece-me fundamental. Mas encontrar numa empresa editorial um(a) interlocutor(a) culto(a), inteligente, rigoroso(a), maleável e de bom discernimento que seja capaz de melhorar o trabalho feito e de ajudar a pessoa que escreveu a história a apresentar uma versão mais interessante e mais digna é mesmo essencial. Por cá, acho que pouco se usa, infelizmente. (Ressalve-se, que é de justiça, o que os restantes frequentadores deste blogue saberão: a autora deste blogue é uma dessas pessoas.)
ResponderEliminarHomero criou Ulisses e Ulisses, no país dos Feaces, ao ouvir o aedo local contar a sua história (que Homero estava a criar) chorou.
ResponderEliminar- Que tem isto a ver com «exercícios de escrita criativa»?
Tem que a leitura das grandes obras nos reescreve a nós e ao mundo e ilumina o nosso uso das palavras.
Confesso que frequentei um curso desses no início deste ano. Nele parece-me ter aprendido que:
ResponderEliminar- Mesmo para as pessoas com talento natural para a escrita, é fundamental uma grande disciplina. Escrever apenas quando a inspiração «pede», dá poucos resultados.
- Se pode escrever sobre tudo. Alguns dos exercícios de escrita que fizemos foram a partir de objectos e houve resultados surpreeendentes!
Fico com muita vontade de ver/ler esse livro e aproveito para lhe agradecer esta partilha! Vale a pena espreitar o seu blogue todos os dias e como estive doente, tenho uns posts em atraso (e isso é bom)!
"Concordo que haja exercícios que podem ajudar alguém que já tenha algum talento a organizar as ideias e escrever melhor". Nem mais!
ResponderEliminarNa Europa, há muitos preconceitos em relação aos cursos de, ou livros sobre, "escrita criativa". E, no entanto, toda a gente acha bem que um miúdo ou um jovem que tenha jeito para pintar frequente aulas de pintura; ou uma miúda ou jovem que tenha jeito para representar frequente um conservatório de teatro; ou um miúdo ou jovem que tenha jeito para a música frequente um conservatório da dita. Porque não chega ter as melodias na cabeça, é preciso saber passá-las para o papel.
A qualidade dos cursos e/ou livros é que será discutível. E, para quem não tem talento, não há "escrita criativa" que lhe valha!
Eu já tenho "escrita criativa".
ResponderEliminarArranja-me um bom nº de problemas ;).
O que eu quis dizer foi que os exercícios de "escrita criativa" podem ajudar a aplicar melhor o talento, a aperfeiçoá-lo, a discipliná-lo. E desenvolver um talento escondido, porque há gente que o tem e não sabe (não será muita, mas há; o Van Gogh já tinha passado os trinta quando começou a pintar, talvez antes disso achasse que não tinha jeito para o desenho :)
ResponderEliminarTalento e "escrita criativa" não se anulam, mas completam-se.
Agora, quem não tem ouvido para a música, pode frequentar centenas de cursos, que nunca comporá nada de jeito!
A propósito de cursos de escrita criativa, mas não só por isso (nem pouco mais ou menos) vale a pena ler a entrevista do Philip Roth ao Estado de São Paulo. Ligação no sítio da revista Ler (que é feito dela, que hoje já são 6 e nada?)
ResponderEliminarVim aqui por causa do Editing, via Facebook, e li tudo o que estava à vista. Estou a ver se "agarro" o livro do Queneau, que só conhecia da Zazie e das Flores Azuis. Exercícios de Estilo, se a memória me não falha, li há uns anitos os do Luiz Pacheco.
ResponderEliminarJá cá tenho os do Queneau... para o que der e vier.
Obrigado pela sugestão e pelos textos que tive o gosto de ler.
Ao contrário da gestual ou musical,etc, a linguagem verbal é a 1ª das linguagens, vem antes, precede. A Vida toda são aulas de escrita criativa, porque são aulas de leitura criativa.
ResponderEliminarNa minha opinião, cursos de escrita criativa podem ser hobbies engraçados (ou nao), podem ser uma coisa boa pra quem quer brincar às estórias e ouvir as palavras dos colegas e do "professor", o qual sugere exercícios-segredos-maneiras-perspectivas (que nem numa biblioteca borgiana cabem, de tão inesgotáveis..., e misteriosos) para que os "alunos" passem a escrever com mais força(?), classe(?), sucesso(?) ... (o que se pretende, no fundo, com esses cursos, para lá do passatempo e dos euros? Dar a receita do infinito em 10 semanas ?
Creio que quem tem visão e emoção largas, sensibilidade artística, invenção distinta, domínio da(s) língua(s), e é sui generis escreve e tenta publicar: aqui é que está: como se publica ? , como funciona o processo «feitura de um livro e sua ediçao» ? , tem de se ganhar 1 prémio antes? , ou nao?.., e sao mesmo as sábias pessoas das boas editoras que notam o traço incontornável do talento, do interesse dum texto?
Sou um jovem adulto, fiz 28 anos, tenho uma licenciatura da FLUP. Quero ser escritor (digo-o sem rodeios). Sei que ainda nao o sou, porque falta-me escrever muito mais, e ler tb, e observar e experienciar o mundo. Mas é isso que quero.
Não encaixo em cursos, nem num mestrado (isso confina-me). Aprendo se gerir eu a minha curiosidade, o meu tempo, as relaçoes, as matérias, as escolhas, os critérios, a descoberta das analogias. Sou hiper-autodidacta, e muito plural ao mesmo tempo. :))
Quem me responde, em tom de conselho, umas palavras ? ..
Em breve terei um blog sobre escrita criativa . Tal em como todas as outras coisas, apesar de ser uma criação de cada pessoa, tudo tem regras. Podia pôr aqui algumas dicas para se escrever um livro, uma vez que já tenho livro publicado e dois cursos de "escrita criativa ". Agora depende do que se quer escrever, ficção, poesia ou, biografia própria, ou de terceiros. Na minha opinião pessoal quanto mais "ligeira" for a linguagem que se use, mais adeptos se arranja. Escrever só para mostrar que somos uns intelectuais de topo, e usar palavras rebuscadas, não é boa ideia. A história tem de ser bem contada não descurando os pormenores, pois são os pormenores que dão beleza à obra.
EliminarRogério Amorim
O problema não é só escrever bem, é, que outras pessoas reconheçam o nosso trabalho, ou seja, as editoras. Quem não tem estatuto mediático, dificilmente vingará no campo da escrita.
ResponderEliminarRogério Amorim
Isso de ser-se mediático pra vingar como escritor é , no mínimo, parvo. Nao digo que nao aconteça: mas é duma baixeza cruel e assassina.
EliminarEstá o mundo ao contrário: "sou conhecido, posso vender livros"; e nao: "faço bons livros, e como tal sou conhecido".
E há gente que dorme tranquila...
Estou completamente de acordo mas, falo por experiência própria. Até 22 de Dezembro de 2010 não poderei comentar o porquê desta minha afirmação, pois encontro-me vinculado a uma editora por dez anos e, felizmente acaba neste Dezembro próximo. Quem meter no Google Rogério Amorim e o livro "Costa dos Esqueletos" irá saber a que editora me refiro. Em dez anos escrevi 6 romances , os mesmos estão à espera de me desvincular da minha editora para serem apresentados a outra. Mas, há sempre um mas, as editoras, as quais eu conheço um pouco, o modo em como trabalham. Geralmente têm medo de apostar em escritores "anónimos", ou seja, sem o tal estatuto mediático Eu escrevi a "Costa dos Esqueletos" que foi uma das maiores aventuras da nossa descolonização. A editora apostou em marketing? Não! Apenas quis mais uma livro para enriquecer um seu ex-líbris, numa colecção que tem, "Viagens e Aventuras" E mais poderia pôr aqui em relação ao meu livro, mas não o faço, pelo menos para já. Um pivô de uma televisão escreveu "Retornados" e foi um sucesso de vendas. Porquê? Só pus o comentário "mediático" pois é a verdade. Não estou a desencorajar ninguém senão estaria a desencorajar-me a mim com 6 livros à espera de serem editados. Nos últimos dez anos tirei dois cursos de escrita criativa e um de guionista . Em breve irei fazer um blogue para a partilha de experiências neste campo. Porei alguns extractos de textos dos meus livros e poderei receber também extractos de livros dos que querem abraçar a escrita. Mostrarei a estrutura de um livro e poderei dar sugestões, dentro da minha pequena experiência.
EliminarSaudações
Rogério Amorim
Olá a todos.
ResponderEliminarJá tenho o meu blogue de escrita criativa e guionismo. O meu obrigado.
Rogério Amorim
http://escrita_criativa_guionismo.blogs.sapo.pt/
Aconselho aquele que é, para mim, o melhor livro português sobre esta área, porque não se limita a exercícios, mas apresenta muitas técnicas. Chama-se "Introdução à Escrita Criativa" e é do professor de Escrita Criativa na Universidade de Aveiro João de Mancelos: http://joaodemancelos.wordpress.com/2010/01/22/introducao-a-escrita-criativa/
ResponderEliminarObrigado pelo link do livro , Liliana. :)
EliminarÉ interessante.
Mas, a minha grande questao é: como se edita, como se publica bem 1 livro? Como se é escritor sem antes ser conhecido por isto ou aquilo? Como sê-lo só porque se sabe que se é muito bom nisso e quer-se ser reconhecido por isso, e nao o inverso...?
Os Beatles tinham grande música, e por isso tiveram sucesso e foram famosos com justiça. Mas o George Martin soube vê-los, apostar, ajudar.
Nos livros nao é assim ?! Aposta-se ou nao? Vai-se pela cara do autor? Pelo seu passado académico ? Oh, mundo estúpido: entao nao é o objecto presente que vale?
Quem avalia a profundidade e riqueza dum livro? Não há editoras que apostem num rapaz só porque ele fez algo de grande? Depois os leitores, o público sentirá atracçao ou nao, ou mais ou menos, pelos textos.
´Stá na altura de gritar a ruindade do mundo , ou dormir de vez ..
Boa tarde,
ResponderEliminarPara grande pena minha só hoje vi este post.
E foi precisamente por andar em busca de cursos de escrita criativa. Gosto de escrever pois, além de funcionar como escape da minha introspecção, constitui o caminho profissional que sempre quis seguir. Acabei de me aperceber que os cursos de escrita criativa não são tão baratos, tão perto e/ou tão completos quanto isso, pelo gostaria de perguntar como desenvolver mais esta vertente, além de resolver os exercícios supracitados e da leitura constante.
Obrigada e votos de muito sucesso no blog!
Sim, é uma excelente recomendação. Existe em português, mas não tenho livro físico, só em pdf.
ResponderEliminarEncontrei este seu cometário por acaso. Ando aqui, na NET, em busca de informação sobre a dita "Escrita Criativa", porque me pediram para juntar às aulas que vou leccionar numa Universidade para a 3ª idade, sessões de escrita criativa.~
ResponderEliminarTem-me sido difícil preparar uma coisa dessas, porque não acredito nessa coisa de se ensinar a escrever de forma criativa. Penso que, ou se tem algum talento para escrever e um razoável conhecimento e domínio da Língua Portuguesa, ou nada feito!
Vou aproveitar a sua sugestão do livro "Exercícios de Estilo".
Obrigada!
Cumprimentos cordiais
Natércia Fraga
Encontrei este seu comentário por acaso. Ando aqui, na NET, em busca de informação sobre a dita "Escrita Criativa", porque me pediram para juntar às aulas que vou leccionar numa Universidade para a 3ª idade, sessões de escrita criativa.
ResponderEliminarTem-me sido difícil preparar uma coisa dessas, porque não acredito nessa coisa de se ensinar a escrever de forma criativa. Penso que, ou se tem algum talento para escrever e um razoável conhecimento e domínio da Língua Portuguesa, ou nada feito!
Vou aproveitar a sua sugestão do livro "Exercícios de Estilo".
Obrigada!
Cumprimentos cordiais
Natércia Fraga