Meia dúzia de páginas
Hoje, no mundo editorial, debatemo-nos muitas vezes com um problema: quando nos enviam livros demasiado curtos, hesitamos sobre se devemos ou não considerá-los para publicação. Os livros pequenos desaparecem nas livrarias, onde todos os dias se acumulam títulos novos, muitos deles autênticos calhamaços, que logo os escondem; e, ao mesmo tempo (com a excepção da poesia), os leitores parecem preferir dar dinheiro por alguma coisa que se veja a gastá-lo em meia dúzia de páginas que, até chegarem a casa – se a viagem for de metro ou autocarro –, já estarão lidas. Mas, se calhar, devíamos emendar a mão, porque há textos curtos que são verdadeiras obras-primas. Lembro-me, a este propósito, de A Comunidade, de Luiz Pacheco, que é das coisas mais belas que li em toda a vida e possuo numa edição pobre, agrafada, nem sequer bem impressa. Mais tarde, comprei outra, ilustrada julgo que pela Teresa Dias Coelho, que ofereci a alguém de quem devia gostar muito. Neste livro com meia dúzia de páginas, há mais literatura do que, por vezes, se encontra na obra inteirinha de um autor. Ou de vários.
ao que chegámos! se é assim, se no mundo editorial (não posso e não quero acreditar em tal barbaridade) conta mais o tamanho que a qualidade da obra (!!!), então o melhor é passar-se a vender os livros a peso...
ResponderEliminar...olhe, dê-me cem gramas de Hemingway, fininhos, se faz favor...
uma vez li um "livrinho" que ficou na memória. chama-se "A casa de papel" de Carlos María Domínguez . numero de páginas, 80. qualidade, muito bom.
ResponderEliminarApós a leitura deste post lembrei-me logo do "Bartleby" de Melville. Livro "pequeno" com o mundo lá dentro.
ResponderEliminarAí está o que poderá distinguir um bom editor de um mero publicador de livros.
ResponderEliminarNinguém ignora que a edição (cada vez mais) é um negócio que, como qualquer negócio, visa o lucro.
No entanto, os editores (os dignos de desempenhar tal profissão) não devem chamar a si a função de gestores reservando-se a prerrogativa de publicar boa literatura.
A publicação de lixo literário (ainda que rentável) terá inevitavelmente o afeito adverso de afastar a boa literatura do mau editor.
No fundo, e como em qualquer profissão, é tudo uma questão de seriedade, perfeccionismo e gosto pelo que se faz.
Cronopio (armado em fama)
Cronopio cronopio cronopio .
EliminarJá aqui se falou dos livros de contos, tão finos que eles são.
Nos livros pequenos moram Cronópios , Famas e Esperanças, nêsperas deitadas na cama a ver o que acontece, gente que confunde o género humano com o Manuel Germano, Dinossauros que quando se despertam ainda lá estão, Amores Difíceis, Sociedades para a apreciação do homicídio e Crimes Exemplares.
Os livros talvez devessem vir com uma indicação da densidade na capa: 5 ideias por grama de papel, 2 assombros por página, uma alegria por capítulo.
adorei este comentário, e o texto da Maria do Rosário...
EliminarUm dos livros mais belos que já li - e já li uns quantos - está na categoria das pérolas que se perdem no meio dos pesados camafeus. Os "danos" que permanecem são irreparáveis; muito poucos livros de mais 200 páginas o conseguiram. Chama-se "A Casa das Belas Adormecidas" de Yasunari Kawabata.
ResponderEliminarC. Drios
distender uma história é o menos difícil da escrita.
ResponderEliminaro que é difícil é deitar uma história interminável num lugar acanhado, onde em princípio só nos podemos sentar.
ter mais notas do que livro.
mas também é verdade que, sendo tecnicamente possível escrever uma obra-prima em dez páginas, o menor romance do mundo, a sua aparência física tem de contar. ilustre-se então, ou encha-se de silêncio, como queria o outro rapaz:).
por isso, porque havemos nós, os que lemos, e que andamos sempre a suspirar pelo prazer físico do livro, dizer que não conta?
conta um bocado, sim senhor, e faz ou deve fazer parte das preocupações do autor.
de resto, palavras nem leves nem pesadas
PS: perdão pelo ataque valterhugomaterno ; não sei o que me deu...!!!! (repararam? reticências, pontos de exclamação, arrepios:), mas agora fica assim ponto final
Um exemplo mais... o pequeníssimo e arrebatador "Máscara de Neve" de Cees Nooteboom , que a Queztal publicou muitíssimo recentemente.
ResponderEliminarEis um pequeno grande livro de contos, que li, e de que tive conhecimento através de uma nota crítica de João Barrento:
ResponderEliminar"Pequeno tratado sobre as ilusões", de Paulinho Assunção, Campo das Letras - Editores, S.A., 2003
Olá. Fã na literatura concisa e sumarenta, fiquei curioso e vou espreitar 'A Comunidade'. Aproveito para convidar para o meu www.22diasuteis.blogspot.com. Até breve.
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