Editing

Não sei o que se passou com a comunicação social, mas de repente toda a gente me pede entrevistas por causa de uma coisa chamada editing. Tenho gosto em falar do que faço, evidentemente, mas sinto que me transformaram numa espécie de arauto do editing, como se fosse a única pessoa em Portugal a praticá-lo. Por isso, além de gostar de que os nossos jornais se debrucem sobre o meu trabalho, gosto de poder explicar realmente o que faço, porque muita gente tem a ideia errada de que escrevo nos livros dos outros e sou uma santa milagreira capaz de transformar livros maus em livros que ganham prémios importantes. Nada disso. Acredito que existam editors no Reino Unido ou nos EUA que escrevam partes de livros em vez dos autores; e creio que, em Portugal, quando se encomendam romances a figuras públicas que nunca escreveram antes, em alguns casos deve haver alguém que escreve por elas ou dá, pelo menos, umas pinceladas, recebendo o suficiente para se manter anónimo (em Espanha chamam a estes ghost writers «negros», calculem). Não é, porém, o meu caso – e, se o livro não for bom, não há como salvá-lo (podemos salvar-nos não o lendo nem publicando, e é tudo). O editing que pratico passa sobretudo por uma conversa e é apenas uma pequena ajuda de um leitor profissional a um escritor que é bom comigo ou sem mim, não mais do que isso – e muitos autores portugueses, se não a têm dos seus editores, tê-la-ão seguramente de amigos e confrades habilitados a dar-lhes uma opinião que, antes de tudo, se baseia no bom senso e na experiência de leitura. Não é, como vêem, uma questão de varinha mágica: se o autor não tiver talento, nada feito.

Comentários

  1. Com esta é que eu não contava: pensava que a Rosário editava (e bem) livros, mas afinal faz "editing" de livros! Fiquei triste.

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  2. eu também...

    estes estrangeirismo cada vez me irritam mais.

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  3. "Negros"? Talvez por actuarem na sombra, no escuro? Gosto de acreditar que seja essa a explicação...

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  4. Bem, "ghost writer" também é um estrangeirismo.

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  5. Meu caros, estava eu preparado para comentar o artigo, mas afinal vou ter de comentar os comentadores:). Deixo, antes de mais, a indicação de que sai, hoje mesmo, um artigo no jornal "i" sobre os escritores-fantasmas.
    Mas nem de propósito.
    Contou-me alguém bem avisado que andam para aí revisores a substituir a palavra "detalhe" por "pormenor", por ser, precisamente, um estrangeirismo.
    A um livro meu, se algum dia me fizerem isso, reagirei calorosamente à boa maneira nortenha, que me vou eximir de "detalhar" aqui:).
    Na literatura, meu caros, s.m.o . e sempre com o devido respeito, isso do estrangeirismo não existe. Não é incomum, como utilizador compulsivo do Houaiss que sou, eu escolher palavras de outros "portugueses". Na literatura estamos muitas vezes perante questões estéticas. Se queremos ser depurados, não podemos desdobrar o que fica muito melhor dito numa partícula com sonoridade notável. "Detalhe" é música, "pormenor" nem por isso.
    Mas não é só na literatura.
    Quase 9 em 10 falantes de português no mundo são brasileiros, esse mesmo povo que nós tendemos a tratar com sobranceria, como se fôssemos nós os donos da língua. Ora, o Brasil tem a tendência a aportuguesar os estrangeirismos, deixando-os entrar na língua naturalmente, para que comentadores sensíveis nem se possam dar conta de que é de estrangeirismos que se trata, e permitindo um pulsar e um respirar da língua.
    Mas, dizia eu, não é só na literatura.
    Na comunicação é fundamental ser abrangente.
    O encerramento das línguas a influências externas significa sempre atraso cultural e civilizacional. Nos tempos mais luxuriantes da língua portuguesa, os grandes autores, por vezes, comunicavam em francês (mais tarde inglês) entre si. Basta consultar e epistolografia de Eça, de Sá Carneiro, de Pessoa, etc , etc , e aqui já abranjo quase um século, que aliás acaba por ser um século desgraçado para um escritor contemporâneo, por muitas vezes monopolizar o conhecimento e a abordagem à literatura.
    Criticar um editor por usar estrangeirismos é, apenas e só, irrelevante, e até nocivo.
    Ele não só os deve usar, como deve dominá-los.
    Preocupemo-nos mais em comunicar, menos em apontar erros ausentes.
    E por favor deixem-me os estrangeirismos, na altura em que o que urge é deixarmos de chamar editores aos publicadores, ou editora às publicadoras.
    Editora é a Rosário. A Leya é o grupo publicador.
    E, pasme-se, não vem de publisher , não, mas do latim, publicatóre , que de qualquer modo é hoje uma língua mas estrangeira do que o inglês.
    Precisamente.
    Termino com esta:
    Devemos assumir, de uma vez por todas, que o inglês é também a nossa língua, a que permite um entendimento global, e já agora agradecer, em vez de maltratar.
    Cumprimentos a todos, sem rever.
    Pedro Guilherme-Moreira

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    1. Pela consideração que a Maria do Rosário me merece, e porque fui um dos comentadores do seu texto sobre "Editing", venho responder ao Senhor Pedro Guilherme-Moreira. Serei breve:
      1. O que eu disse está claramente corroborado pelo seguinte excerto do comentário confuso e desarticulado do Senhor Pedro Guilherme-Moreira: "E por favor deixem-me os estrangeirismos, na altura em que o que urge é deixarmos de chamar editores aos publicadores, ou editora às publicadoras. Editora é a Rosário. A Leya é o grupo publicador."
      2. O resto da carapuça não me assenta.
      3. Já que invoca o latim, dir-lhe-ei que a palavra "publicatóre". No latim não havia acentos. Em compensação existe uma outra que é muito oportuna neste contexto: "Editus"
      3. Se assentasse não deixaria de lhe responder, recomendado-lhe que evite generalizações e misturas de alhos com bugalhos. E que não dê saltos maiores do que as pernas.

      Cumprimentos

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    2. Corrijo: A palavra publicatóre não existe no latim.

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  6. Ah, e pareceu-me desnecessário dizer que já amanhã, 15 de Julho, estreia em todos o país o novo de Roman Polanski (vá, não o castiguem mais com cinismo e hipocrisia), que se chama, precisamente, "O Escritor-fantasma". Bons filmes, que muitas vezes são bons livros em si.

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  7. Mal do autor que não encontra - na empresa editora que lhe publicará o seu original - uma pessoa que faça o "editing" do seu trabalho, tal como a Maria do Rosário Pedreira faz (e bem!) e aqui apresenta. Julgo que, infelizmente, a maioria das empresas editoras não tem quem faça este trabalho, que não é de "ghost-writing" (e qual é o problema do inglês se eu escrevo normalmente em português mas posso utilizar, para abreviar, palavras inglesas em certas circunstâncias?!). Será necessário acrescentar que os autores estrangeiros (dos melhores aos simplesmente populares) têm nas suas "publishing houses" pessoas com estas funções como interlocutores, sem quaisquer pruridos mas com um profissionalismo que por cá anda, em geral, arredio?! E os textos não deixam de ser sua criação.

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  8. Não tenho nada contra estrangeirismos, acho a expressão "ghost writer" muito apropriada (melhor do que "negros").

    Mas o que eu queria agora dizer, e que muita gente não sabe, é que uma grande parte das palavras inglesas (não sei a percentagem, mas arriscava a dizer, pelo menos, metade) tem a sua origem no latim, através do francês. Só a outra "metade" é de origem germânica (saxónica). Por isso: "publishing" e "editing" têm origem latina :)

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  9. mas se em português temos os termos: publicar e editar porque usar a palavra noutro registo?

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  10. Meu caro "Anónimo" (como não assina nem se identifica, é a única forma que tenho de me dirigir a sí distinguindo-o dos restantes companheiros de tertúlia),

    Começo precisamente pela palavra que deixei entre parêntesis: tertúlia.

    Estivéssemos frente a frente, como gostaria, e rapidamente ficaria esclarecida esta vexata quaestio . Ou não é vexata ? Como digo, devemos celebrar o que estamos a fazer: tertúlia literária.

    Claro que numa tertúlia não será curial apoucar um dos nossos pares, mas concedo que o "escrever ao correr da pena" possa soar algo confuso e desarticulado. Eu gosto de escrever assim, no calor da paixão das ideias que defendo, mas admito que, de quando em vez, e principalmente ao correr da pena, as coisas possam sair menos inteligíveis, organizadas, sistematizadas.

    Outrossim, deixa claro que, por consideração à Rosário, não me concedeu o privilégio de expor as suas ideias, mas apenas de puxar as minhas orelhas.

    Caríssimo, para mim a época do azedume passou há muito. Não é minha intenção (nunca) ferir ninguém. Limitei-me a "comentar", se quiser até a "protestar" contra o que considero o cliché dos estrangeirismos (esta teve uma certa piada: cliché dos estrangeirismos:). Há outros. Mas ficaríamos loucos se tentássemos usar apenas palavras domésticas (sendo que, se recuarmos no tempo, começaremos a ter fundadas dúvidas sobre a raiz de cada uma). Comentei quem, ainda que com elevada consideração, se dirigiu à Rosário, não comentando o teor do artigo, mas destacando o uso do estrangeirismo. Aliás, estrangeirismo nenhum. O uso de uma palavras estrangeira.

    Pode estar certo de que nem a Rosário se posta num pedestal, nem eu num buraco. Por isso mesmo, e precisamente porque não tentei enfiar o barrete a ninguém, rogo me conceda o prazer de ler a sua opinião sobre o objecto da questão.

    Queira perdoar se acaso soei pedante.
    Não foi, nunca é, a minha intenção.

    Mas não deixa de me intrigar a sua expressão do "passo maior do que a perna". Para apontar este dedo, há que ter um contexto. Tem-no?
    Ora, o meu caro aproveitou bem a oportunidade de me apontar um erro que não o foi, pois saberá que reproduzi a palavra latina publicatore " com a sua acentuação fonética, tal como está no dicionário de língua portuguesa, e não gráfica. Mas pôs a nu, de facto, uma grande frustração: não ter estudado latim como deve ser. Por isso, tem razão, meti-me onde não devia, e só por acaso não disse disparates. Porque no meu a palavra publicatore " vem mencionada como raiz etimológica em alguns dicionários (não me obrigue a deitá-lo fora, por obséquio), mas no Houaiss aparece, realmente, publicator ". Quando disse que não exisitia , presumo que tivesse guardado para si esta. Mas percebo. Não quis alimentar uma discussão com uma pessoa como eu.

    E, não existira, formava-se agora para o português:
    publicador / publicadora / publicadores.
    Fazem falta. Mas esta já existem, e nem sequer são dadas como caídas em desuso.

    Termino confidenciando que nunca tenho grandes certezas, ao contrário do meu colega de tertúlia, mas tenho uma convicção:

    o intelectual é hoje muito diferente do intelectual de há vinte, trinta, quarenta, anos, mas não tem necessariamente de ser pior nem de se comportar como um diletante. Faço um esforço enorme por não dizer disparates, pelo que espero me conceda o benefício da dúvida, apesar de toda a desarticulação.

    Sabe, é mais fácil estar calado a assistir do que dar o corpo às balas. E como ambos o fizemos (embora me falte um nome, pelo menos um pseudónimo ou uma alcunha, desse lado), merecemos ao menos esse crédito.

    Um abraço do Pedro Guilherme-Moreira

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    1. Caro Pedro Moreira,
      O anonimato deveu-se à minha inépcia informática. Só. Cumprimentos

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    2. Caro Francisco,
      Melhor assim. Muito melhor.
      E embora não nos conheçamos pessoalmente, conheço eu o seu trabalho, aliás raro e de grande qualidade, e aproveito para lhe agradecer os excelentes livros que nos tem trazido. E sim, sou adepto de que o nome de tradutor deve figurar na capa. E sim, nunca se devia falar de um livro sem apreciar a sua tradução. Indigna-me que "sítios" de certas editoras omitam essa informação. Sinto-me literariamente cego na ausência dela.

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  11. Um editor não estará para o livro como está o montador para o cinema ?

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    1. Não, estará mais como o produtor executivo, representando a empresa/pessoa que produz o filme junto do realizador. O responsável pela montagem trabalha, em circunstâncias normais, na dependência do realizador. Se o realizador não assumir a responsabilidade da versão final (mesmo que figure só como mais um Alan Smithee) já o montador poderá estar subordinado ao(s) produtor(es) directamente.
      O trabalho de "editing" numa obra literária não é muito diferente, em termos técnicos, do que poderá ter de fazer um chefe ("editor", editor) num jornal com um determinado texto para publicação.
      E nesse meio o estrangeirismo está perfeitamente assumido (gostem ou não), com os seus editores e, não se assustem, com as editorias...

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  12. Seve disse...

    Ó meus amigos que maravilha e não é que se aplica a quase todos os que acabo de ler:

    -não dê saltos maiores do que as pernas.

    E estrangeirismos para quê? lá está: não armem ao pingarelho (em bom português)....

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  13. Seve disse...

    Mas que bela capa!

    Parabéns.

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