A atracção dos opostos
Há muitos anos, um fotógrafo que colaborou num álbum que publiquei com a então directora do Museu da Cidade teimava comigo que «sob» e «sobre» significavam exactamente a mesma coisa, e ali onde estávamos, sem dicionário na mão, foi difícil convencê-lo do contrário. Pensei que se tratasse de um caso excepcional, mas à medida que avançam os tempos cada vez apanho mais gente a cometer o erro de usar «sobre» em vez de «sob» com toda a tranquilidade, incluindo pessoas que tinham obrigação de saber que são palavras opostas e querem dizer o contrário uma da outra. Há uns dias, porém, fiquei siderada quando uma comentadora política conhecida, e por sinal bastante bem-falante, disse que um certo caso estava «sobre a responsabilidade» de alguém; e no dia seguinte a representante de um partido político que reivindica a gratuitidade da entrada em museus e palácios aos domingos falou de monumentos «sobre a administração pública»... Eu bem sei que os opostos se atraem, e que se calhar seria mais fácil se as palavras, como em italiano, fossem inconfundíveis («su» e «giù»), mas, caramba!, isto é erro de escola primária!
Tem toda a razão, atropelamos a nossa língua todos os dias. As notas de rodapé que passam nos canais televisivos são, por vezes, arrepiantes. Existe também outra grande confusão com o "ter a ver" a "ter a haver".
ResponderEliminarEstariam «sobre» o efeito de algo?
ResponderEliminarO analfabetismo, a ignorância, a incultura cresce assustadoramente, licenciados que não sabem ler nem escrever (basta ouvir as respostas deles às diversas perguntas de cultura geral), é vê-los naquele concurso da RTP em que até o comentador (o único que se ia salvando) se tranformou num imbecil de todo o tamanho.
ResponderEliminarAs notas de rodapé que passam nos canais televisivos são uma absoluta vergonha, o há e o à ou á são uma completa dôr de cabeça.
E com a IA aí à porta, em que basta dizer (por boca) o que pretende escrever e aparece o texto então é que vai ser bonito...
Bem me dizia o outro: mas o que é que ganhas com tantos livros que lês?
Outra confusão ainda muito comum é a de «eminente» e «iminente».
ResponderEliminarNem mais. Têm de voltar à escolinha.
ResponderEliminarAinda bem que não estou sozinha nesse “sentimento”! É interessante constatar que alguém já se apercebeu também dessas “gafes”, a que costumo chamar, humoristicamente, “pontapés na gramática”. Como fico feliz por encontrar alguém que saiba escrever e falar português! Seremos uma espécie em vias de extinção, ou voltámos à pré escola, quando, ao perguntar a uma criança: “sabes como se chama o teu pai?” Ela responde: “sabo” e assim vai falando até completar 20, 30, 40, …anos de vida! Só estou a desabafar. Muito grata
ResponderEliminarEstamos "sobre" a alçada de uma imensidão de estúpidos, ignorantes, e o que é pior, de canalhas, quem no entanto se julgam o "supersumo" de tudo e mais alguma coisa!
ResponderEliminarComecei a desconfiar disso quando ouvi um notório "primeiro-menistro" português em declarações à imprensa aquando de uma visita de estado à Turquia, celebrar as relações de amizade com aquele país como muito antigas e até históricas... isto dito precisamente por um português com ascendência goesa. D. Afonso de Albuquerque e D. Francisco de Almeida devem ter dado voltas na tumba!
É exemplar e até evidente, de facto, a falta de conhecimento e desinformação que grassa entre os nossos governantes ou políticos, a quem como neste caso falta a sensatez para não referir certas coisas, cobrindo-se de ridículo. O que lhes vale é que se calhar muitos que os ouvem e sobretudo quem os segue, também são ignorantes.
Quanto à canalhice, se dúvidas houvera, a famosa inquirição parlamentar à TAP e seu relatório, dissipa-as: é mesmo uma canalha!
Enfim, resta-nos o polícia quando manda: "é controlar a rotunda e vira à direita".
Saudações contrariadas e kaluandas cá da cidade de Nuanda!
Nos comentários de rodapé, não são atropelos, são verdadeiros choques em cadeia!
ResponderEliminarAhahah! E "evento" e "invento", nunca ouviu?
ResponderEliminarNão devia fazer horas extraordinárias a escrever estes textos sobre "o sexo dos anjos".
ResponderEliminarGrande assunto!
«sob» e «sobre» significavam exactamente a mesma coisa?
E escreveu isto apenas para si ou foi para outros lerem?
Com o verbo '"haver" os dislates são habituais.
ResponderEliminarNão compreendo a sua admiração: sempre achei espantosa a ignorância demonstrada por figuras públicas (políticos, jornalistas, actores, etc.) que, supostamente, deveriam ter algum cuidado com a forma como usam a língua portuguesa (escrita e falada).
ResponderEliminarDe qualquer forma, louvo o seu artigo pela chamada de atenção para um facto de que ninguém fala ou tem conhecimentos para falar.
Quero dizer duas coisas:
ResponderEliminar1ª. Não sei dizer nem escrever "sob" e "sobre" na língua dos indígenas da Papua-Nova Guiné.
2ª. Então, D. Maria do Rosário Pereira, acha que os políticos sabem falar português? Não estará a D. Maria do Rosário Pereira a dar-lhes o benefício da dúvida?
Ambas erradas. Correcto é “ter que ver”
ResponderEliminarE aquela/e (creio que) Secretária/o de Estado da Defesa (deste governo), repito, da Defesa, que não sabia o que era um paiol...
ResponderEliminarA prova é a maioria destes comentários
ResponderEliminarPeço desculpa... "ter a haver" é ser credor de algo!
ResponderEliminarPior, foi o ministro-ele-mesmo!
ResponderEliminarMas isso não sabia ou foi porque não lhe era conveniente saber?
1º - Naturalmente que não, pois na Papua-Nova Guiné falam-se cerca de 850 línguas... eheheh! A sua ironia é rebuscada, mas fina, caro Anónimo!
ResponderEliminar2º Os políticos estão para nós gente comum, como os papúas... ninguém os entende e eles a nós, menos que todos. Mas canibalizam-nos e de que maneira!
Pois... é uma questão de ordenar devidamente as letrinhas. Se lhe perguntassem o que era um pilao ele teria respondido: é aqui o meu morteirito.
ResponderEliminarPedreira
ResponderEliminarE o Ministro da Cultura que antes de o ser dizia "eu, parece-me"?!
ResponderEliminar"...palavras opostas..." !!!!? Asneira, o correcto é antónimas
ResponderEliminarAinda bem que não estou sozinha nesse “sentimento”! É interessante constatar que alguém já se apercebeu também dessas “gafes”, a que costumo chamar, humoristicamente, “pontapés na gramática”. Como fico feliz por encontrar alguém que saiba escrever e falar português! Seremos uma espécie em vias de extinção, ou voltámos à pré escola, quando, ao perguntar a uma criança: “sabes como se chama o teu pai?” Ela responde: “sabo” e assim vai falando até completar 20, 30, 40, …anos de vida! Só estou a desabafar. Muito grata
ResponderEliminarPois é ! Com o acordo ortográfico nem escrever sabemos ! Cambada de ignorantes ! Já agora, quando se aplica "à" e "há" ! Nem menciono "á" !
ResponderEliminarE hades?E deiam?E será-lhe?E a metade mais pequena?E a terceira semifinal?
ResponderEliminarnao tinha duvidas até ler o post, portanto continuo certo.
ResponderEliminarMas nos casos relatados se estao "debaixo" nao podem estar "acima"/"por cima" da administraçao publica ...afinal a ideia é que as coisas e os documentos se passam na mesa.
Eu penso, que a lingua portuguesa, a sua gramatica, e o falar, está a ser atropelada pela lingua Brasileira, eu nao gosto da linguagem brasileira, nem escrita e nem falada, a gramatica dela, tem deficiências, nao concordo com o acordo ortográfico, que as melgas assinaram, lingua portuguesa é lingua portuguesa, e lingua brasileira é lingua brasileira, qualquer dia tenho que mudar de nacionalidade, já adotaram a lingua brasileira, nas noticias, é só escrita brasileira, one line, eu por vezes pergunto aonde está o portugues escrito nas noticias, one line, o respeito começa, no respeitar a lingua de cada pais, nao é adotar a lingua de outro pais na escrita, eu nao concordo, agora concordo é terem eliminado a letra C, nalgumas palavras, noutras nao como o fato, que para mim é, e será, sempre, facto, é o mais correto, eu até sou de outro pais, Angola, e vos digo que na minha terra nao se fala tao bem como o portugues, lingua portuguesa, por isso, eu respeito a lingua portuguesa, e, é, bem falada e bem escrita, quando os professores, a transmitem, temos que procurar a aprendizagem, dela, só espero que haja alguem que tenha a coragem de reveter o acordo ortográfico, para mim foi, conveniência, para o lado do Brasil, e prejudicaram a lingua portuguesa. Eu sempre gostei da gramatica de portugues, apesar, de nao ser um aluno de bons/excelente.
ResponderEliminarAh ah ah, e eu que julgava que isso já estava 'instinto'!
ResponderEliminarPelo seu brilhante descritivo, em modo soluçante devido ás vírgulas exageradamente utilizadas palavra após palavra e a exclusão de acentuação, rima mas veio à mão, - diria que muito me admiraria se alguma vez teve nota acima do medíocre menos
ResponderEliminarmuintos biginus
desta voça queçassina
Alzira da pureza iscrita
Fico igualmente “siderada” com colegas, professores de Português, que dão mais erros do que alguns alunos. Como exemplo dou “ ir ao encontro de…” que grafam “ ir de encontro a…” e nem dão conta de que querem dizer o contrário do que redigem! E tantos outros que encheriam uma página…
ResponderEliminarLuísa Cordeiro
E o que é que "temos que ver"?
ResponderEliminarTch! Tch! E anonimamente ainda perde tempo a ler estas coisas? E a comentar? Tch! Tch!
ResponderEliminarBasta ler ou ouvir a argumentação de qualquer político sobre qualquer assunto para se aferir a sua capacidade governativa. O que também diz muito de quem os elege
ResponderEliminarEstes comentários são bons exemplos, subscritos por criaturas medianamente instruídas apresentam amiúde erros morfológicos e sintáticos
ResponderEliminarGrande verdade! O problema, no final, é a falta de alternativas...
ResponderEliminarEfectiva e infelizmente, não se sinta só neste tema. Cada vez é mais frequente e doloroso ouvir noticiários nos canais nacionais, tal a frequência de, como diz, "pontapés na gramática" (e, já agora, também pontapés no vocabulário) cometidos por pessoas altamente presunçosas e que nem se apercebem das tristíssimas figuras que fazem.
ResponderEliminarEmbora concordando com o conteúdo do seu comentário, gostaria, contudo de lhe fazer uma pequena correcção: Em vez de escrever "primeiro menistro" deveria ter escrito "primeiro mnistro", em concordância com a forma como o senhor em causa fala português.
ResponderEliminar...e "compete-lhes a eles" ou "compete-me a mim"?
ResponderEliminarAqui há uns tempos perguntei a uma professora de português se "será-lhes" se escrevia "será-lhes" ou "cerá-lhes". Felizmente e após uma curtíssima pausa, a professora emendou-me com algum ar de piedade, dizendo que deveria ser "ser-lhes-á"...embora, após ter visto o meu ar de gozo, me tivesse criticado pela armadilha que lhe tinha estendido.
ResponderEliminarVai desaparecendo, há muito tempo, para ser substituído por "á muito tempo". E o tem "a ver com" passou a ser "tem a haver com".
ResponderEliminarIrra! correcto: tem que ver
ResponderEliminarAh... e ainda ninguém se lembrou de mencionar o acordo ortográfico, que nos vai safando de algumas dúvidasinhas.
ResponderEliminarExplique então qual a incorreção de "tem a haver.
ResponderEliminarTer que ver é apenas o uso mais antigo. O tem a ver entrou na linguagem corrente por influência francesa e é actualmente considerado correcto. Portanto o uso do "tem a ver" ou "tem que ver" é indiferente.
ResponderEliminarConsiderado correcto!? a que título?
ResponderEliminarProvavelmente pela mesma associação de professores que apresenta cartazes com erros gramaticais nas recentes manifestações!
ResponderEliminarduvidazinhas
ResponderEliminarObrigado pelo reparo, mas tive o cuidado de consultar o dicionário Priberam, que confirma que é com Z.
ResponderEliminarOu antes... escrevi inicialmente com S. Na dúvida, consultei o Priberam, que confirmou o S. Só que por qualquer motivo, escrevi o Z. É o meu Alzheimer que está piorando.
ResponderEliminarUtilizando um ou dois neurónios chega lá.
ResponderEliminarA expressão "tem a haver" é usada apenas em contabilidade e significa que alguém tem direito a receber certa quantia.
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