A atracção dos opostos

Há muitos anos, um fotógrafo que colaborou num álbum que publiquei com a então directora do Museu da Cidade teimava comigo que «sob» e «sobre» significavam exactamente a mesma coisa, e ali onde estávamos, sem dicionário na mão, foi difícil convencê-lo do contrário. Pensei que se tratasse de um caso excepcional, mas à medida que avançam os tempos cada vez apanho mais gente a cometer o erro de usar «sobre» em vez de «sob» com toda a tranquilidade, incluindo pessoas que tinham obrigação de saber que são palavras opostas e querem dizer o contrário uma da outra. Há uns dias, porém, fiquei siderada quando uma comentadora política conhecida, e por sinal bastante bem-falante, disse que um certo caso estava «sobre a responsabilidade» de alguém; e no dia seguinte a representante de um partido político que reivindica a gratuitidade da entrada em museus e palácios aos domingos falou de monumentos «sobre a administração pública»... Eu bem sei que os opostos se atraem, e que se calhar seria mais fácil se as palavras, como em italiano, fossem inconfundíveis («su» e «giù»), mas, caramba!, isto é erro de escola primária!

Comentários

  1. Tem toda a razão, atropelamos a nossa língua todos os dias. As notas de rodapé que passam nos canais televisivos são, por vezes, arrepiantes. Existe também outra grande confusão com o "ter a ver" a "ter a haver".

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  2. O analfabetismo, a ignorância, a incultura cresce assustadoramente, licenciados que não sabem ler nem escrever (basta ouvir as respostas deles às diversas perguntas de cultura geral), é vê-los naquele concurso da RTP em que até o comentador (o único que se ia salvando) se tranformou num imbecil de todo o tamanho.
    As notas de rodapé que passam nos canais televisivos são uma absoluta vergonha, o há e o à ou á são uma completa dôr de cabeça.
    E com a IA aí à porta, em que basta dizer (por boca) o que pretende escrever e aparece o texto então é que vai ser bonito...
    Bem me dizia o outro: mas o que é que ganhas com tantos livros que lês?

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  3. Outra confusão ainda muito comum é a de «eminente» e «iminente».

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  4. Ainda bem que não estou sozinha nesse “sentimento”! É interessante constatar que alguém já se apercebeu também dessas “gafes”, a que costumo chamar, humoristicamente, “pontapés na gramática”. Como fico feliz por encontrar alguém que saiba escrever e falar português! Seremos uma espécie em vias de extinção, ou voltámos à pré escola, quando, ao perguntar a uma criança: “sabes como se chama o teu pai?” Ela responde: “sabo” e assim vai falando até completar 20, 30, 40, …anos de vida! Só estou a desabafar. Muito grata

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  5. António Luiz Pacheco14 de julho de 2023 às 05:06

    Estamos "sobre" a alçada de uma imensidão de estúpidos, ignorantes, e o que é pior, de canalhas, quem no entanto se julgam o "supersumo" de tudo e mais alguma coisa!
    Comecei a desconfiar disso quando ouvi um notório "primeiro-menistro" português em declarações à imprensa aquando de uma visita de estado à Turquia, celebrar as relações de amizade com aquele país como muito antigas e até históricas... isto dito precisamente por um português com ascendência goesa. D. Afonso de Albuquerque e D. Francisco de Almeida devem ter dado voltas na tumba!
    É exemplar e até evidente, de facto, a falta de conhecimento e desinformação que grassa entre os nossos governantes ou políticos, a quem como neste caso falta a sensatez para não referir certas coisas, cobrindo-se de ridículo. O que lhes vale é que se calhar muitos que os ouvem e sobretudo quem os segue, também são ignorantes.
    Quanto à canalhice, se dúvidas houvera, a famosa inquirição parlamentar à TAP e seu relatório, dissipa-as: é mesmo uma canalha!
    Enfim, resta-nos o polícia quando manda: "é controlar a rotunda e vira à direita".

    Saudações contrariadas e kaluandas cá da cidade de Nuanda!

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  6. António Luiz Pacheco14 de julho de 2023 às 05:07

    Nos comentários de rodapé, não são atropelos, são verdadeiros choques em cadeia!

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  7. António Luiz Pacheco14 de julho de 2023 às 05:08

    Ahahah! E "evento" e "invento", nunca ouviu?

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  8. Não devia fazer horas extraordinárias a escrever estes textos sobre "o sexo dos anjos".
    Grande assunto!
    «sob» e «sobre» significavam exactamente a mesma coisa?

    E escreveu isto apenas para si ou foi para outros lerem?

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  9. Com o verbo '"haver" os dislates são habituais.

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  10. Não compreendo a sua admiração: sempre achei espantosa a ignorância demonstrada por figuras públicas (políticos, jornalistas, actores, etc.) que, supostamente, deveriam ter algum cuidado com a forma como usam a língua portuguesa (escrita e falada).
    De qualquer forma, louvo o seu artigo pela chamada de atenção para um facto de que ninguém fala ou tem conhecimentos para falar.

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  11. Quero dizer duas coisas:
    1ª. Não sei dizer nem escrever "sob" e "sobre" na língua dos indígenas da Papua-Nova Guiné.
    2ª. Então, D. Maria do Rosário Pereira, acha que os políticos sabem falar português? Não estará a D. Maria do Rosário Pereira a dar-lhes o benefício da dúvida?

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  12. Ambas erradas. Correcto é “ter que ver”

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  13. E aquela/e (creio que) Secretária/o de Estado da Defesa (deste governo), repito, da Defesa, que não sabia o que era um paiol...

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  14. A prova é a maioria destes comentários

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  15. António Luiz Pacheco14 de julho de 2023 às 07:30

    Peço desculpa... "ter a haver" é ser credor de algo!

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  16. António Luiz Pacheco14 de julho de 2023 às 07:33

    Pior, foi o ministro-ele-mesmo!
    Mas isso não sabia ou foi porque não lhe era conveniente saber?

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  17. António Luiz Pacheco14 de julho de 2023 às 07:38

    1º - Naturalmente que não, pois na Papua-Nova Guiné falam-se cerca de 850 línguas... eheheh! A sua ironia é rebuscada, mas fina, caro Anónimo!
    2º Os políticos estão para nós gente comum, como os papúas... ninguém os entende e eles a nós, menos que todos. Mas canibalizam-nos e de que maneira!

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  18. Pois... é uma questão de ordenar devidamente as letrinhas. Se lhe perguntassem o que era um pilao ele teria respondido: é aqui o meu morteirito.

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  19. E o Ministro da Cultura que antes de o ser dizia "eu, parece-me"?!

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  20. "...palavras opostas..." !!!!? Asneira, o correcto é antónimas

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  21. Ainda bem que não estou sozinha nesse “sentimento”! É interessante constatar que alguém já se apercebeu também dessas “gafes”, a que costumo chamar, humoristicamente, “pontapés na gramática”. Como fico feliz por encontrar alguém que saiba escrever e falar português! Seremos uma espécie em vias de extinção, ou voltámos à pré escola, quando, ao perguntar a uma criança: “sabes como se chama o teu pai?” Ela responde: “sabo” e assim vai falando até completar 20, 30, 40, …anos de vida! Só estou a desabafar. Muito grata

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  22. Pois é ! Com o acordo ortográfico nem escrever sabemos ! Cambada de ignorantes ! Já agora, quando se aplica "à" e "há" ! Nem menciono "á" !

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  23. E hades?E deiam?E será-lhe?E a metade mais pequena?E a terceira semifinal?

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  24. nao tinha duvidas até ler o post, portanto continuo certo.

    Mas nos casos relatados se estao "debaixo" nao podem estar "acima"/"por cima" da administraçao publica ...afinal a ideia é que as coisas e os documentos se passam na mesa.

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  25. BIC Orange original Fine14 de julho de 2023 às 15:21

    Eu penso, que a lingua portuguesa, a sua gramatica, e o falar, está a ser atropelada pela lingua Brasileira, eu nao gosto da linguagem brasileira, nem escrita e nem falada, a gramatica dela, tem deficiências, nao concordo com o acordo ortográfico, que as melgas assinaram, lingua portuguesa é lingua portuguesa, e lingua brasileira é lingua brasileira, qualquer dia tenho que mudar de nacionalidade, já adotaram a lingua brasileira, nas noticias, é só escrita brasileira, one line, eu por vezes pergunto aonde está o portugues escrito nas noticias, one line, o respeito começa, no respeitar a lingua de cada pais, nao é adotar a lingua de outro pais na escrita, eu nao concordo, agora concordo é terem eliminado a letra C, nalgumas palavras, noutras nao como o fato, que para mim é, e será, sempre, facto, é o mais correto, eu até sou de outro pais, Angola, e vos digo que na minha terra nao se fala tao bem como o portugues, lingua portuguesa, por isso, eu respeito a lingua portuguesa, e, é, bem falada e bem escrita, quando os professores, a transmitem, temos que procurar a aprendizagem, dela, só espero que haja alguem que tenha a coragem de reveter o acordo ortográfico, para mim foi, conveniência, para o lado do Brasil, e prejudicaram a lingua portuguesa. Eu sempre gostei da gramatica de portugues, apesar, de nao ser um aluno de bons/excelente.

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  26. Ah ah ah, e eu que julgava que isso já estava 'instinto'!

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  27. Pelo seu brilhante descritivo, em modo soluçante devido ás vírgulas exageradamente utilizadas palavra após palavra e a exclusão de acentuação, rima mas veio à mão, - diria que muito me admiraria se alguma vez teve nota acima do medíocre menos
    muintos biginus
    desta voça queçassina
    Alzira da pureza iscrita

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  28. Fico igualmente “siderada” com colegas, professores de Português, que dão mais erros do que alguns alunos. Como exemplo dou “ ir ao encontro de…” que grafam “ ir de encontro a…” e nem dão conta de que querem dizer o contrário do que redigem! E tantos outros que encheriam uma página…
    Luísa Cordeiro

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  29. E o que é que "temos que ver"?

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  30. Tch! Tch! E anonimamente ainda perde tempo a ler estas coisas? E a comentar? Tch! Tch!

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  31. Basta ler ou ouvir a argumentação de qualquer político sobre qualquer assunto para se aferir a sua capacidade governativa. O que também diz muito de quem os elege

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  32. Estes comentários são bons exemplos, subscritos por criaturas medianamente instruídas apresentam amiúde erros morfológicos e sintáticos

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  33. António Pereira da Silva15 de julho de 2023 às 09:02

    Grande verdade! O problema, no final, é a falta de alternativas...

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  34. António Pereira da Silva15 de julho de 2023 às 09:09

    Efectiva e infelizmente, não se sinta só neste tema. Cada vez é mais frequente e doloroso ouvir noticiários nos canais nacionais, tal a frequência de, como diz, "pontapés na gramática" (e, já agora, também pontapés no vocabulário) cometidos por pessoas altamente presunçosas e que nem se apercebem das tristíssimas figuras que fazem.

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  35. António Pereira da Silva15 de julho de 2023 às 09:14

    Embora concordando com o conteúdo do seu comentário, gostaria, contudo de lhe fazer uma pequena correcção: Em vez de escrever "primeiro menistro" deveria ter escrito "primeiro mnistro", em concordância com a forma como o senhor em causa fala português.

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  36. António Pereira da Silva15 de julho de 2023 às 09:24

    ...e "compete-lhes a eles" ou "compete-me a mim"?

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  37. António Pereira da Silva15 de julho de 2023 às 09:31

    Aqui há uns tempos perguntei a uma professora de português se "será-lhes" se escrevia "será-lhes" ou "cerá-lhes". Felizmente e após uma curtíssima pausa, a professora emendou-me com algum ar de piedade, dizendo que deveria ser "ser-lhes-á"...embora, após ter visto o meu ar de gozo, me tivesse criticado pela armadilha que lhe tinha estendido.

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  38. Vai desaparecendo, há muito tempo, para ser substituído por "á muito tempo". E o tem "a ver com" passou a ser "tem a haver com".

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  39. Irra! correcto: tem que ver

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  40. Ah... e ainda ninguém se lembrou de mencionar o acordo ortográfico, que nos vai safando de algumas dúvidasinhas.

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  41. Explique então qual a incorreção de "tem a haver.

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  42. Ter que ver é apenas o uso mais antigo. O tem a ver entrou na linguagem corrente por influência francesa e é actualmente considerado correcto. Portanto o uso do "tem a ver" ou "tem que ver" é indiferente.

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  43. Considerado correcto!? a que título?

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  44. Provavelmente pela mesma associação de professores que apresenta cartazes com erros gramaticais nas recentes manifestações!

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  45. Obrigado pelo reparo, mas tive o cuidado de consultar o dicionário Priberam, que confirma que é com Z.

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  46. Ou antes... escrevi inicialmente com S. Na dúvida, consultei o Priberam, que confirmou o S. Só que por qualquer motivo, escrevi o Z. É o meu Alzheimer que está piorando.

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  47. Utilizando um ou dois neurónios chega lá.

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  48. A expressão "tem a haver" é usada apenas em contabilidade e significa que alguém tem direito a receber certa quantia.

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