Um comboio especial

Mea culpa, nunca tinha lido o grande escritor checo Bohumil Hrabal, que por cá está publicado pela Antígona. Já tinha ouvido grandes elogios a Uma Solidão demasiado Ruidosa (que lerei em Agosto, já o tenho), mas comecei por uma pérola verdadeiramente imperdível (porque a encontrei primeiro): Comboios Rigorosamente Vigiados. A acção decorre numa estação de comboios da Checoslováquia ocupada pelos nazis, já no final da Segunda Guerra Mundial, quando os soldados alemães começam a voltar da Frente estropiados, mortos e gravemente feridos. Nesta estação há um rapaz muito especial: um jovem aprendiz que quer ser um excelente profissional (mas muito traumatizado pela sua primeira experiência sexual), que é uma criatura (no sentido de personagem criada pelo autor) admirável e, além de narrador, terá uma importância tremenda no desfecho; mas não lhe ficam atrás o chefe da estação obcecado com o seu pombal, o colega mais velho que morre de amores pela telegrafista a quem carimba o traseiro, ou mesmo o avô do narrador, que se pôs à frente de um tanque alemão durante os primeiros dias da invasão alemã. Belo, hilariante às vezes, sempre profundo, tão amoroso quando deve ser um livro bom, esta é uma pequena jóia escrita em 1965 que só dá vontade de ir ler tudo deste autor.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco13 de julho de 2023 às 03:28

    Ora muito bem! Não conhecia este autor, a despeito de ser um dos maiores da lietartura do seu país no século XX.
    Fui informar-me e partilho com a Extraordinariada que por aí venha e se interesse:

    "Estilo
    Ele escreveu num estilo expressivo, altamente visual. Usava frases longas; na verdade, as suas obras Aulas de Dança para a Idade Avançada (Taneční hodiny pro starší um pokročilé) (1964) e Vita Nuova (1987) consistem em uma única frase. Dilemas políticas e a sua concomitante ambigüidade moral são um tema recorrente. Muitos das personagens de Hrabal são retratadas como "sábio tolos" — simplórios, com ocasionais, inadvertidamente, pensamentos profundos — que também são dadas a humor grosseiro à luxúria e a uma determinação para sobreviver e desfrutar de si mesmo a despeito das duras circunstâncias.

    Muito do impacto da escrita de Hrabal deriva de sua justaposição da beleza e crueldade encontradas na vida quotidiana. Vivas representações da dor que os seres humanos, casualmente causam nos animais (como na cena em que famílias de ratos estão presas num compactador de papel) simbolizam a difusão de crueldade entre os seres humanos. O mundo do ser humano adulto é revelada como terrível, e, no final, talvez a única filosofia sã é uma linha descrita em Observados de Perto os Trens: "Você deveria ter ficado em casa na sua bunda".[citação necessários] As suas caracterizações também podem ser cómicas, dando à sua prosa um aspecto barroco/medieval.

    Juntamente com Jaroslav Hašek, Karel Capek e Milan Kundera — sátiros da mesma forma imaginativa e divertida — ele é considerado um dos maiores escritores checos do século 20. A autora Ewa Mazierska compara o seu trabalho com Ladislav Grosman na forma em que as suas obras literárias contêma normalmente a perfeita mistura de comédia e tragédia.[15] Os seus trabalhos têm sido traduzido para 27 idiomas.

    Pronto, assim não digo parvoíces, possa embora estar a divulgá-las...
    Saudações cá da Cidade Morena.

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  2. O livro deu origem a um filme que recebeu um Óscar (para melhor filme em língua estrangeira):

    https://www.imdb.com/title/tt0060802/?ref_=nv_sr_srsg_0_tt_8_nm_0_q_closely%2520

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  3. Há outro grande escritor checo que escreveu um livro enorme (entre vários) que também mereceu um grande filme que, embora não tivesse sido oscarizado creio que foi nomeado. Livro e filme foram traduzidos em Portugal como "A Insustentável Leveza do Ser".

    Milan Kundera morreu anteontem.

    Nos últimos anos não conheço autor que tivesse merecido o Óscar mais do que ele. Os suecos lá saberão por que não lho deram.

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  4. António Luiz Pacheco13 de julho de 2023 às 06:42

    Os suecos se calhar não lho deram, pela mesma razão que boa parte da nossa "intelligentsia" está calada, como se a morte dele fosse uma morte menor...
    Quer que lhe diga o que penso?
    - Porque Kundera era crítico do PC Checo e da URSS, a ponto de ser expulso e se ter exilado em França. Pois é, cometeu o nefando crime de ser nacionalista e anti-soviético, de criticar o partido comunista checo! Apoiou a "Primavera de Praga". Portanto seria difícil que a esquerda gostasse dele e que a academia da pólvora lhe desse o sempre polémico Nobel.
    Não seria por isso que eu leria ou estimaria mais MK.
    Por mim, seja ele de esquerda, centro ou direita, agnóstico ou religioso, sempre que morre um escritor, fecha-se uma janela! Claro que sempre que surge um novo escritor se abre um postigo que pode vir a ser uma janela ou até uma varanda!
    Mas há muita gente que só gosta de encerrar janelas e portas quando a vista não lhe agrada, ignorando que além da paisagem elas servem para arejar, que o ar puro é uma das grandes benesses que as janelas nos dão, permitindo ainda ouvir o que se passa lá fora.

    Fez bem em recordar, se bem que estou certo de que a Nossa Extraordinária Anfitriã anda a preparar alguma postada sobre MK.

    Abraço sustentável cá deste ser na Cidade Morena

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  5. Ainda não li o livro, mas vi o filme, creio que é checo, muito interessante!

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  6. Silêncio? Mas toda a gente falou da morte de Kundera...

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  7. António Luiz Pacheco13 de julho de 2023 às 11:09

    Não dei conta... vi mesmo muito poucas ou nenhumas referências na imprensa... mas posso estar enganado.

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  8. Sim, falou-se muito pouco, como se fosse um escritor menor...

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  9. Li Terno Bárbaro e não gostei. Espero mudar de opinião com os outros livros do autor.

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  10. O "Terno Bárbaro" também não me entusiasmou mas os outros títulos (e o filme) agradaram-me imenso. Para mim, o melhor de todos, contudo, foi "Eu que Servi o Rei de Inglaterra ".

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