Excerto da Quinzena
Julieta não viajara num foguetão até à Lua, não cartografara mares desconhecidos, não liderara exércitos em batalhas sangrentas; mas quem trocava algumas palavras com a velha senhora, sentada numa poltrona rodeada de outras poltronas de velhas e velhos, percebia estar perante uma mulher extraordinária. Mesmo sem milagres que a levassem à beatificação, mesmo sem feitos épicos no seu passado, mesmo enrugada e sumida, Julieta surgia superior a qualquer personagem romanesca ou cinematográfica: uma heroína da vida real. Um ser maior do que a simples existência terrena.
Alguns desses visitantes tinham conhecido Julieta ainda de pé, atarefada a cuidar da grande casa, dos vários familiares, de um sem-fim de animais. Na verdade, talvez Julieta fosse conhecida por bastante gente. Resgatar-lhe o passado, relatar-lhe a vida, e com isso validar ou contrariar o seu estatuto de ser humano excecional, capaz de suportar agruras inimagináveis, jamais poderia resultar num exercício de incertezas.
Saiba-se que Julieta, como ela própria dizia, se tornou muito velhinha. Viverá mais de cem anos e mostrar ou ocultar o último sopro de vida será decisão do narrador. A morte de uma pessoa tanto pode assumir a imensidão do universo como a insignificância de um átomo. Tanto pode conter o lirismo de um corpo a desagregar-se em poeira estelar como a crueza de um cadáver a arder num forno crematório. A morte, qualquer morte, tanto será tudo como nada.
Paulo M. Morais, A Boneca Despida
O Dr. Mendes media o amor, o que este provocava na pedra, o que fazia à arquitectura, aquilo de era capaz.
ResponderEliminarNa derradeira carta, escreveu: “Concluí, após anos de medições e cálculos, que os túmulos de Pedro e Inês estão mais próximos, uns parcos milímetros, nada de monta, mas que, ainda assim, se deslocaram. O amor faz mexer toneladas de pedra. Por isso, ainda me resta esperança de ter alguma influência no calcário do teu coração. E só por isso dediquei uma vida a medir os milímetros que separam os amores mortos. Se o amor faz mover as pedras, tenho a certeza de que fará milagres no túmulo que é o teu coração e que, um dia, esse músculo se mexerá, talvez milímetros, uma leve inclinação sentimental, e te levará a aparecer em minha casa com uma caixa de café ou com uma garrafa de vinho, e isso seja uma eternidade que nenhuma régua poderá medir.”
O Dr. Mendes pôs essa última carta no marco do correio, agarrou-se ao peito, que não era de pedra, e caiu no chão para nunca mais se levantar.
Afonso Cruz, "Enciclopédia da Estória Universal. Mil Anos de Esquecimento", Lisboa, Alfaguara, 2016.
Dois excelentes excertos que nos inspiram e ajudam a começar o dia.
ResponderEliminarConheço bem Afonso Cruz,que muito aprecio,mas nao este livro,que ja me aguçou a curiosidade.Quanto a Paulo M.Morais penso que nunca tinha ouvido falar,mas revela uma escrita sensivel e com muito conhecimento da vida.Vou procurar inteirar-me.
Quanto a minha experiencia pessoal,nao posso dizer que esteja a correr bem.Depois de penar para ler e acabar o "Misericordia" de Lidia Jorge,debato-me agora com o mesmo problema com "Dor Fantasma" de Rafael Gallo.É dose!
Charles Gould não declarou o seu amor à jovem [Emília] com discursos formais, deixou simplesmente que ela o captasse através dos seus pensamentos e ações. É este o verdadeiro método da sinceridade.
ResponderEliminarJoseph Conrad - Nostromo, Uma História da Beira-Mar
Trad Ana Maria Chaves e Fernando Ferreira Alves
Excerto muito interessante. Mostra o quanto a nossa riqueza interior pode “pesar mais” do que os nossos feitos sociais, o nosso “status”.
ResponderEliminarO livro é todo na linha deste tema? Ou não?
Que livros conhecem e recomendam sobre esta temática em particular?
« Na cidade de Nova Iorque vivia um dos rapazes da Nickel. Chamava-se Elwood Curtis. De vez em quando, fazia uma busca na Internet sobre o antigo reformatório, indagando novos desenvolvimentos, mas mantinha-se distante dos encontros organizados e, por muitas razões, não acrescentava o seu nome às listas. De que valia? Eram homens feitos. Não me digam que se revezam a entregar lenços de papel uns aos outros? Um dos rapazes publicou uma história sobre a noite em que estacionou o carro à frente da casa de Spencer, e ficou a observar as janelas durante horas, as silhuetas lá dentro, até que se convenceu a abandonar os planos de vingança. Tinha feito o seu próprio chicote de couro para usar no antigo supervisor. »
ResponderEliminarOs rapazes de Nickel, de Colson Whitehead, Alfaguara - trad. Hugo Gonçalves