Descobertas
Quando, aos domingos à tarde, vou fazer companhia à minha mãe quase centenária, costumo levar comigo o livro que ando a ler, achando possível que ela queira dormitar a seguir ao almoço. Mas, na verdade, ela aproveita sempre a minha presença para conversar e partilhar histórias fascinantes do seu passado; e, com isso, saímos ambas a ganhar e o livro a perder. Ora, como vou para casa dela a pé e há normalmente um pedido de bolos, envelopes ou qualquer outra coisa, na semana passada decidi que não iria carregada com o livro que há mais de dois meses transporto em vão (esse ou outro, enfim). Mas, ao contrário do que pensei, como mudara a hora no sábado, ela tinha perdido uma hora de sono e estava a recuperá-la quando lá cheguei... Enfim, fui à estante lá de casa desencantar alguma coisa curta e dei com um livro de que nunca ouvira falar: Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez, de Dinis Machado, com algumas ilustrações de Fátima Vaz, uma pequena delícia publicada originalmente em 1984. Mas que bela surpresa é este texto com o cais de Lisboa como pano de fundo e alguns homens do mar de faca na liga, os barcos ("brancos, azuis e furta-cores") como protagonistas e tudo aquilo que podia estar realmente num fado de Marceneiro, sem esquecer a Rua do Capelão... Se não conhece, procure e leia; é uma condensação de beleza e graça em vinte e tal páginas. Uma viagem de metro ou de autocarro e já está!
O sucesso estrondoso de "O Que Diz Molero" terá colocado na sombra quaisquer outros escritos de Dinis Machado. Creio que não fui o único que devorou aquela obra logo que foi publicada e logo esqueceu o autor. O facto de ser um jornalista desportivo e de até então ter escrito apenas romances policiais, não ajudou a manter o interesse. Agora a Maria do Rosário vem falar-nos de uma pequena pérola que parecia esquecida e eu penso o quão injusto terei sido.
ResponderEliminarHá grandeza(s) que o tempo não apaga.
ResponderEliminarAprecio Diniz Machado, o Molero é incontornável, mas desconhecia de facto esse título!
ResponderEliminarSaudações cá da Cidade Morena.
Aprecio esse outro padrão da grafia e permita-me, faz recordar um notável momento querido extraordinário ALP o seu Diniz com z. Segundo Ruy Pina, D.Diniz foi o primo paraninfo das artes em Lisboa. Creio que justifica, inclusive a grafia histórica pois tem muito da originalidade.
EliminarÓ Paxeco, temos de concordar que a Cláudia é um doce.
ResponderEliminarAbsolutamente!!!!!
EliminarAliás a Rainha Cláudia, ou ameixa de Elvas, cristalizada ou em compota é fundamental para a sericaia!
Doce Cláudia!
Queridos: são palavras que na borda da memória só têm sabor de Arte.
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