Mortes em vida
Ocupou-me na última semana o romance de estreia de uma jovem autora de Salamanca. O livro tinha-me sido oferecido a seguir ao Natal por uma professora portuguesa que mora e trabalha nessa cidade e tinha gostado muito da leitura; coincidência boa, um mês e meio depois o escritor João de Melo recomendou-me que o lesse: Rebeca Hernández, a autora, conhece bem a língua portuguessa e foi tradutora de alguns livros deste escritor português para o castelhano. É um romance que fala de rupturas numa família de pai, mãe e três filhas. Lázaro quis sempre ter um filho rapaz e, tendo-lhe saído apenas raparigas, nunca lhes prestou a atenção que exigiam. Uma a uma, todas se foram tornando mortas em vida para ele, mesmo a do meio, Marcela, que ficou a viver com os pais. Mas Adela, a mãe, segue surpreendentemente a posição do marido; e, entre as próprias filhas, há rivalidades, desavenças e abandono. Los Abandonos é também uma história contada por uma das filhas à sua neta, muito tempo depois, para explicar como tudo aconteceu naquela família de abandonados. Se gostam e sabem ler em castelhano, é uma boa sugestão.
Bom dia. Está ali, um título de livro que verdadeiramente me identifico. Tão realista quanto contundente; consequentemente em altura corajoso. Expor a família às vezes causa vertigem e o caso, sobretudo "feridas". Alivanhavar a natureza de sentimentos ou humilhações, também pode revelar a ingratidão presente em acontecimentos da frustração humana. Todavia ardil, indaga princípio(s) e também, falha(s). Parabéns a Rabeca Hernández!
ResponderEliminarMinha saudação a Salamanca onde nascera a primeira universidade, água limpa por dizer.
Salamanca é uma cidade de que tenho gratas recordações!
ResponderEliminarAlém de gostar da cidade em si e da sua plaza mayor, gosto de lá ir e estar.
O romance, bom, esse confesso que pouco me diz o tema, pelo que provávelmente não o lerei, mas ainda bem que assim é, há leitura para todos os gostos, ontem falou-se (e bastante) de poesia, hoje destes romances da área das relações familiares.
Haja livros para ler, haja quem os leia!
Saudações cá da Cidade Morena.
Como na “Ronda Poética” do dia 19, fui o último a fazer um comentário, já no dia 20, em “defesa” da poesia, volto hoje, porque temo que poucos tenham lido, pedindo desculpa por inseri-lo, hoje, novamente. Julgo que a leitura vale a pena. Se a este comentário, anteciparem a leitura da “Ode à Poesia”, de Miguel Torga, e “A Arte Poética”, de José Luís Peixoto, é mais do que meio caminho para se renderem à sedução da poesia.
ResponderEliminarReenvio o meu comentário:
A minha vida andou sempre “empurrada” pela poesia. Quando entrava, entro, numa livraria, grande parte do tempo é para folhear livros de poesia. Tenho Obras Completas, de dezenas de autores, sem esquecer os clássicos Odisseia, Ilíada, Eneida, Paraíso Perdido, Orlando Furioso, Divina Comédia e tantos, tantos outros livros de poesia.
“A poesia é o antídoto para qualquer malefício”, dizia Pablo Neruda aos seus amigos, segundo testemunho de Gabriel Garcia Marquez, no livro “A Aventura de Miguel Littín”
No título de um artigo, publicado em 1988, na revista italiana "Poesia", onde expõe uma das mais idiossincráticas reflexões sobre poesia, Jacques Derrida questionava: Che cos'è la poesia?
Garcia Lorca responde: Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia.
Já Roberto Cotroneo, no livro “Se uma manhã de verão uma criança – Carta ao meu filho sobre o amor pelos livros”, ao tratar a poesia, escolhe a Canção de Amor de John Alfred Prufrock, de T. S. Eliot. Transcrevo:
Lembras-te quando te dizia: não vejas a literatura como uma montanha alta e inatingível? Pois este é o capítulo para pôr em prática esta recomendação. Porque nele falaremos de poesia. E fazemo-lo não tanto porque a poesia é algo que nobilita o espírito. Não. Porque a poesia serve para compreender o mundo. Não para nos deleitarmos. Ou antes: não só para nos deleitarmos. [...] Mas nesta poesia, nesta longa poesia, as complicações não se limitam ao título, ou à escolha da epígrafe. É uma poesia difícil, porque fala de um homem difícil; e do que esse homem tem de fazer (e não faz) todos os dias. E do que se passa no mundo (e há tempos que se passa). E das coisas que há no mundo: e que muitas vezes são pequenas. E tudo lá está, como só numa poesia, numa grande poesia, pode acontecer. […] A poesia nem sempre é imagem, nem sempre remete para outra coisa: por vezes faz-nos sonhar com um lugar de que não conhecemos a aparência, mas do qual pressentimos a inquietação.
Também Alberto Manguel, em "Uma História da Curiosidade", diz:
Talvez a perseverança de uma voz seja a única verdadeira justificação da poesia. A poesia não oferece respostas, não pode apagar o sofrimento, a poesia não trará um ser amado de volta à vida, a poesia não nos protege do mal, a poesia não nos concede força ética nem coragem moral, a poesia não vinga as vítimas nem castiga os que as vitimam. Tudo o que a poesia pode fazer, e quando as estrelas são caridosas, é emprestar as palavras às nossas perguntas, ecoar o nosso sofrimento, ajudar-nos a recordar os mortos, nomear as obras do mal, ensinar-nos a reflectir acerca das consequências da vingança e dos castigos, e também da bondade, mesmo quando essa bondade não existe. Este poder da poesia é algo que há muito conhecemos, ou talvez sempre tenhamos conhecido, desde os primórdios da linguagem.
Despeço-me da Ponte das Três Entradas, onde vim repousar dois dias.
Manuel Dias da Silva