Ronda poética

Eu bem sei que os Extraordinários, pelo menos os que aqui comentam, não são grandes leitores de poesia, mas esta semana vão ter de levar com ela, que só lhes faz bem. Para começar, porque na próxima sexta-feira começa o festival Ronda Poética em Leiria, com curadoria do poeta Luís Filipe Castro Mendes e a presença de nomes sonantes, como os de Manuel Alegre ou Nuno Júdice, que participarão em conversas e debates. Desta feita, até eu lá vou estar, na Livraria Arquivo, às 17h de sexta-feira 22, numa sessão em que «contraceno» com a fadista Aldina Duarte, que acaba de lançar um CD intitulado Tudo Recomeça e para quem tenho feito várias letras/poemas ao longo destes últimos quinze anos. Vai também haver teatro e música, porque as artes gostam de andar de mãos dadas, e destaco um concerto composto integralmente por canções de poetas no dia 23, cantadas por Vitorino Salomé. A ideia é também comemorar o 25 de Abril e levar a poesia aos alunos de todos os graus de ensino, pelo que as escolas serão envolvidas desde o primeiro momento. No site do festival, há ainda uma bela novidade chamada «Aqui ronda o teu poema», um espaço onde todos podem inscrever os seus poemas sem precisarem de ter já livros publicados. Não percam! A poesia, como diz o psicólogo e poeta Paulo José Costa, devia ser receitada por médicos!

Comentários

  1. "A poesia devia ser receitada por médicos!" - concordo!

    Eu sou das que não é muito dada à poesia, o mal sendo meu e não da poesia, note-se, mas tenho feito algum caminho no sentido de desbravar essa intrigante forma de arte e reconheço os seus poderes como meio de nos aumentar como pessoas. Difícil de explicar.

    Se não estivesse agarrada à covid que finalmente me apanhou, fechada em casa, era bem capaz e ir a Leiria no dia 22! Desejo que seja um belíssimo evento!

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  2. António Luiz Pacheco19 de abril de 2022 às 01:33

    Não sei se o mal é meu, ou da poesia... ao contrário da Extraordinária e Covídica Susana - a quem desejo pronto restabelecimento, aliás!
    Sei sim que não sou grande consumidor de poesia, sendo muitíssimo selectivo acerca da que leio. Creio que tal se deve mais à poesia do que a mim mesmo. Se não aprecio pode ser porque não entendo ou seja pode muito bem ser porque quem a escreva não saiba chegar até mim, comunicar.
    Fala-se aqui em letras, de fado concretamente, pois quem pode ficar indiferente a "Povo que lavas no rio" ou "Foi Deus"? Além de tudo são poemas muito bonitos. Há poesia cantada que é belíssima, o que me faz ser um amante do fado. Esta poesia-letra, em minha opinião e sentir, justifica o polémico Nobel de Dylan, que é tanto poeta quanto cantor, por mim até mais poeta...
    Comparo a poesia à pintura. Gosto muito de pintura, sem dúvida, porém não gosto de toda a pintura, gosto da pintura que retrata algo com clareza e eu possa interpretar, sentir ou daquela que me transmita uma sensação que eu consiga definir.
    O mesmo aplico à poesia, de que há muita sem sentido e que para mim são apenas conjuntos de palavras, mais ou menos compostas, frases elaboradas mas que não me dizem nada. Outra há, felizmente para mim, que me diz ou transmite algo.
    Por isso sou fraco consumidor de poesia, em termos gastronómicos serei como aqueles que só comem bife ou carne assada! Em oposição aos que são de boa boca, e, até há os "lateiros".
    Não sou portanto insensível nem à poesia, nem aos poetas e muito menos a estas iniciativas que devem ser apoiadas, em particular esta que estimo constitua um sucesso.

    Saudações poéticas cá da Cidade Morena, onde canta o matrindinde.

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    1. Ó grande Paxeco, o Nobel distingue, como sabemos, toda a obra de um escritor; qual é a obra do Dylan (como escritor) que justifique minimamente o Nobel da Literatura? ou será apenas ignorância minha? admito.

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    2. António Luiz Pacheco19 de abril de 2022 às 06:36

      Já te tinha topado!!!! Eheheh!
      Não sei se o Nobel é deveras merecido ou não, mas Dylan é incontestávelmente um autor e poeta que marcou a sua geração. Há outros, penso eu, mas não me choca.
      Abraço

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    3. Ó Caro Paxeco mas quem, quem é que conhece a obra do Dylan (se efectivamente existe obra -não digo que não exista, mas nunca, jamais do tamanho do Nobel)? Não me levem a mal esta casmurrice mas é das situações mais caricatas e mais desacreditadas a que "assisti"...e que mais me fizeram pensar no jogo de interesses que parecem já ter atingido a atribuição deste prémio.

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    4. António Luiz Pacheco19 de abril de 2022 às 07:49

      Não te sei responder...
      Abraço.

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  3. "Naquele engano da alma" se encontra a minha superlativa poetisa, pois este seu indefectível leitor ama a sua poesia! E com ansiedade espera o seu novo livro "O meu corpo humano"...

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  4. Bom dia!
    Pela minha parte não me importo de apanhar com toda a poesia que aí venha. Na realidade a poesia faz parte de mim e sempre me acompanhou nos sítios por onde andei a trabalhar fora de Portugal. Um poeta em especial , Ruy Belo, fazia parte da minha bagagem.
    De um poema dele " Peregrino e hospede sobre a terra" do livro " país possível " fiz um poster que estava afixado na minha área de trabalho.
    Aqui deixo um extracto.

    "Meu único país é sempre onde estou bem
    é onde pago o bem com o sofrimento
    é onde num momento tudo tenho.
    ..................................................................
    O meu país são todos os amigos
    que conquisto e perco a cada instante
    Os meus amigos são os mais recentes
    os dos demais países os que mal conheço e
    tenho de abandonar porque me vou embora
    pois eu nunca estou bem aonde estou
    nem mesmo sequer aonde estou.
    .................................................................
    Sou donde estou e só sou português
    por ter em Portugal olhado a luz pela primeira vez.

    Ruy Belo
    "país possível " Assírio & Alvim 1973
    Daqui,da margem esquerda do estuário do Tejo, com um abraço.
    Com poesia
    A.Delfim

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  5. Pois, incluo-me no grupo daqueles que Maria do Rosário invocou. Mas, tal como eles, creio, há poemas que são do melhor da nossa vida. Até porque "a poesia é uma arma carregada de futuro" como cantava Paco Ibañez. Mas quanto a ler livros de poesia... tá dificil.

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  6. Cláudia da Silva Tomazi19 de abril de 2022 às 05:23

    Bom dia

    Vejo de modo particular a Poesia em toda expressão construtiva na humanidade (desde) transição à importância e inclusive lega mais atos as palavras. Para mim: Poesia é pacificação! O desenvolvimento mais original à transformação comportamental e elevada ética a empatia. Se tal empatia aprovam-na aconselhável, lhes faz ética enquanto legado a condição de humildade e mansidão. Todavia em tradição a oralidade dos feitos de outrora, a leitura deu-nos espaço a saúde mental pela organização gramatical escrita, elevando a matéria com ponto de encontro a engenhosidade do modo como a conhecemos.

    Suspeito que desde sempre amamos poesia. Nós mulheres, nos arrebatam figuras de linguagem, as vão de encontro à campos de sonho; um ideal que revela valores estimáveis e inestimáveis, élam feminino o ser.

    Não menos importante a história, deu-se no século XVII em terras Brasilis ou de Santa Cruz. O padre José de Anchieta escrevia poemas na areia da praia. Por assim dizer, Colégios jesuítas introduziram a Poesia no Brasil, era uma aterrorizante terra de canibais.
    Se melhor a digo, porque creio que desde Entradas e Bandeiras a principal diferença entre o sucesso de hoje da América portuguesa para o fracasso da América espanhola, seja relativo e não só a esfera da qualidade da Poesia, mas literalmente tudo que representou em termos de conhecimento a engenhosidade e dominio da língua portuguesa no mundo a fora, articulação e reinos. Desenvolvido cerne a competência e lides, argumentos a poética que hoje o é, aqui Brasil pá! Povo feliz e risonho, pacífico se lhe soma tantos imigrantes através os séculos.

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    1. António Luiz Pacheco19 de abril de 2022 às 06:41

      "...o sucesso de hoje da América portuguesa para o fracasso da América espanhola, ..."
      Bem visto ó Extraordinária Cláudia, e, sim, creio que as mulheres são por definição e intuição, mais sensíveis à poesia, aliás são elas as musas, que tágides, nereides e ninfas, são todas elas femininas!

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  7. «Eu bem sei que os Extraordinários, pelo menos os que aqui comentam, não são grandes leitores de poesia»...

    Não generalize, cara MRP. Evidentemente, no que me diz respeito, não sabe, e não só enquanto leitor:

    http://novaaguia.blogspot.com/2015/12/prefacio-q-de-octavio-dos-santos.html

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    1. E, além de autor, também fui, sou, tradutor:

      http://www.saidadeemergencia.com/produto/poemas/

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  8. A poesia refresca a alma, apazigua. E sim, devia ser receitada. Não cura, mas atenua e aporta a vontade de viver que, por vezes, falta.

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  9. Bom dia. Pois no meu caso tal não é verdade. A "doença", a "loucura" e a curiosidade tanto batem forte na prosa, ou narrativa que é o termo de que gosto mais, como na poesia. O meu problema já vai sendo mesmo o de falta de estantes. Tenho o hábito de ler por vezes 3 livros ao mesmo tempo para ir lendo sempre romance, poesia e ensaio. Não há dia que não leia um poema. Sou ateia mas essa é a minha oração diária. O meu fraco são os hispânicos, mas apaixono-me diariamente por O'Neill, Herberto Helder, Manuel António Pina, Cesariny, António José Forte, Ruy Belo, Yvette K Centeno, Hélia Correia, Cláudia R Sampaio, André Tecedeiro, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Pavese, César Vallejo, Bénédicte Houart, Cernuda, Alda Merini, Gabriela Mistral, Pizarnik, a geração espanhola de 27 tem poetas maravilhosas, Yeats, Keats, Cummings, Christina Rossetti, Lorca, Rosario Castellanos, Cernuda, Piqueras, Gamoneda, Celan, Luis Garcia Montero, Luís Alberto de Cuenca, Jaime Gil de Biedma, Carlos Edmundo de Ory (nunca publicado em Portugal, penso) e muitos outros. Mas há três senhores que me tiram do sério Joan Margarit, Nicanor Parra e, cereja no topo do bolo, Mario Benedetti. Estou convencida que muitos do meus amigos leitores que dizem não gostar de poesia ainda não esbarraram com o poema que os há - de desconcertar e dizer "olha é isto a vida". Primeiro estranha-se e depois entranha-se a ponto de a levarmos connosco para a cova ou para outro mundo mais divertido, quem sabe. Boas leituras e boa semana a todos. Susana

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    1. António Luiz Pacheco20 de abril de 2022 às 05:05

      Já me aconteceu sim, com António Gedeão e Fernando Pessoa, Shakespeare, Yeats...

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  10. E, cara Maria do Rosário Pedreira, espero que se divirta muito em Leiria.

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  11. Maria do Rosário Pedreira obra palavras humanas que são corpo poético.

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  12. Manuel Dias da Silva
    A minha vida andou sempre “empurrada” pela poesia. Quando entrava, entro, numa livraria, grande parte do tempo é para folhear livros de poesia. Tenho Obras Completas, de dezenas de autores, sem esquecer os clássicos Odisseia, Ilíada, Eneida, Paraíso Perdido, Orlando Furioso, Divina Comédia e tantos, tantos outros livros de poesia.
    “A poesia é o antídoto para qualquer malefício”, dizia Pablo Neruda aos seus amigos, segundo testemunho de Gabriel Garcia Marquez, no livro “A Aventura de Miguel Littín”
    No título de um artigo, publicado em 1988, na revista italiana "Poesia", onde expõe uma das mais idiossincráticas reflexões sobre poesia, Jacques Derrida questionava: Che cos'è la poesia?
    Garcia Lorca responde: Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia.
    Já Roberto Cotroneo, no livro “Se uma manhã de verão uma criança – Carta ao meu filho sobre o amor pelos livros”, ao tratar a poesia, escolhe a Canção de Amor de John Alfred Prufrock, de T. S. Eliot. Transcrevo:
    Lembras-te quando te dizia: não vejas a literatura como uma montanha alta e inatingível? Pois este é o capítulo para pôr em prática esta recomendação. Porque nele falaremos de poesia. E fazemo-lo não tanto porque a poesia é algo que nobilita o espírito. Não. Porque a poesia serve para compreender o mundo. Não para nos deleitarmos. Ou antes: não só para nos deleitarmos. [...] Mas nesta poesia, nesta longa poesia, as complicações não se limitam ao título, ou à escolha da epígrafe. É uma poesia difícil, porque fala de um homem difícil; e do que esse homem tem de fazer (e não faz) todos os dias. E do que se passa no mundo (e há tempos que se passa). E das coisas que há no mundo: e que muitas vezes são pequenas. E tudo lá está, como só numa poesia, numa grande poesia, pode acontecer. […] A poesia nem sempre é imagem, nem sempre remete para outra coisa: por vezes faz-nos sonhar com um lugar de que não conhecemos a aparência, mas do qual pressentimos a inquietação.
    Também Alberto Manguel, em "Uma História da Curiosidade", diz:
    Talvez a perseverança de uma voz seja a única verdadeira justificação da poesia.A poesia não oferece respostas, não pode apagar o sofrimento, a poesia não trará um ser amado de volta à vida, a poesia não nos protege do mal, a poesia não nos concede força ética nem coragem moral, a poesia não vinga as vítimas nem castiga os que as vitimam. Tudo o que a poesia pode fazer, e quando as estrelas são caridosas, é emprestar as palavras às nossas perguntas, ecoar o nosso sofrimento, ajudar-nos a recordar os mortos, nomear as obras do mal, ensinar-nos a reflectir acerca das consequências da vingança e dos castigos, e também da bondade, mesmo quando essa bondade não existe. Este poder da poesia é algo que há muito conhecemos, ou talvez sempre tenhamos conhecido, desde os primórdios da linguagem.
    Manuel Dias da Silva

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