Abrilar

A EGEAC, empresa municipal que gere os espaços culturais e as festas e eventos na cidade de Lisboa, teve a ideia de assinalar o início das comemorações dos 48 anos do 25 de Abril com o Projecto 48, pedindo a 48 mulheres (escritoras, cantoras, compositoras) de várias idades e com visões diferentes do que foi a Revolução dos Cravos que escrevessem versos, aforismos, pensamentos ou frases curtas sobre a liberdade que nos trouxe esse acontecimento a que Miguel Real chamou (e bem!) um "rasgão no tempo". Entre elas, encontram-se, por exemplo, veteranas como Maria Teresa Horta contracenando com poetas mais jovens como Marta Chaves, Filipa Leal ou Beatriz Hierro Lopes; uma fadista como Aldina Duarte, que já contou como era difícil a sua vida antes de 1974, a par de uma jovem cantora como Luísa Sobral, autora da única canção portuguesa vencedora do Festival da Eurovisão, nascida já depois do 25 de Abril; a romancista Lídia Jorge, uma voz que sempre se fez ouvir também nos meios de comunicação contra as injustiças sociais, ao lado de outras ficcionistas como Dulce Maria Cardoso ou a mais jovem Djaimilia Pereira de Almeida (nascidas ainda numa Angola portuguesa). Esses pequenos textos estão espalhados agora por muitas artérias da capital, desde o Rossio, a Rua do Carmo, o Mercado da Ribeira ou mesmo a Ribeira das Naus. Por isso, até que a chuva os apague, caminhe pela cidade de olhos no chão porque vale a pena andar por aí a abrilar. A minha frase aí vai, pois também fui chamada à pedra. Obrigada à EGEAC.


 


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Comentários

  1. Um rasgão no tempo... tinha de ser frase do Extraordinário Miguel Real!
    Já "abrilar", não gosto, faz-me lembrar o termo "abrilada" de que não gosto porque o entendo como desrespeitoso a uma data e acontecimento tão importante.
    Aliás acho que o 25 de Abril continua a ser mal-usado e pior compreendido, sobretudo porque há quem se ache dono dele e o use da pior maneira, para limitar o pensamento a outros, infelizmente Abril não acabou com isso!
    Pois que abrilem, eu continuo a celebrar a porta que se abriu à liberdade e ao Mundo.
    Saudações cá da Cidade Morena.

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    1. Cláudia da Silva Tomazi11 de abril de 2022 às 04:14

      Extraordinário ALP muito bem a lembras "porta à liberdade e ao mundo". Ali, as calçadas e passeios vêem senão a estima o lar, a família. A pacificação é esse meio em se lhes alcançar a trégua o gosto. Ora, esse valor em doer-se pormenores, tporem de sobrepor por mais valiosas as cicatrizes. Se àquele chão a voz cheia de graça a poesia o perturbar em nada valeu a liberdade de por outrem. Pois qualquer outrem é liberdade a poesia.

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  2. Imaginemos uma iniciativa que só admitia contributos vindos de homens!

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    1. Também pensei nisso...

      A iniciativa por muitos predicados que possa ter, contraria a igualdade, uma das conquistas de Abril.

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    2. Caros amalivros e Luís Eme:

      Iniciativas admitindo apenas contributos de homens, houve-as durante séculos.
      Recuperemos um bocadinho, arranjem lá compreensão para isso! (Não exigimos séculos, só talvez umas décadas )



      ChA

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  3. Cláudia da Silva Tomazi11 de abril de 2022 às 03:50

    A poesia cruza façanhas mais reais que imaginárias.

    Nem cala-se a graça neste modelo de pacificação e emerge atento a memória.

    Bem haja o ventre de pedra aquecedor enquanto história.

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  4. Não gosto que me lembrem que elas também estiveram nas prisões fascistas, não gosto que ponham apenas mulheres a escrever sobre o 25 de Abril. para os passeios da cidade. Gosto de saber, e ter vivido, que homens e mulheres estivemos na luta por novos e diferentes dias.. Lembro-me de, com Márcia, no funeral do António Sérgio, fugirmos à frente da polícia de choque de mausers encimadas com sabre, também nos diversos Primeiros de Maio. E éramos sempre tão poucos. Como é que depois as ruas se encheram, quase a deitar por fora, de tanta gente?
    Há coisas, como costuma dizer o inquilino de Belém, que não lembram ao careca!...
    Concluam que não há homens nem mulheres, há pessoas. Umas inteligentes, outras nem por isso...

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  5. Teresa Palmira Hoffbauer11 de abril de 2022 às 06:57

    “…contraria a igualdade, uma das conquistas de Abril”
    Acredita que uma das conquistas de Abril seja a igualdade da MULHER?!

    Desculpem a minha intromissão num grupo literário tão fechado, onde as mulheres tenham um mínimo de igualdade … e as outras?! Que continuam a ser maltratadas e assassinadas!!

    APOIO absolutamente o projecto 48 — só gostaria de saber, se há algum projecto deste género no Porto?!

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    1. António Luiz Pacheco11 de abril de 2022 às 07:30

      Está concerteza à vontade para comentar neste Grupo Literário que não me parece seja fechado. De todo, aliás a Nossa Extraordinária Anfitriã sempre dá a cara, e o peito às balas! Tal como se comenta livremente dentro que cada um sente, pensa ou sabe.
      Discordamos muitas vezes, mas é isso que faz deste, um espaço vivo, livre e interessante. Se é fechado ou menos participado é porque não comentam mais, no entanto faço notar que só quando surge uma polémica como esta, é que aparecem comentadores não habituais, que parecem estar a vigiar-nos lá do seu poleiro, para atacarem em vôo picado assim que se sentem feridos nas suas susceptibilidades pessoais, e, mesquinhas ...
      Não me lembro de a ver por aqui Exma Teresa Palmira Hoffbauer, a conversar connosco sobre tantos temas que diáriamente aqui nos trazem a comentar, apenas agora porque foi ofendida na sua militância feminista? Seremos nós que somos fechados, ou seremos antes desprezados, por alguma elite do alto pensamento?
      Como muito bem se disse, há pessoas, que por acaso se dividem principalmente em homens e mulheres, mulheres que devem naturalmente assumir a sua igualdade relativa, falo de direitos óbviamente, porque noutras coisas há felizmente diferenças. Mulheres que depois de Abril reforçaram a sua posição e a sua igualdade e o devem muito tanto à revolução quanto ao esforço das heroínas que antes dela labutavam nesse sentido, tantas vezes no silêncio que as catatuas e os papagaios de hoje não respeitam.
      Para mim não há mulheres maltratadas nem assassinadas, há, pelo Mundo fora, pessoas maltratadas e assassinadas, muitas vezes em nome de uma pretensa liberdade ou libertação.
      Vai desculpar algum azedume nas minhas palavras, mas gostaria mais de a conhecer pelas suas leituras e opiniões sobre literatura do que pela defesa daquilo que defendido está.
      Coragem, havia-a antes de 25/04/1974, hoje há apenas gabarolice, jactância!

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    2. Teresa Palmira Hoffbauer11 de abril de 2022 às 08:13

      Entretanto, penso que o meu comentário foi um tanto precipitado.
      Na publicação sobre o projecto 48, no blogue onde escrevo em português, uma amiga virtual comentou desta maneira: “Estou de férias mas não em Lisboa. Porquê só frases de mulheres?”

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    3. António Luiz Pacheco11 de abril de 2022 às 09:06

      Grato pelo esclarecimento, creio que de facto houve mal-entendido! Estimo não a ter ofendido, pois não era o meu objectivo, mas há sensibilidades que por vezes beliscamos mesmo sem querer.
      Sempre nos entendemos aqui neste espaço de luz literária em volta do qual, eu assumida traça, esvoaço atraída pelo brilho. Pelo que reitero o que disse: gostaria de saber de si enquanto leitora e amante da literatura, não apenas como "reactora".
      Cumprimentos cá da Cidade Morena, onde a luz e a côr também brilham.

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  6. Teresa Palmira Hoffbauer11 de abril de 2022 às 09:33

    Eu não vejo qualquer ofensa ou beliscão nas suas palavras, antes pelo contrário.
    Embora tenha a mania de expandir a literatura alemã (sem qualquer sucesso) as minhas preferências literárias são muito vastas. Saudações de Düsseldorf.

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    1. António Luiz Pacheco11 de abril de 2022 às 13:04

      Não conheço o suficiente da literatura alemã para me pronunciar!
      Assumo a minha ignorância , e, estou sempre pronto a corrigir-me.
      Acredito que haja autores alemães interessantes para sobre eles falarmos, Hesse não é o principio nem o fim, presumo.
      Vamos iniciar uma conversa sobre eles? Tem , "o que ando a ler", por exemplo, ou a nossa querida citação quinzenal. Participe, partilhe, vai ver que não somos fechados, se bem que possamos ter outros defeitos - eu tenho, como bem se sabe! Eheheheh!
      Sei pouco de literatura alemã, estou aberto a ela!
      Saudações desde a Cidade Morena!

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