A realidade imita a ficção?
Todos sabemos que muito do que se escreve tem como base a realidade. Se, por exemplo, Melville não tivesse trabalhado numa baleeira, provavelmente não teria escrito Moby Dick. Muitos escritores, mesmo sem o pretenderem, deixam escapar para os seus textos experiências pessoais ou episódios a que assistiram ou de que tiveram conhecimento. Mas, quando na vida real aparece uma história que, afinal, já tinha sido escrita, é mesmo incrível... E nem se pode dizer que os seus intervenientes tenham sido inspirados pela leitura do livro porque isso não aconteceu, foi mesmo mera coincidência. Quando William Golding escreveu O Deus das Moscas, não tinha a mais pequena ideia de que, em 1966, meia dúzia de adolescentes fugiriam de um colégio interno em Tonga num barco de pesca (queriam ir até à Nova Zelândia, calculem) e, apanhados numa tempestade, acabariam por ir dar a uma pequena ilha deserta onde viveram (sobreviveram) mais de um ano completamente sozinhos. Em casa, já lhes tinham, de resto, feito o funeral quando foram encontrados por um navegador australiano que não queria acreditar como os jovens tinham conseguido subsistir naquele fim de mundo e criado do nada uma sociedade bastante organizada (até um campo de badminton tinha) e extremamente solidária (um deles caiu de uma ravina e partiu uma perna e os outros foram buscá-lo, correndo risco de vida, e trataram-no tão bem que os médicos se supreenderam mais tarde quando viram o raio X). Vale mesmo a pena ler o artigo maravilhoso do The Guardian que conta esta história rocambolesca e perceber que, na realidade, não houve lutas pelo poder, como no romance do escritor britânico vencedor do Prémio Nobel. (Esperança na humanidade?) Deixo-vos o link, parece ficção, mas não é.
Além dos dois títulos já referidos no post, recomendo mais dois livros sobre adolescentes em grupo deixados sozinhos: O Jardim de Cimento, de Ian McEwan, e Casa de Campo, de José Donoso. Qual deles o melhor.
A realidade, não só imita, como ultrapassa a ficção.
ResponderEliminarAinda bem que este caso foi publicado, já tinha lido sobre ele no facebook.
ResponderEliminarLi "O Deus das Moscas", pela primeira vez, há cerca de três anos e escrevi, na altura, que não se deviam tirar «conclusões precipitadas, como a que li algures num comentário, já não sei em que blogue, nem por quem proferido: "O Deus das Moscas" seria a prova de que os seres humanos são maus por natureza».
«Ora, uma obra de ficção não pode provar coisa nenhuma! William Golding não apresenta os resultados de um estudo, ou de uma experiência. O enredo por si criado nem sequer é baseado em factos reais».
Porém, embora devamos ter muitas reservas em relação ao contexto, penso que a mensagem é importante: «tiranias e ditaduras baseiam-se no medo. Quando as pessoas se sentem fracas e ameaçadas, seguem sem reservas a figura que lhes promete aniquilar o monstro. Se o monstro existe, ou não, é indiferente; como é indiferente se, existindo, ele é de facto ameaçador, ou responsável pela situação difícil que se vive. Importante é que se acredite nele e na força da figura que garante poder aniquilá-lo. Indiferente é também de que meios essa figura tirânica se serve. Crimes são cometidos e legitimados em nome da segurança».
Já agora, gostaria de realçar que estas palavras, escritas há três anos, nada têm a ver com as medidas tomadas por causa da atual pandemia. Pode-se duvidar da sua eficácia, mas creio que, na sua génese, está, acima de tudo, a vontade de os governantes preservarem as vidas dos cidadãos. Com aquelas minhas palavras, eu referia-me ao aumento da extrema-direita e de populismos que, infelizmente, culminaram com as eleições de Trump e Bolsonaro.
Acrescento ainda que a extrema-direita alemã tem felizmente perdido muita popularidade, devido à atuação do governo nesta pandemia.
Se for de interesse para alguém, aqui vai o link com o texto que escrevi, a 8 de março de 2017, sobre "O Deus das Moscas":
https://andancasmedievais.blogspot.com/2017/03/o-deus-das-moscas.html
Concordo inteiramente com o que diz!
EliminarO que pode parecer Extraorddinário... ahahah!
Só gostaria de acrescentar algo à sua afirmação: " Crimes são cometidos e legitimados em nome da segurança».
Crimes são igualmente cometidos tanto "em nome do povo" quanto e mais grave ainda, em nome de uma presumida liberdade!
O que deve dar que pensar e preocupar-nos.
Não conhecia José Donoso e a sua "Casa de Campo", nem sabia que "O Jardim de Cimento" de Ian McEwan tratava de tema análogo. O tema que, suponho, é o mesmo de "As Bacantes" de Eurípedes, sugestão das sugestões! Em consequência, os livros que mencionou já passaram a constar da minha lista de futuras aquisições. Muito obrigado.
ResponderEliminarLi "O Deus das moscas", há muitos anos, e, gostei bastante, mas nunca me revi nele!
ResponderEliminarCom sinceridade, digo que escreveria algo completamente diferente (com muito pior qualidade literária óbviamente), pois sou dos que não acreditam na natureza malévola e inata da humanidade. Sei que existe maldade, mas isso não quer dizer que se nasça mau e seja pela educação que esse mal é atenuado ou impedido.
Li muitos livros sobre o tema, aliás sempre me atraíram as histórias de naufrágios desde que em pequeno li o episódio do naufrágio de Sepúlveda nos "Grandes dramas da história", muito anos depois eu mesmo vivendo uma situação dessas, ao largo de Pangane, na zona de Pemba em Cabo Delgado - Moçambique!
A ficção como a realidade, fazem parte da nossa vida, não duvidem nem por um momento!
Um dos meus preferidos a tratar o tema dos náufragos é Júlio Verne. Esta nossa conversa transportou-me imediatamente a um dos meus ícones: Dois Anos de Férias, dividido em "A escuna perdida" e "A colónia infantil". Neste soberbo romance é tratado o tema de um naufrágio por crianças e adolescentes e a sua instalação numa ilha deserta... com todos os ingredientes, mas sem preponderância da "maldade" de Golding.
Notem que não sou nem pedagogo, nem psicólogo, sociólogo nem nada disso, pelo que não sei quem tem razão, se Golding ou Verne, se Wyss ou Margret Wittmer ... entre muitos outros que trataram o tema sob diferentes ópticas.
Sabendo que são as condicionantes do meio e do momento quem determina a "bondade ou maldade" , num dado período como no comportamento geral e formação do indivíduo, não quero porém acreditar que a violência prepondere! O ser humano tem muito de animal, mas não é puramente animal, ou não teria evoluído.
Saudações humanistas cá da Cidade Morena!
Esqueci-me de dizer que, os supracitados fugitivos adolescentes, podem ter lido Verne!!!!
ResponderEliminarOu Mark Twain... ou qualquer outro, pois muitos livros (a ficção) influenciam também a realidade, como é sabido a ponto de todos os regimes autoritários, de esquerda, direita ou teocratas, censurarem, condenarem e condicionarem a leitura por isso mesmo!
Mas a senhora não aprende nada: nem com a ficção nem com a realidade.
ResponderEliminar(boa tarde "frasco de veneno")
Eliminar:))
... destapado, acrescente-se!
EliminarAhahahah!
O homem é animal mas tem uma arma que permite suplantá-lo, a cultura. Mas a cultura tem muitas vertentes, pode também criar e aplicar o veneno.
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