Bilinguismo literário
Um dia destes, consultando o nome dos jurados do Man Booker International Prize (isto porque comprei um dos livros que estão na final), reparei que a mexicana Valeria Luiselli estava entre eles (conheci-a num festival de escritores, mas já não me lembro se foi cá ou noutro país). Achei estranho que uma autora mexicana fosse jurada num prémio para livros traduzidos em inglês; mas descobri que a própria Luiselli vive nos Estados Unidos há muitos anos e já escreve directamente em inglês. Como será escrever literariamente numa língua que não é a nossa? Samuel Beckett, um dos laureados com o Prémio Nobel da Literatura na Irlanda (houve quatro por lá), escreveu vários textos dramáticos em francês (e até dizia que às vezes precisava de outra língua mais rica do que a sua para se expressar melhor). Por outro lado, a Kundera aconteceu em França, onde se exilou, o mesmo que a Luiselli: começou por escrever em checo e, às tantas, passou naturalmente ao francês (corrigiu inclusivamente o seu tradutor em certas passagens). E mais espectacular é ainda o caso de outro Prémio Nobel da Literatura, o poeta Joseph Brodsky, que deixou o russo para escrever em inglês poucos anos depois de se ter «escapado» para os Estados Unidos na altura do comunismo. (Poesia sem ser na língua materna deve ser ainda mais difícil, digo eu.) Mas há seres superiores e todos estes o foram de alguma maneira. Espere-se, pois, que a jovem Luiselli se torne genial com o tempo.
Hoje vou recomendar uma peça de Beckett que adoro, já que falei dele: Os Dias Felizes (Oh les beaux jours). Vê-la é ainda melhor do que lê-la.
Não cheguei a ver a peça em português, mas dizem as críticas que a interpretação da Glicínia Quartin foi fabulosa!
ResponderEliminarÉ uma boa questão, talvez explicada por ser um prémio internacional, se bem que condicionado às traduções para inglês e de livros publicados lá nas ilhas.
EliminarTambém lá encontro uma Lucie Campos e fui ver o currículo da senhora: nasceu em Dublin e cresceu em Paris. Na minha forma de ver as coisas à portuguesa, como já disse - e bem - a Extraordinária Cristina Torrão - logo pensei que seria filha de emigrantes cá da lusa terra. Pelo retrato, até parece!
Outro membro do júri, Jeet Thayil, também é sírio e na shortlyst encontro uma Fernanda Melchor com "Hurricane Season", traduzida do espanhol por Sophie Hughes.
A propósito de prémios, hoje de manhã encontrei numa agenda de 2012, uma anotação curiosa (agora posso divulgá-la por não vir daí mal ao mundo e porque deixei de concorrer a qualquer prémio, sendo este o único no âmbito "Leya"):
17-12-2012
"Foi anunciado o vencedor do Prémio Leya para o qual concorri com o romance, escrito nas três primeiras semanas de Maio, "Amanhã é Outro Dia", que narra as contingências da personagem nas datas de 11 de Setembro, entre o acidente ferroviário de Alcafache e as Torres Gémeas de Nova Iorque, curiosamente na concordância do calendário. Não me foi atribuído o prémio e o meu pseudónimo "Simão do Lago" não consta dos 7 finalistas".
Já nem sei onde pára o original na minha posse. Julgo que não se perdeu grande coisa. E, para ser sincero, se houve decisão acertada do júri de selecção, a não escolha deste meu trabalho, feito à pressa, foi a mais correcta.
Tiro o chapéu, ao seu pragmatismo e honestidade!
EliminarÉ dos que nunca me enganou!
Vale mesmo a pena andar por este blog e ir conhecendo gente "como deve de ser" ... eheheh!
Grande abraço cá do reino de Benguela-a-Nova!
Depende do amor que se tem ao nosso país e à nossa língua.
ResponderEliminarOs casos de Kundera e de Brodsky, ainda são mais fáceis de compreender.
Penso que quando se tem alma de "cidadão do mundo", será mais fácil de escrever um livro, até mesmo em mandarim.
Em relação aos "Dias Felizes" de Beckett, não li mas vi.
EliminarAlgures no começo da década de 90, na Trafaria, com António Assunção e Teresa Gafeira, dentro do Festival de Teatro de Almada...
A sua carreira de fazedora de fretes vai de vento em popa, caríssima. É a minha memória é excelente, tal como eu sou genial sem precisar de tempo.
ResponderEliminarE depois há o caso do Joseph Conrad que, não sendo fluente em inglês antes dos 20 e tal anos, se converteu depois num dos mais extraordinários prosadores nessa língua.
ResponderEliminarOra bem, que riquíssimo tema para discorrer e esclarecer, aprendendo, que temos aqui hoje!
ResponderEliminarO bilinguismo na escrita literária!
É justamente algo em que muitas vezes matuto, pois sabemos haver escritores que escrevem num idioma que não o seu, materno.
Acho notável!
Também sou levado a concluir que é prova de um génio superior, só pode ser! Por muito que se domine uma segunda língua, há coisas, como a expressão dos sentimentos, que à partida me parecem limitadas. Não tanto o discurso, mas a expressão do sentir, das impressões colhidas, ai, essa sim...
No entanto, como oportunamente refere a Nossa Extraordinária Anfitriã, Beckett dá-nos uma pista interessante, em ambos os sentidos: - a necessidade de usar uma língua mais rica! Lá está, para exprimir, dar vazão a sentimentos amplos como serão os de um poeta, tem de ter umas asas mais amplas, que lhe permitam voar mais largo! O francês, naturalmente, que é até dito ser a lingua do amor!
Estas idéias, levam-me a pensar em sentido inverso, isto é, quem, vindo de uma língua rica como as latinas - russo não sei -, consegue escrever (textos literários) numa língua mais lacónica como o inglês?
Ou, será até mais fácil porque havendo menos expressões?
Interessantíssimo tema de conversa, este, que daria pano para mangas!
Saudações perifrásticas e literárias, cá da afro-latina Cidade Morena!
Aqui está uma frase do extraordinário Pacheco que diz tudo - "por muito que se domine uma segunda língua, há coisas, como a expressão dos sentimentos, que à partida me parecem limitadas".
EliminarTemos de ser pragmáticos. Podemos conhecer todos os vocábulos do dicionário Oxford, frases idiomáticas, silogismos e muitos ismos em anglo-saxão, que não podemos, sem lá viver e comunicar durante muitos anos, conseguir exprimir em texto a vivência romanceada de um autóctone. Daí ser difícil a um tradutor, em diversas partes do seu trabalho, dar a ênfase original do texto traduzido; a não ser que o tradutor tenha repartido a vida entre as duas áreas geográficas. Não esqueçamos que o ser humano fala todas as línguas no primeiro ano de vida - tal como os políticos, todos sabem dizer bla, bla, bla, e ficamos todos, os que ouvem, a saber o mesmo!
Saudações do Planalto, onde se fala o português com sotaque serrano, para a Cidade Morena, onde se falará o português com resquícios de umbundu bantu.
Extraordinário Fernando, toca e acrescenta um ponto sensível ao que aqui de fala:
Eliminar- Os traductores!
Tenho a maior reverência pelos traductores. Pelas razões apontadas no que tange ao domínio de um outro idioma, mas porque têm de ser, no fundo, eles mesmos escritores, dado que só assim conseguem por lado entrar no sentimento do que se dispõem a traduzir, e, por outro lado a exprimi-lo numa outra língua, sem desvirtuar o original!
É obra! Pelo menos, para mim é!
Li este artigo de opinião, vale o que vale, merece-me o maior respeito. A verdade dos outros é sagrada, intocável. Ponto. Só fiquei com uma dúvida: a quem serão dirigidas as recomendações aqui mencionadas ? aos alunos, aos familiares , subalternos, amigos, vezinhos, da autora ? A perguntar aprendo. Muito obrigado pelo esclarecimento.
ResponderEliminarMuita saúde e melhores cumprts de:
nos tempos livres - ler é o melhor remédio
https://lereomelhorremedio.blogs.sapo.pt/
Não tenho a certeza de ter entendido qual era a sua dúvida, mas houve vários leitores do blogue que pediram que todos os dias recomendasse a leitura de alguma coisa. É, pois, a esses que se destina a recomendação, podendo ser para muitos outros se a quiserem aceitar. No entanto, este não exactamente um artigo de opinião, é apenas um post que formula uma dúvida minha sobre a possibilidade de um escritor passar de repente da sua língua para outra.
EliminarQuando a autora do post diz: "Hoje vou recomendar uma peça de Beckett...", fiquei (na dúvida) a pensar em quais seriam os destinatários da dita recomendação. A autora do post já teve a amabilidade de me esclarecer, pelo que só me resta apresentar-lhe os meus agradecimentos.
EliminarCom os meus cumprimentos
fl
Certamente, comum e diria que a qualidade da escrita ou lingüística, independe da nacionalidade onde se lhe decorre o acrescente em fenômeno neurológico. Amei o exemplo da mexicana e por vários motivos alguns casos (pipocam) outros, não.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Independe da nacionalidade... também creio que sim ExtraCláudia, porém, suponho que pipoque mais e melhor, mesmo quando não-nativo porém se vive e comunica diáriamente naqueloutro idioma, e, sobretudo se leia muito nesse idioma! Penso que aí estará a chave, a receita das pipocas: - ler!
EliminarSaudações cá do lado de nasce o Sol!
Já tentei escrever em alemão e não consigo, embora seja licenciada em "Germânicas" e viva há 27 anos na Alemanha. O alemão é uma língua riquíssima, mas, por isso mesmo, muito complicada. O alemão escrito nada tem a ver com o alemão falado e isto não é válido apenas para obras de alto valor literário. Lembro-me de o meu pai me dizer, quando andava a tirar o curso de Filosofia, na Universidade do Porto, que tinha muita pena de não saber alemão para ler Kant na língua original, já que não há nenhuma tradução deste filósofo que esteja ao nível da sua escrita.
ResponderEliminarKafka era checo e escrevia em alemão, mas ele cresceu bilingue, já que Praga, na altura, pertencia ao império Austro-Húngaro.
Quer dizer, o checo era uma espécie de catalão das redondezas, tinha de baixar a bolinha a favor do alemão...! Vejam só, ainda por cima quando, além do próprio Kafka, apareceram grandes escritores checos: Kundera, Jaroslav Hasek,
EliminarAs suas considerações sobre a língua alemã, que desconheço, intrigaram-me. «O alemão escrito nada tem a ver com o alemão falado...»
Dois autores estrangeiros que adotaram o português (mas não expressaram por escrito esse processo de adoção): Jorge Listopad, Ilse Losa.
Receio que queiras dizer às desdobraduras do alemão, e assim as prefiro encarar ou encarei, em minha frustrada tentativa em estudos da linguagem germânica. Estudei alemão sem muito prazo ou aprofundamento, mas o suficiente para interpretação. Embora os sons, das letras o façam a tal dobradura e até se pegar o jeito demanda tempo e capircho. Na minha experiência está foi tanto quanto (uma) humilde inserção, e creio não ser páril para à língua portuguesa em estilística, pois onde justamente a escrita germânica impacta e refreia pela falta de figuras de linguagem. Claro que é uma questão de gosto.
EliminarAliás, Cristina Torrão percebo em sua escrita ou melhor, dos teus livros os que li, o rastro do pensamento germânico (digo) o modo operandi e isso à torna completamente bela por única e idiomática, também porque se lhe bastaria traduzir que os leitores germânicos te apreciaram em gosto.
Cláudia da Silva Tomazi
Richard Zimler, é norte-americano, radicado em Portugal há vários anos, escreve em português!
EliminarNão sabia, sim.
EliminarAgora, p. ex., no 'Língua Afiada', a M. Dean dá a entender que a Hanna Arendt pouco arriscou e esteve até ao fim entregando os manuscritos aos amigos para aprimorarem ou mesmo traduzirem o inglês
Não, Richard Zimler escreve em inglês. Por vezes a tradução sai ao mesmo tempo que o original, mas a sua língua de escrita é o inglês.
EliminarArendt no exílio americano, claro.
EliminarO António Tabbuchi escrevia em português?
EliminarOlha! Não sabia... julgava que escrevesse em português, mas o que diz faz mais sentido, e vai ao encontro daquilo que se dizia... obrigado pela sua correcção, e, peço desculpa pelo meu erro!
EliminarO Tabuchi? Boa questão, mas esse era italiano, talvez seja mais fácil...
Durante muito tempo escreveu em italiano, não sei se os seus últimos livros foram escritos
Eliminarem português.
Que eu saiba, escreveu sempre em italiano.
EliminarMarito Torres, também houve línguas que tiveram de baixar a bolinha em favor do português.
EliminarO catalão ainda hoje tem de baixar a bolinha em favor do castelhano. A República Checa tornou-se num país independente e os seus habitantes hoje em dia não sabem falar alemão (a não ser que tenham vontade de o aprender).
A família de Kafka era originária da Alemanha. Mas a nacionalidade do escritor permaneceu checa.
A senhora Cristina Torrão é sempre amável quando vem esclarecer-me, mais uma vez obrigado. Deixe-me acrescentar
EliminarHouve línguas que emudeceram por causa do domínio luso, mas elas não tinham uma escrita estruturada. O tupi entrou na nossa fala, também de África e de Timor como o Cinatti divulgava. Não sou especialista. Até o número de falantes está errado, porque nas ex-colónias africanas há milhões que não conhecem o português. O mesmo para inglês.
Como antiga potência da região, eu julgava que o alemão fosse aí a segunda língua. Isso verifiquei até entre nórdicos/noruegueses (para quem o francês não tem qualquer interesse), só aprendem inglês, depois do alemão, por questões de turismo. A maioria da tecnologia que lhes chega é alemã. Será assim? Minhas saudações
Na literatura de expressão inglesa, além de Joseph Conrad (mencionado por António Carlos Matos), avulta o exemplo de Vladimir Nabokov, que publicou o seu primeiro livro em inglês (The Real Life of Sebastian Knight) em 1941 e é um dos mais brilhantes estilistas da língua inglesa: "o menor dos seus escritos", disse John Updike na altura da sua morte, em 1977, "oferecia uma espécie de vetusto deleite: a dignidade cintilante de um feiticeiro que fazia de cada frase uma ocasião potencialmente mágica" (The New Yorker, 26/2/2002: https://www.newyorker.com/books/double-take/eighty-five-from-the-archive-vladimir-nabokov); e Martin Amis disse que ler os seus livros mais radiantes era experienciar o que de mais próximo do puro prazer sensual a prosa pode oferecer (na crítica - de 1975, no The New Statesman - ao livro Look at the Harlequins!, de 1974 - crítica na qual, curiosamente, Amis arremessou à obra uns quantos adjetivos negativos - e que, ironicamente, surge na contracapa de uma edição da Penguin desse livro de Nabokov) .
ResponderEliminarPaulo Loopes
A decisão está tomada: sairei para os EUA e só publicarei em inglês. Já comecei as traduções e soam igualmente harmoniosas ( desculpem qualquer coisinha os defensores desta choldra inabitável). Renunciarei à cidadania portuguesa assim que puder legalmente. É um caso de ódio ao lugar aleatório de nascimento. E provarei que não preciso de "tempo" para absolutamente nada.
ResponderEliminarFaz-me rir, desculpe. Lembras o "Dantas".
EliminarCláudia da Silva Tomazi
Pois: mas não sou sal nem cedo nem tenho paciência. O Antoninho que explique aos Palop já que achou sensato esticar a corda.
EliminarOh! Mar quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal,
Eliminarpor ti... nem Camões és, sossega-te amigo.
Que eu tenha o ensejo de sair deste tugurio por causa do ignoto primo do maior corrupto de Portugal, só define o país. Não sou Camões com toda a certeza: não vos deixarei nada e divulgarei porquê.
EliminarRealmente é melhor zarpares, vai lá para os States, vai: acho que o Trump vai adorar receber-te... e aqui não fazes falta nenhuma.
EliminarA dizer mal e a não fazer nada pelo país já cá temos muitos.
E escusas de mandar notícias, we are not interested in
Claro! O país precisa mesmo é de assediadores sexuais como o Pedro Almeida sande ou vaquinhas mansas como a namorada. Os prémios Nobel podem perfeitamente ir para os EUA.
EliminarPara os EUA e a língua inglesa. Ainda não encontrei o versículo bíblico alegado pelo execrável professor Marcelo para justificar que eu seja, em simultâneo, amante do sande e do Lopes. Decerto é ignorância minha. Continuarei a procurar. Já hoje comuniquei à Mrs Von der Leyen que deserdarei a Europa do meu espólio já que sou uma small thing. Enfim: é o país dos palhaços e palhaços há muitos. Eu não desculpo e estou de saída.
EliminarEspantosas (ou talvez não) são a conivência dos senhores Sampaio e Costa que, sem vergonha, também citam a bíblia. Tudo gente extremamente religiosa. Isto também foi participado ao partido democrata norte-americano. O único a manifestar decência neste vergonhoso despautério.
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