Os novos fascículos

Dickens começou a escrever os seus romances em fascículos publicados nos jornais como forma de receber um pagamento regular (a sua infância a trabalhar em fábricas fora miserável e inspirou muitas das suas ficções). Camilo também o fez, e também por precisar de dinheiro. E os fascículos de  vários géneros (ficção, história, biografia, enciclopédia...) circularam ao longo de todo o século XX, por vezes em cadernos independentes e agrafados (no final, recebia-se a capa e mandava-se encadernar), por vezes impressos nas páginas ou suplementos literários dos jornais e revistas que se podiam coleccionar. No actual estado de coisas, em que as páginas de Cultura dos periódicos têm infelizmente pouco de que falar (passa-se quase nada em termos de lançamentos, espectáculos e eventos), o Diário de Notícias lembrou-se de resgatar o fascículo e está desde segunda-feira a publicar um romance em doze episódios do repórter e crítico João Céu e Silva. Chama-se O Regresso de Fernando Pessoa e tem como protagonista o heterónimo Vicente Guedes, que foi preterido como autor do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. Espreite aqui o primeiro capítulo:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/04-mai-2020/a-segunda-vida-de-fernando-pessoa-12148048.html?utm_term=Tancos.+Tudo+o+que+Carlos+Alexandre+ja+sabe+para+o+julgamento&utm_campaign=Editorial&utm_source=e-goi&utm_medium=email


Hoje recomendo um livro de Dickens, porque não? Tempos Difíceis: condizem com os nossos pelo menos em título.


 

Comentários

  1. Creio que era desse tempo dos fascículos o hábito que tinham os vendedores nas feiras de pendurar num cordel, com uma mola, os cadernos agrafados. Daí a designação "literatura de cordel".

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  2. António Luiz Pacheco6 de maio de 2020 às 03:26

    Os fascículos... que boas recordações me trazem, sobretudo os da SALVAT!
    Fiz diversas colecções de edições tão boas quanto a Fauna, história universal e de Portugal, enciclopédia Costeau... e outras, assim, em fascículos! Levaram anos a ser completadas, mas lá estão nas prateleiras!

    Havia duas modalidades e consoante eram pais ou avós que nos compravam os fascículos:
    Se era da casa, no período liceal e das comissões militares do meu pai, quando vivíamos em Oeiras, era o "ardina" , o jornaleiro quem as trazia semanalmente e eram pagas com os jornais, revistas e outras assinaturas da casa, como eram "O Século Ilustrado" , a "Crónica Feminina", "Selecções do Readers Digest" , "Mundo de Aventuras", "Cavaleiro Andante", "Tin-tin" , "Salut les copains", "Marie Claire" de que me lembro, e como era então hábito, pois havia jornal entregue à porta, leiteiro, padeiro, "carroça" (hortaliças)...
    Se eram avós, que também assinavam "A gazeta das aldeias", "Modas & Bordados" , "Paris Match", "Almanaque Bertrand", "A caça no império português", "Revista Diana", "Correio do Ribatejo" - ainda mantenho a assinatura de meu avô - , "Jornal do Exército", mandavam guardar na Agência de Jornais e Revistas (ainda existe esta casa centenária em Santarém!) ou nalguma outra papelaria e livraria como o extinto Jacinto Cardoso, onde a funcionária D. Elsa envelheceu enquanto nós crescíamos, como se fosse família! Havia estabelecimentos onde se tinha "conta", porque o comércio era assim... e depois recolhíamos de uma só vez vários fascículos!

    Isto o que para aqui iria de lembranças de tanta leitura ansiada!

    A propósito do jornaleiro, há uma história daquelas que ficam, uma imagem para sempre:
    - Em Oeiras, o nosso jornaleiro tinha um quiosque à saída da estação do comboio, assim recolhia os maços de jornais e revistas que expunha no quiosque ou de onde partiam em distribuição os "ardinas", uma categoria de rapazes castiços e típicos, de uma fauna extinta. Havia um ardina que se fazia sempre acompanhar de um cão rafeiro e lazarento, aliás de mau feitio. Por norma estes moços portavam ao ombro em amplas e pesadas sacolas de pano, aquilo que iam distribuir, carregando uma ou duas, consoante a volta que tivessem, calcorreando quilómetros diáriamente. Não era pêra doce, não...
    O nosso protagonista, trazendo duas sacolas, chegou ao início da nossa rua (Rua do Caminho da Quinta) e poisou junto ao poste da luz aquela com os jornais que não eram para ali. Com a outra ao ombro iniciou o percurso, mas não sem antes se virar para o cão e de dedo em riste ameaçar: "Se mijas aí, vais a ver!".
    Ahahah!
    Ficou a ser conhecido pelo "Se-mijas-aí".

    Boas lembranças!

    Saudações saudáveis e saudosas, cá desde a Cidade Morena!

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    Respostas
    1. Caro António, que belas lembranças! O meu pai ainda coleccionou o "Cavaleiro Andante" e outras revistas de BD. Eu em pequeno ainda me lembro de ver alguns ardinas, já velhos, a vender nas ruas com a sacola grande. Ainda o jornal "A Bola" era só a preto e vermelho.

      Dos fascículos lembro-me da época em que o Público publicava aos sábados/domingos colecções que mais tarde o meu pai encadernou. "Os 100 anos da Olímpiadas" e um "Atlas" são os que me lembro. Ficaram todos na casa dos meus pais.
      É uma boa ideia e uma forma de cativar a leitura. Se o pessoal hoje em dia não tem paciência para ler textos longos, será talvez uma forma de ir lendo aos poucos algo mais que os títulos dos jornais.
      Acho engraçado como alguns jornais informam antes se o texto é mais longo ou não. Para não perder logo a atenção do leitor.
      Sou assinante da "Courrier Internacional" com textos longo sobre a actualidade internacional e queixo-me a mim próprio de não ter tempo para lê-los com atenção. Por isso mesmo que o "Expresso" ou outras publicações nesta altura permitam ler alguns textos sem pagar, quem tem tempo para os ler? E estamos em confinamento.

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    2. ANÓNIMO DE ESTIMAÇÃO6 de maio de 2020 às 05:42

      Ó Pacheco, que belas lembranças me trouxe. Quase toda essa gama de títulos me aparecia em casa. Grande parte - a que valia a pena - passou ao encadernador.

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    3. Já percebeu que fui eu quem comentou o seu comentário, e que assinou como Anónimo de Estimação (e não sou único, pois já foi registada a patente anteriormente), um pseudónimo tão autêntico e característico, que me admira não ter sido adoptado por Fernando Pessoa.
      Cumprimentos do Planalto.

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    4. António Luiz Pacheco6 de maio de 2020 às 06:16

      Pois é Fernando... são títulos de uma outra época, um outro tempo que como bem diz, nalgum caso passaram ao encadernador: caso de Gazeta das Aldeias que tenho todas encadernadas!
      Em minha opinião, se há uma memória do Portugal rural, histórica, das práticas e eventos, do interior e dos nossos avós, chama-se "Gazeta das Aldeias"!

      Grande abraço cá das Áfricas!

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  3. Obrigado pela sugestão. Parece-me que ainda vejo o meu Pai agarrado aos fascículos semanais que a "contrabandista" entregava em casa todas as semanas.

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