Livrarias e livreiros

Ontem falei de bibliotecas, hoje falo de livrarias e de livreiros. No tempo em que eu me tornei leitora, as livrarias eram muito diferente das de hoje. Tinham à frente homens e mulheres que eram grandes leitores, ou pelo menos conheciam muito bem o que tinham dentro da loja. Estabeleciam frequentemente com os clientes um relacionamento pessoal, chamando a atenção para determinadas novidades que provavelmente lhes interessariam. Sabiam aconselhar livros para crianças de idades diferentes; e, por vezes, até telefonavam a um cliente específico a dizer que tinha chegado de longe aquele livro, que depois guardavam debaixo da mesa para não serem apanhados pela PIDE. Com honrosas excepções, esta espécie de livreiro já não se encontra, não só porque, com o aumento do número de leitores e pessoas escolarizadas, a edição se foi progressivamente transformando numa indústria, mas porque, para a maioria dos jovens, a cultura se tornou uma coisa muito mais superficial e as pessoas hoje estão, infelizmente, mais viradas para a informação e o conhecimento rápidos, e também mais dispostas a uma fruição rápida (meia hora de um episódio de uma série contra duzentas páginas de um romance). Em Portugal desapareceram as livrarias independentes quase todas, mas em Espanha, por exemplo, elas ainda contam muito, e dois escritores espanhóis quiseram prestar-lhes homenagem nestes tempos horríveis com um artigo maravilhoso que aqui vos deixo. Gostei muito de duas ideias: a do livreiro que escolhe os livros para o jovem cliente como quem escolhe flores para a abelha, estimulando o pólen da imaginação; e a ideia de que o escritor é uma ilha e o leitor um continente. Mas, por favor, leiam estes elogios aos livreiros, merecidíssimos, e honrem os vossos livreiros, se ainda os têm, partilhando-os com eles.


https://www.zendalibros.com/dos-cabalgan-juntos-xi/


Como falei de livrarias, hoje recomendo uma verdadeira pérola: A Casa de Papel, de Carlos María Domiguez. (Não tem nada a ver com séries de televisão, aviso já.)

Comentários

  1. António Luiz Pacheco14 de maio de 2020 às 02:09

    Gostei de ler! Não percebi é como hei-de "valorar" o artigo...

    Também gostei de ler as suas palavras, assumo sem preconceitos nem receio de que me digam estou a prestar vassalagem, aliás não é minha editora, pelo que o que lhe devo é sobretudo gratidão por ter criado este espaço e ir postando coisas interessantes, e isso já é bastante!
    Devo dizer, e isto para os seus críticos, que pode parecer surpreendente o que diz sobre o negócio dos livros e da edição... mas para mim não, pois compreendo que trabalhar na área da edição, não significa que se tenha vendido!
    Aliás, se aqui venho diáriamente dissertar ou disparatar, como queiram entendê-lo (e eu ralado!) é porque não sinto nenhum constrangimento, muito pelo contrário!

    Quando viajo, procuro sempre localizar e ir a livrarias. É um hábito e uma tendência, muito antigos. Gosto de ir às livrarias como gosto de ir aos mercados, às praças (outra tendência) que me dizem muito sobre a terra e as pessoas!
    Saio muitas vezes a dar uma volta às livrarias, com o mesmo espírito com que vou à caça!
    Não vou ver lojas, vou mesmo às livrarias...

    Quanto aos livreiros... pois hoje o que há são "funcionários de livraria", o que pode ser, e será diferente de haver "livreiros". Mas, isso não significa que os "funcionários de livraria" não gostem de livros, não leiam e não sejam empenhados... devo homenagear o pessoal da Bertrand de Santarém, é manifestamente gente jovem que gosta de livros, que conhecem o que vendem! Que os mantenham... é o que posso dizer.

    Saudações desta traça dos livros , cá na Cidade Morena.

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  2. Eu não sou conhecedor, como a senhora, mas permita-me dizer. Hoje é difícil falar em livreiros, pois retiraram-se da loja. No seu lugar, pelo menos nas grandes ou tradicionais livrarias, existem vários jovens empregados. É bom, são empregos gerados e, se os tempos são outros, continua o bom profissionalismo. Há poucos anos, no início destas novas livrarias, quem entrásse nelas, remodeladas, e se dirigisse ao balcão, estava tudo bem, mas se por acaso entrásse e perambulava pelas estantes como nos supermercados era logo abordado se precisava de ajuda. Isso desapareceu, assim é melhor.
    Mas os bons empregados de livraria (há anos atrás nos classificados era anunciada a procura de 'serventes' para livraria) não deixam de cutucar o cliente; entrei numa loja decidido a procurar um livro e nessa procura, ao tocar noutro livro, o empregado passou por mim e comentou «esse é um grande livro»; ora, eu na altura não achei piada, mas muito tempo depois venho a comprar esse livro, um verdadeiro achado, "O Segredo de Joe Gould" de Joseph Mitchell. Acrescento que essa pequena-grande livraria oferecia uma oferta altamente especializada e internacional em diversos temas, próprio de cidade universitária, e hoje está fechada. O mesmo empregado encontrei-o depois no serviço livreiro duma multinacional recém inaugurada.

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    1. É verdade, o primeiro livro que comprei de Barthes foi-me posto na mão pela proprietária da livraria antiga que eu visitava amiúde, autor desconhecido para mim mas tido como importante na altura. Comprei. Era o 'Roland Barthes por Roland Barthes', e as fotos agradaram-me. Só o li anos mais tarde.

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  3. Infelizmente o livro que aconselha A Casa de Papel, de Carlos María Domiguez está indisponível nas livrarias.
    Henrique Cheira

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    1. Se vive em Lisboa, aproveite a rede de bibliotecas municipais, que felizmente já reabriram. Esse livro está neste momento disponível para empréstimo, gratuitamente, nas bibliotecas do Palácio Galveias e de Belém.
      Filipa

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  4. "A Casa de Papel" é um livro que se lê em poucas horas, de uma assentada.Será leitura recomendada para a maioria dos Extraordinários, porque fala de livros, de escritores e de coleccionadores. Há leitores compulsivos, como também há coleccionadores compulsivos: uns lêem tudo e mais alguma coisa; outros juntam obras literárias como se fossem cromos, tornando as estantes uma espécie de cadernetas, onde os livros nem sequer são abertos.
    Com cerca de oito dezena de páginas, já aqui foi dito que não se encontra à venda, pelo menos nas disponibilidades de FNAC's, Bertrand's e Wook's. Talvez numa livraria, das que sabem o que têm e onde o têm, como havia in illo temporae.
    Em determinada altura da minha vida, para concluir um trabalho, procurei uma obra que não encontrava em lado algum. Precisava dela, não apenas como leitura, mas também como ferramenta bibliográfica. Entrei num livreiro no Campo Grande, a uma esquina, junto da residência do Dr. Mário Soares. O livreiro tinha lá um exemplar. Foi ele uma pessoa extraordinária, comunicativa, homem conhecedor do seu ofício e do meio, com quem tive o prazer de conversar.
    Ainda há desta "massa" humana nos livreiros e nas livrarias, mesmo nos mais jovens, mas para isso talvez seja necessário procurá-los com a candeia de Diógenes.

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  5. Tenho pena de não ter vivenciado isso, contudo, ainda há por aí vários livreiros-conselheiros, até nas livrarias mais impessoais! Penso é que os jovens de hoje em dia (e quem sabe se não também os adultos) não só se desinteressam crescentemente pela leitura, como pelo contacto social. Sempre parece mais fácil e menos maçador fazer um clique no goodreads, vir ao presente blog, ou pesquisar no Wikipedia por um qualquer livro ou género literário.
    Eu continuo a pedir recomendações, e sou muitas vezes surpreendida pelo gosto e cultura literária de muitos funcionários. Stoner, por sinal, foi me recomendado por um da Bertrand :)
    Saudações

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  6. Embora não tenha quase nada a ver, este blogue tem funcionado muito como essas livrarias que já não há. Aconselham-se livros, levantando um pouco o "véu" do que lá está dentro (contribuindo com toda a certeza para a estatística das suas vendas...).

    Felizmente não precisamos de aconselhar "livros proibidos". :)

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    1. António Luiz Pacheco14 de maio de 2020 às 07:01

      Verdade, verdadinha!
      Eu, sou disso a prova, pois tenho aqui neste blog descoberto muitos e bons livros, e, autores!
      Note-se que, não passo de uma traça dos livros, talvez seja por isso!

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    2. É verdade, Luís, eu comprei A Casa de Papel por sugestão da Rosário aqui no Horas.
      E já me aconteceu comprar outros livros por sugestão de alguns Extraordinários comentadores.
      🌻
      Maria

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  7. Quanto ao Post de hoje não posso estar mais de acordo.E também este blog é muito útil e mais uma vez agradeço a MRP e aos vários extraordinários que nos dão as suas sugestões.
    Já agora gostava de perguntar ao amigo Pacheco o que quer dizer com “traça” dos livros.Nao os lê?Sao só para estar na estante?Nao acredito!

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    1. António Luiz Pacheco14 de maio de 2020 às 10:50

      Ahahah!
      É quase isso, pois acabo por ser um comprador compulsivo de livros!
      É uma imagem que criei, desde o início da minha participação aqui no Horas Extraordinárias, e vou explicar o conceito:
      - Neste blog iluminado que eu considero uma luz, onde brilham tantos comentadores que são gente da cultura, da escrita e do Mundo dos livros em geral (não estou a ser irónico!), eu que não sou nada disso, sinto-me como uma simples traça que esvoaça, atraída.
      Os livros são a luz!

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  8. Bonita imagem,Pacheco!Mas vê-se que também lê,não é só uma fumaça!

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  9. Com tantos leitores que por aqui andam, atrevo- me a sugerir o site Five Books. É em inglês mas é bom.
    TeresaB

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