Ainda os diálogos
Desta vez foi o Extraordinário Guilherme Henriques que, na quarta-feira passada, me «desafiou» a comentar o facto de os diálogos numa narrativa deverem dispensar explicações do narrador; ou seja, eles devem ser vívidos e realistas o suficiente para o narrador não precisar de acrescentar adjectivos, verbos e advérbios a descrever ou indicar o tom com que a personagem fala. Por outras palavras, se eu sei que a personagem está furiosa, devo incluir a sua fúria no que diz, e não escrever a seguir ao travessão «disse Ana, furiosa» ou «irritou-se John» ou «disse José, espantosamente enervado». Sim, é verdade: um grande escritor será seguramente capaz de integrar nas falas das suas personagens o que elas estão a sentir, embora isso requeira obviamente um talento singular e não seja para toda a gente; mas, atenção, por vezes a achega do narrador não é meramente explicativa, é ela própria literatura (quantas fantásticas metáforas e metonímias há nessas «explicações» do narrador?), por isso já não tenho tanta certeza de que tenha de ser forçosamente como defende Henry Green. Por outro lado, quando eu escrevia livros juvenis, acrescentava deliberadamente informação desse tipo nos diálogos para que os miúdos aprendessem palavras novas; sobretudo verbos (indagar, sussurrar, retorquir, inquirir, comentar, pigarrear, atalhar...) e os tais advérbios ou locuções que Green «condena». Mas, claro, eu não sou uma especialista na matéria, falo como alguém que trabalha lendo, nada mais. Os académicos certamente terão opiniões distintas das dos editores.
Sobre esta matéria, recomendo hoje um livro genial de Philip Roth que se aparenta bastante a uma peça de teatro (desculpem repetir o autor, não era minha intenção, mas vem muito a propósito). Intitula-se Engano (grosso modo, trata das conversas de um escritor adúltero) e é inteiramente construído com diálogos. Mas o melhor é que raras vezes nos dizem quem está a falar e, se estivermos atentos, não temos qualquer dificuldade em saber. O Extraordinário Guilherme Henriques vai gostar. A tradução é do também extraordinário Francisco Agarez.
"...os diálogos numa narrativa deverem dispensar explicações do narrador."
ResponderEliminarSe o narrador pretende exibir a cena sem sequer recorrer ao animatógrafo ou cinema, como é que a fala vai suprir essa omissão?
Imagine-se que num diálogo a mulher increpa o marido por chegar tarde e bêbado a casa. Como é que o narrador insere nesse diálogo o franzir das sobrancelhas e o abrir de braços da esposa em justa ira?
Imaginemos que esse bêbado responde:
"- Ai ele é isso? Pois vou já embora!...
E sai, batendo com a porta."
No entanto, o narrador pretende incluir dois outros pormenores, característicos dos ébrios nesse estado. E deixa no original:
"- Ai ele é isso? - Coça a cabeça e arrota. - Pois vou já embora!..."
Aquele intercalar no diálogo tem um gesto descrito e uma onomatopeia no "arroto", sendo que este último ainda pode ser reforçado por "ruidosamente".
Dirão em contraditório que o leitor poderá imaginar e preencher essas omissões ou, no caso exposto, colocar na narrativa ante ou depois do diálogo, essa acção - "Coça a cabeça e arrota, antes de proferir: - Ai ele é isso? Pois vou já embora!..."
ou "Seguidamente coçou a cabeça, arrotou e saiu batendo com a porta".
Desculpem esta forma de explicar a coisa. Talvez seja efeito da quarentena ou do temor que a senhora Marta Temido nos traz diariamente sobre o dito cujo vírus. O que eu quis reforçar é que o narrador, legitimamente no seu direito de ver a acção e o diálogo, quis mostrar que o marido coçou a cabeça e arrotou entre a interrogação e a afirmativa.
Se querem imitar o cinema, façam como eu fiz uma vez num original a pedido e em desafio da chefe de redacção da revista: escrevi um conto com um diálogo entre duas mulheres num café. O narrador (eu) não meti a colherada.
Bom, eu leitor, sou da opinião que o diálogo entre personagens fica bastante enriquecido com a descrição em paralelo das reacções ou emoções dos dialogantes. Não o fazer parece-me até errado... eu gosto de acompanhar a evolução da conversa, isto se o diálogo for bem construído e integrado na acção, coerente com ela, e não apenas para "encher chouriços"... o que por vezes acontece, mas isso diferencia ainda as boas obras das outras.
ResponderEliminarAcho que vão sendo muito interessantes estas conversas, a propósito daquilo de que gostamos: a leitura, a edição, a escrita... espero que continuemos nesta tónica, pois o tema estende-se, é rico e dá "pano para mangas"...
Saudações saudáveis e satisfeitas, cá da Cidade Morena!
Cada vez mais acho que a regra mata a excepção. Não havendo certezas na literatura, muito menos guias de excepcionalidade da escrita, pois estas não são as «Primeiro cinco páginas» de Noah Lukeman, guias para evitar que os nossos originais sejam rejeitados. Afinal a rejeição é um estado normal da vida, um gosto difuso dos outros; uma inevitabilidade que não se pode sobrepor à escrita temperada a emoção, libertária, espontânea; pelo menos com os primeiros fulgores da criatividade, como o «cavalo à solta sem temperança do Tordo».
ResponderEliminarÉ que tudo o que é demasiado temperado parece insonso, sem graça, repetitivo, um mau ou suficiente trabalho de casa. Muita da literatura actual parece estar assim: comatosa, boiando de ventre, deixando à mostra umbigos, num banho de formol. A liberdade da escrita constrói-se na experiência da própria escrita. No grito de alma, na poesia da palavra, no arrojo da mesma; e, uma escrita demasiado formal, formatada, demasiado pensada, com uma geometria ou uma aritmética de números racionais é a morte certa da espontaneidade do autor, é a ficção sempre suplantada pela realidade.
Neste seu sensato comentário está tudo dito, Pedro. Submeter, espartilhar, padronizar a arte literária (qualquer arte, aliás) é cercear o que ela tem de melhor: a diversidade.
EliminarDaí eu tirar o chapéu a esta sua visão livre e genuína e dar-lhe os parabéns pela oportuna intervenção neste "diálogo" em forma de caixa.
E somos dois!!!!
EliminarQue nos ouçam.
EliminarQue não vejam na intervenção de alguns, inimigos guerreiros ou Quixote's à solta.
Às vezes é preciso mudar, apostar noutras fórmulas, conteúdos, vivências, rasgos, fugir à banalização dos conteúdos, à quase burocratização dos formatos, não tendo medo de virar a página de um rame-rame que vai empobrecendo e dando aos bons leitores uma visão apenas de suficiência à literatura Portuguesa.
Abraço aos dois.
Não me levem a mal o desabafo, nem quero ser desmancha prazeres, mas ou eu sou afinal demasiado ignorante ou este blogue está a tornar-se uma chatice intelectualóide de todo o tamanho.
ResponderEliminarTalvez já seja demasiada areia prá minha caminheta e se calhar já serei eu que estareá aqui a mais...
Falemos de livros pois é disso que a gente gosta!
Assino por baixo, Seve, isto está a ficar uma seca.
EliminarJá nem venho aqui diariamente nem leio os comentários até ao fim.
E tenho pena...
Muito obrigado por este texto, Rosário. E também pela recomendação, que anotei.
ResponderEliminarUm abraço,
Guilherme Henriques
Estou inteiramente de acordo com o extraordinário Seve.Estamos aqui pelos livros e não para conversas demasiado intelectualoides.
ResponderEliminarMas, ó Severino, e não estamos a falar de livros????
ResponderEliminarParece-me que sim... eu , quando leio um romance, gosto de seguir a acção dos intervenientes no diálogo. Tu não? Ou gostas?
Não estamos a falar de livros? De leitura, nos seus detalhes?
Claro, aceita-se que o tema não te seduza, mas estamos a falar de leitura de livros, sim.
Enfim, penso eu de que...
Abraço!
Excelente post. Detalhes significativos constroem a integridade de um diálogo.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Muito bem dito! Concordo em absoluto.
EliminarÉ um livro extraordinário, este Deception, um dos mais elegantes e simultaneamente dos mais ousados do autor (não só formalmente, mas também na própria matéria dramática e no domínio com que manipula os twists metanarrativos). Para quem queira ler outras coisas neste registo (só diálogo), deixo estas sugestões: Maldición Eterna a Quien Lea Estas Paginas, de Manuel Puig (em castelhano, pois creio que só há tradução brasileira); Your Fathers, Where Are They? And Your Prophets, Do They Live Forever?, de Dave Eggers; ou ainda Checkpoint, de Nicholson Baker, cuja apresentação gráfica é muito semelhante a uma peça (creio que também não há tradução portuguesa). Apesar de todos partilharem grande mestria nos diálogos, o mais gratificante - para mim - continua a ser o de Philip Roth .
ResponderEliminarPaulo Lopes