Personagens

Enquanto não há assuntos melhores, vamos então falando das categorias que animam a ficção narrativa. Ontem comentava-se a necessidade ou «dispensabilidade» da intervenção do narrador nos diálogos, hoje falemos de personagens. Reparo com frequência que nos cursos de Escrita Criativa ensinam (e bem) que as personagens têm de ser bem recortadas, não podem ter apenas duas dimensões (o que acontece muito nos livros dos principiantes) e que o comportamento deve ser consistente com o que delas foi dito. E quase de certeza fazem exercícios de descrição de personagens, quiçá um pouco exaustivos, o que como exercício até está bem, mas nem sempre funciona numa história. Estou a ler, por exemplo, um romance inglês em que a narradora está permanentemente a dizer como estão vestidas as personagens com que se vai encontrando; e, mesmo que isso ajude a que as integremos em determinado meio ou classe social ou e diga algo essencial do seu carácter, a mim, pronto, irrita-me tanta descrição. Às vezes, enviam-me originais nos quais se vê bem que os autores não entenderam o que era construir personagens com densidade; esforçam-se tanto nas descrições das suas figuras que acabam a ser ridículos, acrescentando até o peso e a altura. Enfim, os actos e as atitudes são o que fazem as personagens acima de tudo; para mim, a descrição é apenas mais uma coisa, e nem sempre a mais importante.


Um romance que fez furor há uns anos, A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, tem uma deliciosa personagem, extremamente bem construída: Fermín Romero de Torres, um livreiro inesquecível. A tradução é de J. Teixeira de Aguilar.

Comentários

  1. Foi o único romance que li do autor, já há muito tempo, gostei bastante, salvo erro a acção decorre em Barcelona,

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  2. A Sombra do Vento e o querido Fermín Romero de Torres. Este é um livro que nos acompanha para sempre, com um sorriso de nostalgia.

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  3. António Luiz Pacheco14 de abril de 2020 às 01:19

    Estou a gostar muitíssimo de seguir esta série de posts, que digam o que disserem, são sobre literatura, escrita, os nossos bem-amados livros!

    Lembro-de de algures no curso geral do liceu, nas aulas de português, ter sido dada esta mesma matéria, e de eu ter gostado muito... lembro-me p.e. de analisarmos os personagens de "As pupilas do Senhor Reitor".

    Vou dizer um lugar comum, mas que nunca é demais repetir: nós leitores somos todos diferentes, nessa maravilha da mente humana que é a sua diversidade! Ainda bem, e, há autores e obras para todos!

    Eu, sou daqueles leitores que adoram descrições! De espaços, de lugares, de paisagens, e de personagens, pois claro!
    Gosto que me apresentem a personagem, que a descrevam exaustivamente, pois ela vai ficar comigo uns tempos, eu vou acompanhá-la e gosto de saber como é físicamente, oo que veste, como se move, se é contida ou gesticula, se é sorridente, corada, bochecchuda, ascética, glabra ou cabeluda... gosto de a sentir!
    Enfim, são gostos, e ajudam-me a gostar muito, pouco ou nada do que estou a ler, num todo.
    Certo que a construcção da personagem vai mais além, tem de ser psicológicamente composta, e tem de ser coerente. Mas até aí pode o autor conseguir criar e surpreender-nos ao descrever um indíduo boçal, mas que depois se revel afinal um ser humano excelente, e, não acontece o mesmo na vida real?

    Pela minha parte, sim às descrições! É isso que eu considero Literatura, faz parte e compõe o romance, para mim são indispensáveis!

    Aguardo as prezadas opinões e comentários Extraordinários!

    Saudações descritivamente largas, cá da Cidade Morena!

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  4. Há palavras que nos guiam, outras que nos inspiram, outras que nos fazem entrar numa his-tória... apenas contada. Mas nenhuma é capaz de realizar qual o seu caminho. O caminho do Homem é realmente insondável. Não será assim o da personagem?

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  5. Talvez por estar habituado à "linguagem mista" da banda desenhada, nos meus originais de ficção escrita não tenho a tendência exagerada de descrever as personagens, a não ser o essencial; e, fazendo-o, ocorre ao longo da narrativa. O desenho poupa muitas palavras - nem estas cabem nos exíguos espaços das vinhetas - pelo que a acção se desenrola com o essencial, principalmente nos diálogos e na expressividade dos rostos em cada situação.
    Num livro de ficção escrita, em vez de descrever determinado interveniente na narrativa que usa bigode ou barba "à passa-piolho", em determinada altura (até num diálogo) diria que ele passou os dedos por essa cabeluda superfície facial.
    Nos textos, meus e alheios, interessa-me ir descobrindo as personagens aos poucos e não receber um port-folio das suas figuras físicas e do vestuário, o que eu encontro, como muito bem já li algures aqui, para encher o texto.
    É evidente que esta é a minha apreciação, não rejeitando outras tendências livres, mas isto pesa na pontuação que dou a essas leituras alheias.
    O livro hoje sugerido, é uma das grandes obras de Carlos Zafón, até feliz no título atribuído a um alter ego do próprio, no nome que dá às coisas (como o "cemitério dos livros esquecidos", que constitui a saga, suponho que terminada com "O Labirinto dos Espíritos") e até os apelidos Sampere, que eu preferia ler como Sampaio.

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  6. Ao décimo livro publicado, com mais dez à espera de melhores dias, fico já com a impressão que questões como a construção dos diálogos, ou outros como as entrelinhas, os lugares-comuns, a focalização, o ritmo, a progressão ou a subtileza, que os teóricos de uma escrita mais anglo-saxónica tanto enfatizam, como se fossem plantas construtivas de fábricas mecanizadas, repetitivas, de “mono-produção” são aspectos apenas para preencher "currículos" de cursos de escrita, por terem ausente a verve e a dimensão da diversidade humana.
    E, que à medida que quem escreve apaixonadamente, avançando num trabalho diário que se arrasta de seis a oito horas diárias, manifesta já nada restar de mecanicista, de previamente construído, apenas um universo atractivo de combinações e palavras, um voluntarismo apaixonado sem formas ou regras, para além do mostrar mais do que contar, do semear mais do que do operar, numa envolvente de imagens e sonoridades que vão arrastando o preenchimento das folhas, agora transformadas em ecrãs.
    Talvez existam várias formas de ficção narrativa, talvez a aritmética dos números se transforme, como por encanto, e muito, muito trabalho de persuasão e ilustração, numa geometria variável das palavras, onde os personagens são apenas elementos secundários, tipologias que enformam mais do que formam. Talvez a poesia que as palavras encerram seja a fórmula de dar vida a figuras “jepetianas” sem vida, transformando-as paulatinamente em personagens verdadeiras. Talvez!, porque nada é a preto e branco.

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  7. Caros extraordinários bom dia a todos e um grande abraço, nestes tempos tão difíceis em que só aqui conseguimos sentir e absorver a liberdade (neste caso de dizer o que nos vem à cabeça e o que nos apetece dizer -sem medos nem calculismos...-)

    "A SOMBRA DO VENTO" - gostei muito, muito deste livro. Mas creio que irá ser um daqueles escritores de um só (grande) livro (ou estarei enganado?)

    Tenho ali para ler (comprei-o em 2008) "O JOGO DO ANJO", mas ainda não arranjei coragem para lhe pegar, tenho algumas dúvidas...

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    1. Caro Severino, tendo a concordar consigo quanto ao Zafón e sou menino para apostar que não vai gostar de "O jogo do anjo". Eu vendi todos os livros do autor que tinha a uma livraria que só vende livros em segunda mão, excepto... esse mesmo!

      Um abraço para si

      Rui Miguel Almeida

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    2. Se tiver oportunidade leia o Prisioneiro do Céu.
      Mais focado no Férmin, esse Guru dos personagens, com as devidas desculpas ao Jean Valjean, à Fantine, ao Conde de Monte Cristo e afins .
      Não me parece escritor de livro único, até porque tenho todos dele, até aqueles etiquetados ( mal ) de juvenis góticos. E que são de sobremaneira um prazer ler. Neles as personagens descrevem-se pela forma como vêem os acontecimentos.
      Um dos truques dos engenhosos escritores.
      Estes livros a que me refiro "A trilogia da névoa " foram o laboratório onde foi ensaiado a Sombra do Vento.

      Cumprimentos e boas leituras

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  8. Podia ter dito isto antes, talvez até em comentário de ontem. A todo o tempo posso dar minha opinião, tal como todos podem dar a sua. Fazê-lo no espaço de ontem, para além de o assunto ser pertinente, limitaria a escassez de leitura a um jornal já arrumado, estando a questão ainda à tona. Não ponho este comentário para levantar polémica, como se sacudisse um tapete com pó para a varanda da vizinha de baixo. Até espero que fique só por este comentário, que serve apenas para meditar.
    Relativamente a algumas rejeições ou repúdio por não se falar estritamente de livros, e ainda respeitando essas opiniões, quero deixar expresso isto:
    1º Suponho, como disse o sensato Pacheco, que não estamos a falar de outra coisa que não seja de livros;
    2º Presumo que interessa a autores e leitores as características da escrita, os seus meandros e formas;
    3º Afirmo que a MRP continua a mencionar um título por dia;
    4º Mais adianto que não se restringem os comentadores a falar estritamente do assunto exposto;
    Finalmente
    5º Quem gosta de literatura e do mundo dos livros, tem curiosidade por saber mais, conhecer os meandros da escrita, as tendências editoriais, a crítica construtiva, quiçá a feitura, circulação e venda da matéria em apreço.
    Não vejam os críticos - repito, que respeito - qualquer ataque pessoal às suas posições já manifestadas, antes a minha forma de esclarecer (e não defender) a escolha que a anfitriã, como lhe é legítimo, vem a fazer, no meu entender, muito bem.
    Insisto neste pensamento, pois verifico que vêm até este blog pessoas que sinceramente são excelentes leitores e muito bons comentadores, que costumo ler no geral. Há que contentar a todos e há em todos aqueles que se contentam com tudo (como é o meu caso, neste particular), principalmente no tocante a livros e à sua escrita. Falar só de obras escritas, apontar títulos e autores sem interrupção, é reduzir a amplitude de um blog com esta categoria e temo que, se não fosse assim, lá teríamos que empregar o provérbio - "muita cera, queima a igreja".

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    1. Sem dúvida, Fernando Costa.
      Tal como o Fernando e muitos "extraordinários leitores" sou também autor. O ser autor não me diminui nem exime na minha capacidade de juízo, intervenção e acima de tudo liberdade com responsabilidade. Alguns fazem-no. Sei até que muitos são aconselhados, até, a não participarem no espaço público para, eventualmente, não macularem a sua imagem... de excepcionalidade?!, numa atitude com alguma arrogância, promovendo a distância, querendo mostrar?! serem ou estarem em outro patamar e dimensão.
      Como se os autores - cidadãos comuns apenas com comichão nos dedos - devessem viver num pedestal de onde só raramente devem sair.
      Conheço razoavelmente a realidade do livro, da edição e do mercado livreiro.O livro, interessa-me, a edição também, o mercado menos, pois por formação de raiz acredito que mais do que comerciantes devemos ser mercadores de afectos e de equilíbrios.
      O livro, sim, vejo-o como uma forma de intervenção. Uma pedagogia da nossa própria consciência para entregarmos aos vindouros um mundo melhor.
      Quem vê nesta intervenção ataques ou afrontas pessoais, está muito enganado.
      E vive num mundo que não sendo nunca o meu, não merece mais do que o meu respeito mitigado, condicionado à nossa condição de imperfeitos.

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    2. Para concluir: somos realmente "Personagens" de um enorme enredo que é a vida!

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    3. António Luiz Pacheco14 de abril de 2020 às 05:43

      Somos, somos... pois somos, e, até cada "cromo"!
      Ahahah!

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    4. Quanto aos ícones da escrita portuguesa, que se reservam de comunicarem em espaços como este, apesar de essa forma de privacidade poder ser uma defesa, também pode ser consequência da arrogância própria dos ídolos. Não acredito que o façam com medo de transmissão do vírus, obviamente o da ignorância. Talvez haja alguma pontinha de arrogância o facto de se verem regressados à Terra e conviver com os terráqueos. É lá com eles, dó lhes desejo que tratem bem do "ego", alimentem-no e não deixem morrer o coitado à fome e à indigência.
      Leão Tolstoi considerava que o principal sistema da arrogância residia no facto de a pessoa se considerar perfeita. Ora, perfeito de nome, só conheci os funcionários do colégio da Via Sacra (em Viseu) onde estudei no secundário.

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    5. Não quis dizer "dó lhes desejo" mas "só lhes desejo". Sempre me ensinaram, que antes da publicação há a revisão, mas não tenho emenda.

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    6. Pois eu conheci o reitor do Liceu Nacional da Guarda, onde fiz os exames do 2º e 5º anos, que se chamava Bonito Perfeito!

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    7. Cromos há muitos, António, parafraseando o Vasco Santana! Mas que sejam benignos. Eheheheh!

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    8. Também fiz o exame do 2º ano no Liceu da Guarda, uma vez que frequentei dois anos o colégio de Nossa Senhora da Conceição (S. Romão), onde também estudou o actual bispo de Viseu. Não me lembrei deste apelido de um homem que se aproximou muito da perfeição, se não a alcançou no seu mester. Era um linguista de renome, foi professor de Latim e Grego (que eu não frequentei aí, uma vez que andei feito salta-pocinhas daqui para ali), colaborou em dicionários da Língua. Abílio Alves Bonito Perfeito concedeu uma bolsa de estudos a minha mulher e deixou saudades. Faleceu em 2009.
      Obrigado lhe fico por mo ter recordado.

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  9. António Luiz Pacheco14 de abril de 2020 às 05:42

    E siga a marinha! Como se diz... isto é, vai boa a conversa, em minha opinião!

    Já agora, e para que percebam melhor a minha postura de leitor, que assumidamente gosta de ler longas e demoradas, minuciosas descrições, devo dizer que estou neste preciso momento a ler um livro daqueles Extraordinários que é parco em descrições dos personagens, é um relato na primeira pessoa da vida de um "jagunço" - Grande sertão- veredas. Um dos bons livros que já li! O oposto de por exemplo "Uma conspiração de estúpidos", outros dos muito bons livros que já li, ou seja posso gostar mais de ler descrições, mas isso não me impede de apreciar e saborear um livro que não seja tão descritivo. O abrir da Conspiração de estúpidos, para mim, com a descrição minuciosa do personagem principal, é de antologia!!!! Ainda por cima, parece que estava a ser retratado um velho amigo meu... ahahahah!

    Não sei se por ser muito observador, isso influi nesta minha tendência de leitor... eu falo com uma pessoa, ou cruzo-me com ela, ou partilho um espaço... e sou dos que lhe analisa tudo ao pormenor, como se senta, que gestos faz, como pega no copo, como se apresenta, o que veste, etc. É uma mania... mas detenho-me sobretudo nos que tenham alguma característica que os faça sobressair, que pode ser até a pose, a atitude...

    Uma vez, fiz numa espera aeroportuária prolongada, uma caracterização e descrição dos tipos que se encontram num aeroporto... foi um sucesso entre a malta amiga, na empresa, etc. É um passatempo meu, ficam a saber!

    Saudações observadoras cá da Cidade Morena!

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    1. É de autor, António, ou de investigador da PJ! ehhehhe!

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    2. Ó Paxeco, eras capaz de gostar de ler (se ainda não leste) cinquenta das melhores e mais representativas personagens da Literatura Portuguesa dos últimos dois séculos.
      É o "Guia para 50 personagens da ficção portuguesa" de Bruno Vieira Amaral.

      Uma viagem literária compreendida entre 1846 — "Viagens na Minha Terra" de Almeida Garrett — e 2011 "O Retorno" de Dulce Maria Cardoso. Deparamos com fascinantes personagens, como, por exemplo, o viúvo do romance "O Viúvo" de Fernando Dacosta, a Juliana de "O Primo Basílio", o Professor de "A Amante Holandesa" de J. Rentes de Carvalho.

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    3. Ó Paxeco, não cheguei a perceber se gostaste, ou não, de "Uma Conspiração de Estúpidos"? É que tenho esse livro (em fila de espera) há tantos anos.

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    4. António Luiz Pacheco14 de abril de 2020 às 09:17

      GOSTEI! Muitíssimo!!!!!

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    5. António Luiz Pacheco14 de abril de 2020 às 09:22

      Acho que sim... tenho idéia de ter lido algo assim! Pode parecer estúpido ou pretencioso, mas por vezes já não sei se li-mesmo ou li sobre ...
      Quanto às "Viagens na minha terra", claro que li, até por obrigação uma vez que era curricular no liceu! Mas gostei, gostei sim e já reli depois disso!

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  10. Bom, me surgi mencionar à respeito do tema 'personagens' uma máxima razoável "farinha pouca, meu pirão primeiro". Cada qual defende o seu caracterizando-o ou não, com brilhantismo e perfeição. Dito isto, sabe-se que mesmo, sem mazelas nada o garante por prémio.
    Por exemplo reconhecer em minha experiência de leitora o enfeite de muitos personagens faz conhecer melhor a realidade adversa do mundo e se lhe permeia sob diferentes dinâmicas; se na ficção Aldous fez do Admirável Mundo e temos algo de pensar, por Hemingway converter o propósito de Santiago, exemplo mediatico na memória. Entre tantos, vale lembrar Alende, e sua casa do improvável, histórica e enfeitada com personagens singulares.
    De modo geral escrever é um ato humano e ler, transformador.
    Cláudia da Silva Tomazi

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    1. António Luiz Pacheco14 de abril de 2020 às 07:11

      Bonito o que dizes, sim, Cláudia!

      E, na verdade, os personagens acabam por ficar nossos amigos, ou não é?
      Vem-me à memória o poema duma canção que fala disso, a propósito do imortal romance de Jorge Amado... https://www.youtube.com/watch?v=tr-HCaIrPYo

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  11. Só agora me lembrei e não posso deixar de o confessar.
    Afinal eu vi, repito eu vi, a grande queda que um apanhador de peras deu de cima de uma pereira, na "Batalha Incerta" do John Steinbeck.
    E também vi, repito vi, um cágado a subir um passeio em "A leste do paraíso", também do John Steinbeck.

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    1. António Luiz Pacheco14 de abril de 2020 às 12:08

      Um mestre nos personagens... Steinbeck!!!!

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  12. Ler a descrição de uma sala de estar feita minuciosamente por Eça é um pedaço de arte que nunca mais esqueço. O mesmo faz hoje um mestre de cinema com a sua câmara.
    Mas depois da máquina fotográfica, da máquina de filmar, do vídeo haverá lugar a uma descrição "à Eça"?
    Pintar uma paisagem "igualzinha à que estamos a ver" também produziu grandes obras de pintura naturalista mas depois da máquina fotográfica foi uma forma artística que praticamente se perdeu.
    Quanto ao recorte das personagens é fundamental para que as sintamos seres vivos como nós ou como outros possíveis. E não precisam de ser verosímeis, como as da obra-prima "O Vermelho e o Preto", por exemplo. Quando li "Estrela Polar" ainda era jovem e, porque achei que as personagens apenas cumpriam um programa estabelecido pelo autor, quais títeres, demorei muitos anos a voltar a Vergílio Ferreira. Gostei imenso dos quatro volumes da autobiografia de Simone de Beauvoir mas quando peguei pela 1.ª vez num romance seu, desiludiu-me. Pelas mesmas razões, pareceram-me personagens-títeres.

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    1. António Luiz Pacheco14 de abril de 2020 às 12:13

      Interessante reflexão... a máquina fotográfica matará as outras?
      Mas, também digo - aliás a meu respeito, pois me apresento como sendo um mentiroso, o que os meus amigos percebem, pois gosto de contar histórias de caça e pesca - que contar uma história, sobretudo com os seus detalhes, como gosto, é como pintar um quadro! Não é por acaso que se diz "pintar" quando se conta uma mentira, ou chama "pintor" a um mentiroso.
      E vejamos, um pintor pode embelezar o quadro, à sua vontade... porque é que quem conta uma história não pode igualmente "pintá-la", embelezá-la?

      Amemos os Livros, sem dúvida! Grande abraço!

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  13. António Luiz Pacheco14 de abril de 2020 às 13:32

    Eia... passámos dos trinta, hoje!!!!
    Boa!

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  14. Li “A sombra do vento”há vários anos e na altura gostei.Posteriormente li outros livros do mesmo autor(“O jogo do anjo”,”O labirinto dos espíritos”,”Marina”)que se revelaram imitações pobres e mal conseguidas e que fizeram cair o autor por terra.Quando se alcança um grande sucesso é certamente difícil mantê-lo.
    Quanto ao post de hoje e aos anteriores sobre o mesmo tema,tenho aprendido muito e ajudam-me a ler mais e melhor.Obg MRP.
    No entanto os comentários parece-me que se estão a tornar um pouco catarticos.

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  15. Nós somos muito curiosos.

    De tantas coisas interessantes ditas sobre personagens (e livros, muitas sugestões...), a única coisa que me apeteceu foi parodiar o dr. Abílio, que não lhe chegou ser bonito, ainda teve de ser perfeito.

    Ou então de dizer ao "anónimo" que catartico é o tio dele. :)

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  16. Se a alguém parece que os comentários estão a ser um pouco catárticos (com acento agudo), é porque lhe parece que houve necessidade de purgante para limpar não sei o quê. No que toca ao papel de livros, não sei o que lhe vale a catarse; se for de outro papel, não me parece que abunde papel higiénico para a necessária higiene.
    Enfim!...

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