Pequenas coisas

Geralmente, irritamo-nos por pequenas coisas, não por grandes: quando, por exemplo, nos alteram os planos de repente, ficamos fora de nós (eu, pelo menos, que gosto de planear tudo ao milímetro, fico). As pequenas coisas acabam por ter no nosso humor um peso maior do que as grandes; e é sobre as pequenas coisas que hoje vos falo, tendo como ponto de partida um convite que a Almedina fez ao escritor e historiador Sérgio Luís de Carvalho, que já foi (ou ainda é, não sei) director do Museu do Pão em Seia. Pois bem, ele foi encarregado de realizar um conjunto de pequenos videogramas de cerca de três minutos sobre curiosidades, bizarrias, factos estranhos e outras coisas igualmente pícaras da História de Portugal, com o título genérico História das Pequenas Coisas. Os primeiros episódios já estão online e deixo-vos abaixo o link do primeiro, que se intitula «Porque é que a famosa gripe espanhola não é espanhola?». Porém, se quer saber coisas sobre a origem histórica do termo «filho da mãe» ou sobre quem teve o primeiro acidente de carro em Portugal, aqui tem com que se entreter. E pode consultar o site da Almedina e procurar em «Observatório Almedina» para ver os outros episódios que vão sendo publicados. Há que passar bem o tempo, e de preferência a aprender, claro.


 https://www.youtube.com/watch?v=4TU5o_65jdA&t=52s 


Hoje recomendo Os Interessantes, de Meg Wolitzer, um dos livros grandes e dos grandes livros de que mais gostei nos últimos anos. Sobre a diferença de classes na última metade do século XX, com um grupo de adolescentes crescendo numa América em mudança.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco2 de abril de 2020 às 02:31

    De facto a vida é feita de pequenos nadas... e estes pequenos nadas podem ser muito irritantes!
    Quem se irrite, stresse, enfureça, iniba, bloqueie... etc. , por grandes ou pequenos nadas, não venha para África, tal como eu via acontecer aos meus colegas belgas ou holandeses do Grupo UNIVEG em Portugal!
    Talvez por ter tido a experiência de um grupo multinacional, de raíz belga, espalhado por Portugal, Holanda, Espanha, Uruguay, África do Sul , e , sentido na pele o que é ser "o preto da Europa" me tenha dado a capacidade de por aqui andar e me entrosar, perceber.
    Mas pode ser difícil... hoje foi uma manhã de luta (conseguida, pela tenacidade, persistência e humor, desenrascanço e capacidade de lidar com as pessoas, bem à portuguesa) na Administração Municipal de Benguela, para ter as credenciais (salvo-conduto) que nos permita circular no nosso trabalho de apoio às estructuras económicas vitais. Ontem foi na Administração da Baía Farta, simples, umas risadas e está feito... aqui em Benguela, coisa mais sofisticada e urbanita... foi o cabo dos trabalhos, começou ontem e terminou (bem) só hoje de manhã!
    Cabo dos trabalhos? De onde virá a expressão, vou tentar saber se vem no tal link!

    Saúde e muita paciência, cá da Cidade Morena!

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    1. Ó Pacheco, esta expressão não a tenho no cardápio das explicações mas parece-me que se encontra evidente num facto histórico.
      A expressão tem o significado de trabalhos difícies ou realizações com grandes dificuldades, aquilo a que os portugueses costumam chamar uma "enrascada".
      Para além da palavra cabo, que pode ter conotação com o cabo da enxada ou de outros instrumentos agrícolas "do duro", parece-me que se suporta no Cabo das Tormentas, muito bem ilustrado em "Os Lusíadas". Ora, passando aquela dificuldade, pode-se dizer que os navegantes passaram "o Cabo" dos trabalhos.
      Sem outra explicação mais plausível, aqui deixo esta.

      Cumprimentos e um grande abraço virtual desde o Planalto, onde também se passa o cabo dos trabalhos durante esta quarentana.

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    2. António Luiz Pacheco2 de abril de 2020 às 09:26

      Sim, creio que deve ser esse o sentido... Cabo dos Trabalhos é como passar o das Tormentas! São as tais frases idiomáticas, não é? Todas as culturas ou povos as terão.

      Abraço cá do Platô Costeiro!

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  2. No âmbito das aulas de História que graciosamente ministro na universidade sénior, criei uma rubrica sobre curiosidades históricas e de expressões. É um tema muito interessante, que geralmente desperta a curiosidade o interesse. Aqui reproduzo e sintetizo, de um manancial enorme, cinco delas:
    "Onde Judas perdeu as botas"
    Diz-se do sítio longínquo e desconhecido, tendo como base a crença de que Judas escondeu os 30 dinheiros num par de botas, que nunca foi encontrado.
    "Jurar a pés juntos"
    Significa jura sincera. Provém dos tempos da Inquisição quando aos detidos se amarravam mãos e pés para jurarem e confessarem.
    "Maria vai com as outras"
    Diz-se quando alguém se deixa convencer com facilidade. Quando D. Maria I enlouqueceu, foi internada e só saía acompanhada por outras mu-lheres. O povo então dizia: “Lá vai D. Maria com as outras”.
    "Com o rei na barriga"
    Diz-se quando alguém se acha com muita importância. A expressão remonta ao tempo em que as rainhas estavam grávidas de importantes príncipes e futuros reis.
    "Estar no Trinque"
    Diz-se quando alguém se apresenta bem vestido. Ora, o trinque é o nome do cabide em que os alfaiates colocam as roupas feitas.




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  3. Graça Reis é a actual directora-geral do Museu do Pão. Luís da Silva Carvalho é Director Científico do Museu do Pão, suponho até que reside em Sintra.

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    1. Não é Silva, mas Sérgio Luís de Carvalho, mantendo a restante informação.
      A quarentena está a afectar-me...

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  4. Falando de pequenas grandes coisas, hoje comemora-se o dia internacional do livro infantil, género, invariavelmente, subestimado e que, responsabilidade do meu pequeno, cada vez mais sigo com interesse e grande admiração, muito devido à enorme qualidade de alguns trabalhos editados em Portugal.
    Relativamente à sugestão de leitura, fiquei realmente curioso, espero que a tradução faça justiça à aparente grande qualidade do livro.

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    1. A tradução, muito boa, é de Raquel Dutra Lopes. Obrigada por me lembrar.

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    2. De nada, Já agora, ainda no âmbito da comemoração do dia internacional do livro infantil, permita-me que sugira a leitura de "O Livro da Selva" de Rudyard Kipling, Prémio Nobel da Literatura em 1907 - primeiro prémio Nobel atribuído a um autor em língua inglesa. A tradução é do Júlio Henriques.

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  5. António Luiz Pacheco2 de abril de 2020 às 09:27

    Fui agora dar uma espreitadela ao link sugerido, e achei muito interessante!
    Boa sugestão!

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  6. Gosto de história. Das pequenas e grandes, tantas outras coisas, que às envolvem.
    Cláudia da Silva Tomazi

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  7. Continuo a escrever sobre as pequenas coisas ao som dos dias:

    Um outro Lugar para a Esperança.

    18/3

    O olhar constrói o rumor do mundo,
    pouco importa se subimos ou descemos
    os caminhos, vem de longe o olhar,
    tem origem na esperança do futuro.
    As mãos seguram arcos de aliança,
    iluminam rostos e imagens insólitas,
    olhamos o céu e pensamos em voar.

    19/3

    Um poema sem título, na infância
    uma criança perdida na claridade.
    Vem de longe o rumor do mar, havia
    uma praia e vento a virar páginas,
    havia calma no viver, havia calor
    talvez de março, havia liberdade.
    Um dia a criança desenhará um barco.

    21/3

    A cada respirar cresce a escuridão,
    traduzes o silêncio das estrelas
    incrustadas na noite, a sombra
    das mãos que prendeste aos dias.
    O sol nasce com destino marcado,
    e palavras vizinhas da distância
    sobrevêm à música do tédio.
    23/3

    O poema, coração roubado ao peito,
    uma árvore que das raízes arvora
    a resistência que há dentro de nós.
    O poema, mais forte do que as armas,
    na sua imperdível confiança .
    O poema, a vontade de não ceder
    à densa solidão de cada palavra.

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