Clima de guerra

Nas vésperas de ser imposto o confinamento, os Portugueses já andavam transidos de medo e aconteceram duas coisas: no fim de semana de 14-15 de Março, as ruas ficaram vazias, como em Agosto, e os supermercados foram «assaltados», ficando com muitas prateleiras vazias. Lembro-me de que, quando precisei de legumes para a sopa dois dias depois, os stocks ainda não tinham sido repostos e senti-me em verdadeiro clima de guerra. Mas, embora o vírus seja muito difícil de conter e combater, embora seja um inimigo desconhecido e dissimulado, a verdade é que a situação dos fornecimentos de géneros alimentares se normalizou rapidamente depois desse primeiro susto, enquanto durante as duas maiores guerras que assolaram a Europa isso não aconteceu, e a fome grassou por todo o lado (mesmo em Portugal, que não entrou na Segunda Guerra Mundial, houve racionamento). A LeYa fez uma campanha para mostrar que já houve tempos bem piores do que os que atravessamos, só com livros sobre as duas Guerras Mundiais, e pode encontrar entre eles ficções dos geniais Primo Levi, Italo Calvin ou Gunther Grass, mas também biografias de Hitler ou Leni Riefenstahl, ou mesmo livros para jovens e crianças como O Rapaz do Pijama às Riscas ou O País das Laranjas, bem como obras de autores portugueses que tive o gosto de publicar: Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho, ou Os Olhos de Tirésias, de Cristina Drios. Vão lá espreitar, que vale muito a pena, pois há grandes descontos em livros de fundo e títulos para todos os gostos. Até 10 de Maio.


https://www.leyaonline.com/pt/promocoes/grandes-guerras-ate-50-desconto/


Amanhã é feriado,volto segunda. Vou então recomendar, a propósito desta campanha, O Sistema Periódico, de Primo Levi, que eu própria traduzi com 29 anos; uma autobiografia literária que parte de elementos químicos para nos falar de uma vida muito rica e acidentada, que também passou por Auschwitz. Bom fim-de-semana.


 


 

Comentários

  1. António Luiz Pacheco30 de abril de 2020 às 02:09

    A biografia de Hitler, será interessante... há no Canal História muitos e interessantes programas sobre a temática Nazi e o próprio Hitler e seus asseclas.
    Apesar da carga negativa, até hedionda de que se revestiu e deu provas, há detalhes interessantes no Hitler, como a sua formação a partir da Teosofia.
    Não sou fã, mas interessam-me sobretudo as biografias!
    Já da Leni Riefensthal sou fã, e com ela partilho o fascínio por África. Tenho livros de fotos dela, sobre África, que são verdadeiras obras de arte... não sei se o fascínio dela por África terá começado com o Jesse Owens? Talvez a sua biografia o revele e há de ser uma biografia muitíssimo interessante! Esta vou procurar de certeza!

    Comparar a situação a estado de guerra, é exagero e creio que desajustado.
    Vivi guerra, eu, enfim ligeiramente, mas tenho dela uma imagem qb. pois estive períodos em Angola, durante a guerra. Tenho algumas memórias, boas e más que nem por isso recordo, estão postas de lado!
    Esta situação, ainda falta saber se é mesmo uma situação ou se foi montada, por políticos e por interesses sabe-se lá quais, mas não é de todo "guerra" e nem comparável! Mas, o que eu temo é que possa conduzir a guerras, também no nosso país... pois temo que disto tudo nasçam revoltas e as tais "guerras" sobretudo pela inconsciência, irresponsabilidade e insensibilidade dos políticos que se acham impunes. Vamos ver...

    Saudações cá do estado de emergência na Cidade Morena, quando já anseio pela imergência...

    Uma nota Extraordinária: Acabo de ter uma reunião tripartida pelo zoom, com o meu patrão em Luanda, e dois israelitas, todos em confinamento caseiro! Com tanta maravilha desta tecnologia Extarordinária, pode acreditar-se nos catastrofismos que nos contam sobre o vírus e o medo que tentam inocular-nos? Aqui morre-se diáriamente de tifo e de malária, na zona fronteirça do Congo ainda por lá anda o ébola, a matar gente...

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  2. Bom dia. Fui espreitar e fiquei curioso com um dos títulos, devido à temática: " O rei do Volfrâmio" de Miguel Miranda- Algum dos extraordinários tem referências do livro ou do autor? Bom fim de semana a todos.

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    1. Não li o livro, mas o autor hoje escreve bem, ultimamente publica sobretudo policiais. Conheço-o pessoalmente de festivais e encontros: é do Norte e é médico e deve estar agora na linha da frente, merece de certeza que leia o livro.

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    2. Obrigado pelo feedback. Ser médico pode ser prenúncio de qualidade: António Lobo Antunes, Fernando Namora e Miguel Torga - para só falar dos mais mediáticos, confirmam essa cumplicidade entre a medicina e a literatura.

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  3. Não vou fazer comentário ao post de hoje.
    Apenas queria perguntar a nossa anfitriã porque raio de ideia e que os lisboetas tem a mania de dizer que os naturais do Porto,ou que vao ao Porto,ou que vivem no Porto "são do Norte"?Nunca vi ou ouvi os naturais do Algarve serem tratados como "do Sul"ou os de Coimbra "do Centro".Gostaria de ser esclarecida.

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    1. É que eu não sei se ele é mesmo do Porto... Mora em Gaia, mas pode ser de Ovar, Famalicão, Porto, etc. Daí o Norte. O meu marido é do Porto, se isso a tranquiliza.

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  4. Muitas pessoas do Porto e da Área Metropolitana do Porto designam-se a si mesmas "do Norte". Havia uma rábula numa série de humor de Herman José na qual um adjunto do engenheiro (caricaturas de figuras do Porto) denunciava um indivíduo com a frase "este homem não é do Norte, este homem não é do Norte".
    Penso que há nisto uma afirmação de gentes do Porto em serem representantes "do Norte", sendo o Porto a "capital do Norte". Os de Braga e imediações não gostam disso, colocam-se fora dessa conotação. Quanto aos de Trás-os-Montes não sei.

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    1. Os de Trás-os-Montes são completamente imunes a questiúnculas deste tipo, não têm uma ligação especial à cidade do Porto. Já D. Afonso Henriques se via aflito para os segurar, divididos na sua fidelidade entre Portugal e Leão.
      "Para lá do Marão, mandam os que lá estão".

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    2. Gostei de a ler. E pelo que interpreto, até na imprensa, o Porto não quer ser capital de nada, mas tão só ver reconhecidas pelo centralismo as necessidades e a qualidade do que produz. Para ajudar a economia da sua região.
      Eu sou do Centro - que baila conforme a música. Concordo com o que diz dos trasmontanos. Mas o que eu gostava de saber era na sua opinião porque os galegos dividiram a lealdade mais para Leão do que para Portucale. Há algum motivo na História para isso? O Afonso Henriques bem tentou, tomou lá uns castelos, abriu a porta aos fidalgos de lá, mas a grande maioria no fim não se mexeu. Porque será?

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    3. Isso dava pano para mangas. Mas, muito resumidamente e num tom humorístico: D. Teresa, tão maltratada pela nossa História, tinha uma visão: tornar-se rainha da Galiza, unindo-a a Portucale. Os barões portucalenses não gostaram nada da brincadeira, puseram o filho contra ela, reduziram-na a uma viúva adúltera e correram com os galegos. Porque é que eles, depois, haveriam de ir na cantiga de Afonso Henriques?

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    4. P.S. Desculpe, saiu anónimo, tinha-me esquecido que terminara a sessão no Sapo.

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    5. Sim evidente. Obrigado.
      Descortina-se aí um contrassenso na obra tão bem feita como a independência portucalense e o posterior espaço vital.
      Mas também os castelhanos ainda hoje vêem a chegada do borgonhês D. Henrique como uma interferência francesa na Península. E assim D. Teresa de Leão poderia ter uma agenda secreta com Leão e deitar tudo a perder por parte dos condes portucalenses, fartos de reverenciar Castela e quererem à sua maneira o processo. Obrigado.

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    6. Caro Márito Torres, como eu disse, o assunto dava pano para mangas e eu limitei-me a uma das muitas abordagens. Mas vou referir outro aspeto muito importante:

      À altura em que D. Afonso Henriques se tornou líder do condado Portucalense, com cerca de 20 anos, a Galiza já era um reino. Assim sendo, os galegos nunca aceitariam a sua inclusão em Portucale, daí, D. Teresa sempre ter planeado tornar-se rainha da Galiza e não de Portucale. Teria sido essa também a ideia inicial do filho? Bem possível. As suas incursões galegas começaram pouco tempo depois da Batalha de São Mamede, nos primeiros anos da década de 1130. Ora, ele só começaria a agir como rei de Portugal, depois de Ourique, em 1139, tendo falhado a sua tentativa de conquista da Galiza.

      Durante muitos anos, a nossa Historiografia difundiu uma imagem de D. Afonso Henriques como sendo uma personagem quase sobrenatural, uma espécie de Messias destinado por Deus a fundar o reino português e, por isso, obrigado a combater a mãe, que se aliara aos galegos por influência do seu amante. D. Afonso Henriques teria, portanto, agido, a fim de estabelecer uma qualquer ordem divina. Porém, as circunstâncias que levaram à formação do reino português são explicadas pela dinâmica da Reconquista, um quadro político específico, uma complicada teia de interesses e intrigas, num mundo feudal (não é, por isso, de admirar que D. Afonso Henriques tenha conseguido atrair alguns nobres galegos para o seu lado). Tudo isto não tira, como é evidente, prestígio ao grande homem que foi D. Afonso Henriques, fundador de uma nação, obra para a qual teve de lutar contra muitas adversidades, vindas tanto do mundo muçulmano, como do cristão (restantes reinos ibéricos).

      De nada, foi com muito gosto. Adoro falar sobre este tema. Por isso, eu é que lhe agradeço.

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    7. P.S. Não penso que D. Teresa tivesse uma agenda secreta com Leão, pois ela tanto lutou contra a sua meia-irmã, rainha de Leão e Castela, a fim de dividir a herança do pai, D. Afonso VI. D. Teresa considerava que tinha direito a parte da herança (Galiza e Portucale); D. Urraca, como única filha legítima, considerava-se a única herdeira.
      D. Teresa nunca prestou vassalagem à irmã, nem ao sobrinho. D. Afonso Henriques, no fundo, seguiu os passos de sua mãe.

      Esta discussão nunca mais acabava...
      Saudações portucalenses

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  5. O tom pode ser humorístico mas parece-me junto da verdade.
    Os Senhores da Maia e os do Vale do Douro queriam assenhorear mais território e D. Teresa com os Senhores da Galiza era um obstáculo. Aliciaram o jovem Afonso Henriques, que era um génio militar ainda não revelado, e em conjunto tiveram sucesso em campo de batalha. Mas D. Teresa retirou-se e a Galiza passou a ser uma miragem.
    Logo de seguida um dos Senhores da Maia foi nomeado Arcebispo de Braga e outro destacado para a fronteira do Condado que se situava em Coimbra, sendo removido o conde galego a quem D. Teresa tinha confiado a função.
    Numa especulação contrafactual, podemos defender que o sucesso da transformação de um condado em reino como fez Afonso Henriques teria sido suplantado por um Portugal que começava no Golfo da Biscaia e terminava no Atlântico próximo do Estreito de Gibraltar?

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    1. Caro amalivros, só agora vi este seu comentário. Talvez lhe interesse as respostas que dei acima, ao comentador Márito Torres.

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  6. Sim, certo, percebi. As remoções mostram fortes dissensões internas. Porque há nas primeiras crónicas a frustração portuguesa pela falta da Galiza, havia essa ideia - é só uma constatação -, basta ler a biografia do nosso primeiro rei do Diogo Freitas do Amaral. E damos conta ainda que muitas famílias portuguesas nascem das ligações galegas. Essas transações além-Minho decaem tragicamente, a nível da fidalguia, nos dois últimos reinados da primeira dinastia (Inês de Castro, Conde de Andeiro e mais...).

    O sucesso teria de ser só um primeiramente: a independência, um reino. A Península era terra de Cruzada, as fronteiras teriam de alargar-se, o corpo de Afonso ficou em Coimbra.

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    1. D. Afonso Henriques viveu mais de 50 anos em Coimbra. Mesmo que tivesse vivido toda a primeira parte da sua vida em Guimarães (o que não aconteceu), teriam sido apenas cerca de 20 anos.

      Talvez seja do seu interesse, se me permite:
      https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/dois-reis-medievais-e-suas-cidades-11251092

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