Reflectir sobre a escrita

Houve em todas as épocas vários autores consagrados que leram poemas e ficções originais de aspirantes a escritores. E é célebre aquele veredicto de Diderot em relação aos textos de um jovem poeta (vou dizer de memória): «Não só os seus poemas não são bons como mostram que nunca conseguirá fazer melhores.» Mais generosos foram, porém, escritores que partilharam em livro as questões que se lhes levantaram ao escrever ou que tentaram até certo ponto criar manuais de ajuda para autores mais jovens. Entre eles está desde logo o maravilhoso Escrever, de Stephen King (quem diria que um autor de livros de terror pensava tão bem as coisas?), Carta a Um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke, ou mesmo Cartas a Um Jovem Escritor, de Mario Vargas Llosa. Mas o The Guardian traz um artigo interessante sobre livros dessa temática (alguns não conheço) que partilho hoje convosco. Há muito por onde escolher.


https://www.theguardian.com/books/2020/apr/17/stephen-king-anne-lamott-10-books-how-to-write?utm_term=RWRpdG9yaWFsX0Jvb2ttYXJrcy0yMDA0MTk%3D&utm_source=esp&utm_medium=Email&CMP=bookmarks_email&utm_campaign=Bookmarks


Já que falei de Vargas Llosa, leiam o romance autobiográfico A Tia Julia e o Escrevedor, que é a minha recomendação de hoje.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco21 de abril de 2020 às 01:43

    Escritores a dizer bem de escritores... deve ser tão ou mais difícil do que ouvir um cozinheiro a dizer bem de algo confeccionado por outrem!
    Posso estar enganado, claro, mas do pouco que conheço aos escritores alinhados e consagrados, celebrados, afamados e outras coisas terminadas em ados ou entos ou idos, etc. não lhes pediria opinião sobre alguma escrevinhação minha, porque demasiado ensimesmados e até limitados pela sua própria escrita.
    Vou certamente ser contestado pelo que disse, mas é a experiêcia que tenho, e faz sentido no resto, pensem lá um pouco... acompanhei 3 gerações de grandes pescadores submarinos, em competição ao mais alto nível... só a um ouvi dizer bem dos mais novos, porque os consagrados, os veteranos apontavam sempre defeitos aos que se destacavam na geração seguinte. Podemos extrapolar isso para todas as actividades, físicas, intelectuais, artísticas, profissionais... estarei errado? Quantos catedráticos não desprezam e até boicotam os seus alunos mais brilhantes?
    Notem que não se trata de dizer: "Eu não sou assim ! Eu não faço isso... etc". Podem ser a excepção ou podem estar cegos, porque e tónica e a ordem natural das coisas, é essa!

    A propósito, e para desopilar, vou contar uma história ouvida ao meu avô Abreu que foi contemporâneo e amigo do poeta Afonso Lopes Vieira.
    Apresentaram ao vate, numa reunião social, uma jovem promessa na poesia, aliás muito louvada pelos pais, pessoas de posses e enlevadas com a arte do seu rebento que insistiam em ter uma opinião do celebrado literato.
    Com efeito, sob efeito sabe-se lá como ou porquê, mas sob um céu de noite de Verão na Figueira, acometido de inspiração súbita a jovem promessa, declama pela janela:
    Lá vem a noite, cheia de estrelas... meu Deus como são belas, meu Deus como são belas!
    Conta-se que o poeta terá comentado em surdina: Lamento dos pais o triste fruto, meu Deus como ele é bruto!

    Enfim, verdadeira ou não, até cruel, mas são estas histórias que fazem parte do nosso imaginário!

    Saudações leitorais cá da Cidade Morena, em feliz quarentena!

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    1. É verdade, António.

      Todos aqueles que se sentem os "melhores do mundo" e que não cabem nos espelhos lá de casa, serão sempre maus conselheiros...

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    2. Há excepções, Luís. :)
      O Saramago, já Nobel, disse a Gonçalo M.Tavares ao entregar-lhe o prémio homónimo em 2005 :
      "Não há direito de alguém escrever tão bem apenas aos 35 anos."
      Que grande elogio, digo eu.
      🌻
      Maria

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    3. O Saramago era vaidoso, mas tinha noção da realidade, cabia no espelho lá de casa, Maria. :)

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  2. Achei engraçado ver aqui o livro Bird by Bird da Anne Lamott, pois ainda há pouco tempo o Xilre colocou alguns extractos deste livro no blog e eu fiquei com imensa vontade de o ler.

    Tenho aqui um livro do Agostinho da Silva (Sete Cartas a um Jovem Filósofo) que penso se enquadra no espírito dos livros que a Rosário refere.
    Edição de 1990 da Ulmeiro - e será que a Ulmeiro ainda resiste? Gostaria de saber...

    Vargas Llosa é sempre uma boa sugestão.

    Saúde e boas leituras.
    🌻
    Maria

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  3. Pois... e lá terei de ser novamente pouco politicamente correcto... a ver se ao mudar não fica tudo exactamente na mesma.
    Já aqui disse do pouco respeito literário que tenho por alguns (poucos, ou talvez, felizmente, entre o pouco e o mais ou menos) escritores mais novos e recentes.
    Muitos ao escreverem dois ou três livros, já nesse estado embevecido de encontro com o Graal se reconhecem, agarrada essa condição tribal, quase de "famiglia", com unhas e dentes.
    Muitas vezes uma benesse construída sabe-se lá em quê, sem correspondência real com a sua real qualidade literária, mediana, de escrita formatada, pouco inovadora, quase copista, despida de interesse e de riqueza "material".
    Muitos, desses poucos, dando-se ares de "superior idade", que ainda não têm, são os que apoucam grandes "velhos" escritores como os ainda vivos António Lobo Antunes ou o Rentes de Carvalho, e toda uma grande geração ainda forjada no século XX, onde chama e conteúdo com densidade não eram palavras vãs, não confundindo historietas com literatura.
    Muitos, desses poucos, são os que deambulam por tudo o que é lugar, engraxando aqui, puxando o lustre acolá, de forma tão visível e despudorada que até nos faz corar, como se a escrita se confundisse com marketing - um desejo infinito de agradar à tribo, a tribo que os faz sobressair, a tribo sem a qual desapareceriam na irrelevância das suas obras, sempre tão difícil de "parir" nas suas palavras como se más redacções a que estão obrigados, fazendo a alegria das casas editoras que procuram o sucesso comercial imediato, de obras tão leves, levezinhas, que as levará a mais breve das brisas. Elas sabem, essas matreiras casas que não se alimentam a água, que o que mais vende neste tempo não é a literatura pura e dura, mas mais o folhetim que entretém massas iletradas.
    Muitos - desses poucos, ou, talvez, mais qualquer coisinha - são escritores? que desaparecerão rapidamente na sujeição do escrutínio do tempo. Mas ainda não o sabem. E o que lhes interessa isso se a vida literária que vivem é para ser forjada no dia-a-dia?
    E como é curioso verificar como os melhores escritores mais jovens, actuais, os com densidade e conteúdo, como o Afonso Cruz, o João Tordo, o Tiago Salazar, o Gonçalo Tavares, o Sandro William Junqueira, e mais uma mão cheia - que esses, sim, merecem já ser tratados de escritores - são os mais distantes da tribo, da "famiglia", não se dando ares nem a importância que na realidade os outros não têm; sabendo, esses sim, com densidade e conteúdo, que escrever é um acto solitário, uma busca de identidade, não um espectáculo de circo, marketing ou a escrita de um almanaque ou um sempre "irrenovado" borda-de-água.

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    1. «Afonso Cruz, o João Tordo, o Tiago Salazar, o Gonçalo Tavares, o Sandro William Junqueira (...) são os mais distantes da tribo, da "famiglia".»

      Olhe que não, olhe que não... ;-) Na verdade, todos esses nomes que indica já estão praticamente aceites pelo «establishment» literário «tuga», perfeitamente integrados nele, sendo objectos regulares de destaque no espaço mediático cultural e em eventos literários.

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  4. “Ora bem (já que me autorizou a aconselhá-lo), peço-lhe que se deixe de tudo isso. O senhor olha para fora e é exactamente o que não deveria fazer agora. Ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo, ninguém. Há um único meio. Entre dentro de si. Procure o motivo que o faz escrever; examine se ele tem raízes até ao lugar mais fundo do seu coração, confesse a si mesmo se viria a morrer no caso de escrever lhe ser vedado. Isto antes de mais nada: pergunte-se na hora mais calada da sua noite: TENHO de escrever?”

    Rainer Maria Rilke, "Cartas a um jovem poeta"

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  5. Obrigado pela oportuna recomendação. Vou procurar, adquirir e ler. Abraço (virtual).

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  6. António Luiz Pacheco21 de abril de 2020 às 06:23

    Se me permitem meter ainda a colherada, prosseguindo a nossa conversa, recordo ter
    recebido de um autor para mim icónico e pessoa que muito prezei, um conselho que ele por sua vez recebera quando em novo começou a alinhar umas palavras em artigos, da parte de um outro e consagrado autor, mais velho, com quem conviveu e depois manteve correspondência: - Lembra-te de que quando escreves, escreves para os outros, não escreves para ti!
    Curioso como este conselho foi passado assim, de uns para os outros, desde a América, passando por Moçambique e até Portugal, por gerações e com uns 50 anos de diferença.
    Não sei se foi um bom conselho, mas acho que me ajudou alguma coisa... de qualquer modo e como se diz, os conselhos dá-os quem pode e recebe-os quem quer!

    E querem um bom conselho? Olhando à hora, vão fazer uma sesta!

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  7. Para acrescentar algo de "maldoso" ao que o Extraordinário Pacheco escreveu sobre os cozinheiros é conhecida a inveja que certos músicos (executantes) teem quando outros recolhem mais palmas do que eles. Grande princípio o de não se esquecer de que se escreve para os outros. Mas há casos notáveis de grandes escritores que escreveram para a gaveta e para o baú onde mais tarde outros foram encontrar pérolas.

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    1. António Luiz Pacheco21 de abril de 2020 às 09:52

      Inteiramente de acordo e verdadeiro!
      É conhecido o famoso incidente, em que Eric Clapton abandonou o palco quando estreante Jimmy Hendrix subiu para o seu lado e começou a tocar...
      Também é sabido que muitas obras "perdidas" são recuperadas, encontradas e editadas póstumamente... não sei se "Ilhas na corrente" (H. Hemingway) se pode enquadrar nesse exemplo, mas há muitíssimos! E ainda bem!!!

      Abraço em vida, cá da Cidade Morena!

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  8. «"Escrever", de Stephen King (quem diria que um autor de livros de terror pensava tão bem as coisas?)»

    E cá está, mais uma vez, o preconceito, o desconhecimento, a arrogância... Na verdade, são os escritores que se dedicam ao fantástico - que inclui a ficção científica, a fantasia (épica, e não só), a distopia, e, sim, o terror - que, normalmente, «pensam bem (e melhor) as coisas». Tanto assim é que são os seus livros os que mais sucesso e influência conseguem, sendo citados em anos e em décadas (séculos!) seguintes, constituindo êxitos comerciais permanentes, dando origem aos mais famosos filmes e séries de televisão. Mary Shelley, Jules Verne, Bram Stoker, H. G. Welles, Aldous Huxley, George Orwell, J. R. R. Tolkien, Arthur C. Clarke, Ray Bradbury, Philip K. Dick... e Stephen King foram e são escritores superiores porque são figuras cimeiras (e outras existem) de um género literário e cultural superior - porque não só simbolizaram e fixaram o fundamental dos seus tempos presentes como ajudaram a prever e até a moldar o futuro. Os que querem escrever sobre a «realidade» melhor o farão através do jornalismo, do ensaio, da História, e não através da ficção - por esta invariavelmente pouco mais (ou nada) obterão do que a irrelevância, a mediocridade e o esquecimento.

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  9. Com relação o "veredicto" me fez lembrar outro, a autora Angelina Vidal, simplesmente maravilhoso.
    Cláudia da Silva Tomazi

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  10. Achei interessantíssima a indição do livro do Stephen King, autor que nunca li uma única linha.

    Procurarei pelo livro, que parece ser ótimo.

    Muito obrigado e abraços!

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