Tempo de ouvir

Lançar um livro novo neste cenário que hoje enfrentamos seria para qualquer escritor uma espécie de suicídio. As livrarias físicas estão todas fechadas e contar apenas com as virtuais seria provavelmente queimar para sempre a obra, já que, passada a pandemia e os perigos, essa não seria considerada novidade e afogar-se-ia no meio de tantas que já estarão em fila de espera, ansiosas por ocupar mesas e prateleiras. Mas lançar um livro novo em formato diferente do do papel já está a acontecer, e até Rodrigo Guedes de Carvalho tem o seu audiolivro do romance Margarida Espantada disponível para venda a quem o quiser ouvir (com a sua voz, reparem), o que pode ser uma experiência bem interessante. E, num tempo em que pensei que a tónica seria ler, multiplicam-se curiosamente as ofertas para ouvir textos e livros. A Casa Fernando Pessoa oferece um serviço para ler poemas ao telefone a quem ande longe das redes sociais (uma companhia bonita para quem esteja sozinho); a TSF tem uma rubrica («Com os livros estamos mais próximos») em que voluntários (eu ou qualquer dos Extraordinários podemos fazê-lo) gravam leituras de excertos de livros e põem-nas a circular (deixo-vos um link com Nuno Carmarneiro lendo uns parágrafos de Os Passos em Volta, de Herberto Helder, para verem como é); nas redes sociais, abundam vídeos de pessoas a ler os próprios livros ou textos alheios. Pode ser que, se se tomar o gosto a algum texto através do ouvido, se vá depois espreitá-lo com olhos de ler. Oxalá.


https://www.tsf.pt/programa/com-os-livros-estamos-mais-proximos/emissao/nuno-camarneiro-escritor-e-professor-universitario---os-passos-em-volta-de-herberto-helder-12029488.html


Hoje recomendo um livro de ciência muito bonito que se lê como um livro de aventuras e explica como depois de tantos desastres ainda cá andamos (os seres humanos). Chama-se em português A Vida É Bela e escreveu-o Stephen Jay Gould, um paleontólogo brilhante e com muito humor. Nos EUA de certeza existe audiolivro.

Comentários

  1. Gostei da sugestão, como (quase) sempre.

    Não sei se as pessoas lêem mais nestes tempos (ou querem "ouvir" livros). Eu, pelo menos, estou a ler menos.

    Ler continua a ser uma "tarefa difícil" para quem vê o livro como um mero objecto. E não é por estarem mais em casa, que as coisas mudam...

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  2. Obrigado MRP pelo link, e por todos os dias (estes tão difíceis) estar aqui a trabalhar para nós, não é fácil, não é para todos e ainda por cima "levar" com alguns comentários menos convenientes e, porventura, se calhar, até desagradáveis (como, assumo, poderão ter sido, por exemplo, alguns dos meus).

    Devo confessar que, para mim, ouvir ler não é a mesma coisa que ler (com o livro à frente). Talvez numa viagem longa, quando se conduz, o audiolivro, mas nunca experimentei.

    Tal como salienta o Luís Eme (que belas fotografias as do seu blogue Largo da Memória) ler é uma difícil tarefa, ler dá muito trabalho, por isso mesmo somos tão pouquíssimos.

    Não acredito que mesmo estando em casa (quem não lê) passe agora a ler, muito menos a ouvir ler.

    "A vida é bela" só conhecia o filme (não sei se haverá alguma relação livro/filme?)

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    1. Boa tarde!
      O livro em questão nada tem a ver com o filme. É um livro de divulgação científica da área da Geologia/Paleontologia.
      Boas leituras!

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    2. No entanto, caro Seve, o título tem, sim, que ver com um filme de Frank Capra. No original, o livro chama-se «It's a Wonderful Life», roubando o título a esse belo filme. Só que em português a película de Capra chamou-se «Do Céu Caiu Uma Estrela» e portanto optou-se por uma tradução que fizesse mais sentido. O filme «A Vida É Bela» ainda demoraria anos para aparecer.

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  3. António Luiz Pacheco15 de abril de 2020 às 04:26

    Também não sou fã de ouvir ler... e não se pode dizer que não tenha sido iniciado nessa forma de leitura, fui bastante até... mas com o tempo, fui deixando de gostar de ouvir.
    Quando leio, a minha mente divaga, vai formando imagens, viaja... posso voltar atrás para reler a passagem. Quando oiço, a minha imaginação não está activa, tenho de estar completamente focado naquilo que oiço ou perco o momento e o fio à meada.

    Quanto à sugestão da leitura, é daquelas que me interessam muitíssimo e tratarei de ir ver tão logo possa. Para já vou procurar no gúguel... sempre serve para alguma coisa!

    Saudações escritas, não faladas, cá da Cidade Morena!

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  4. António Luiz Pacheco15 de abril de 2020 às 05:40

    Não quero ser intrometido, mas, fui mesmo informar-me, e eis o que obtive sobre "A vida é bela".

    - Nas montanhas Rochosas canadianas formou-se há 530 milhões de anos o Xisto de Burgess, onde jazem os restos de um mar antigo que albergou mais seres vivos do que todos os que povoam actualmente os nossos oceanos - criaturas inacreditavelmente bem conservadas, como o estranho Opabinia, com cinco olhos, ou o Sidneyia, cujo tubo digestivo revela ainda a última refeição que tomou. A sua descoberta no início do século por Charles Walcott poderia ter revolucionado os conhecimentos sobre a evolução. Walcott não foi, porém, capaz de interpretar correctamente a mensagem inscrita nos fosséis de Burgess, tendo-os atribuído invariavelmente a filos conhecidos de anelídeos e artrópodes. E as coisas mantiveram-se assim até Harry Whittington ter resolvido abrir as gavetas de Walcott quarenta anos mais tarde. A história das razões que levaram ao fracasso de Walcott e ao êxito de Whittington constitui um dos melhores relatos de sempre sobre a ciência, a sociedade e nós próprios. Rompendo com a iconografia convencional - que representava a evolução como uma escada do progresso ou um cone de diversidade crescente -, as descobertas efectuadas no Xisto de Burgess vieram mostrar que as extinções têm, afinal, um carácter de lotaria, que a contingência desempenha na história um papel decisivo e que, assim, é bem provável que o ser humano só tenha aparecido por mero acaso.

    Saudações paleontológicamente actuais e não por acaso, é porque quero enviá-las!

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  5. Com o devido respeito por quem executa e divulga a forma oral da leitura, no meu caso prefiro ter o livro à mão, uma vez que é assim que me concentro, decompondo as palavras, absorvendo-as, recuando para corrigir algum mal-entendido, recuperar personagens e por aí além. Assim sendo, sem desprimor de quem grava a sua própria voz, poupando a vista a quem não lê, prefiro ler para mim, percorrer a acção ao meu próprio ritmo.
    Para além do que ante disse, a audição de uma obra não me prende como a leitura, a tal ponto que terei a tentação de fazer outras coisas enquanto ouço, perdendo alguns trechos por falta de atenção e sem recuperar o fio à meada.
    Quanto à "Vida é Bela", vi o filme, interpretado por Roberto Benigni, mas reparei que não é a essa obra que a MRP nos chama a atenção. Também nunca me apercebi que haja obra escrita sobre essa comédia dramática.
    Alterando uma maldosa expressão em rima, que já devem conhecer e com que nunca concordei, direi que "A Vila é Bela e as mulheres ainda a melhoram a ela".
    A propósito, tenho saudades de ler por aqui a Maria, a Cristina Torrão e outras mais excelentes e Extraordinárias comentadoras.

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  6. Não gosto muito de ouvir ler. O leitor tem o seu próprio ritmo e, se preciso de fazer uma pausa para melhor saborear ou compreender, o livro já lá vai, não o posso acompanhar. Claro, posso voltar atrás e recomeçar onde tinha descolado, mas não é um ato que goste de fazer.
    Assim de repente, abro três exceções. Luís Miguel Cintra - pelo timbre da voz, que é mais um elemento a juntar à qualidade do que lê; Irene Cruz - também pela voz mas principalmente pelas pausas e acentuações que faz que eliminam a dificuldade que caraterizei acima; Mário Viegas - "encenava" os textos dando-lhes uma dimensão diversa daquela em que eu os abordava, valorizando-os (de salientar que este estilo foi objeto de desaprovação expressa de alguns poetas). Não deve ser por acaso mas todos eram atores, Irene Cruz talvez também ainda o seja, não sei.

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  7. Gosto deste post da Rosário porque mostra aquilo que alguns parecem desconhecer e que a Rosário não desconhece, sendo uma especialista da edição e do Mundo Livro.
    É que o livro, hoje, é um produto dependente mais das condições do mercado do que do seu próprio mérito. Um produto maltratado pelo mercado, sempre à espreita de uma pequena oportunidade, de um pequeno lugar que seja, de uma benesse, para se poder afirmar, mesmo que temporariamente. Um produto que cada vez mais deixou de ser uma celebração da própria escrita, um desenlace da imaginação criadora, para ser um trabalho com um objectivo determinado, um alvo: o mercado!
    Um produto como se vê hoje, nesta crise de sobrevivência física, colocado em último lugar nas prioridades de quase todos, que gostando do livro põem à frente da sua capacidade de ler o mundo, o seu mundo de sobrevivência pessoal.
    Um produto que já normalmente não sendo essencial para a sobrevivência imediata fica refém desse próprio mundo, sendo um dos motivos porque hoje os eleitos são uma ínfima parte do abissal número de possíveis eleitos, pouco diferenciados na qualidade, ficando à mercê da conjugação de gostos pessoais com percepções baseadas em técnicas de análise mercantis.

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    1. António Luiz Pacheco15 de abril de 2020 às 08:07

      Excelente análise... tenho de o dizer!
      Abraço!

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  8. E antes que me acusem de exercício catártico — então não gostam de conhecer as experiências de autoria alheia? —, ora neste tempo de catarse :) (haja boa disposição), em que resolvi fazer em simultâneo uma licenciatura e um doutoramento em História (vejam lá a miséria académica a que chegámos) e de estado de necessidade de confinamento coercivo :);
    a que se seguirá, num “grande finale” de vida, uns quaisquer Estudos Literários que me colocarão finalmente no carril da depuração-purificação da sageza literária; fazendo-me aceitar, finalmente, de modo acrítico, tão placidamente como a Ana Plácido, do Castelo Branco, o suicídio do cônjuge (não de um qualquer, reconheço) este mundo ideal, complexo;
    e, se ler não está fácil (escrever é outra coisa, sempre foi uma verdadeira catarse), menos estará para ler Marc Bloch (um enorme escritor com pele de historiador, aliás como Vovelle, Delumeau, Chaunu e Mattoso — há grandes escritores na historiografia) e teses sobre teses.
    De uma intervenção recheada assim de elementos pessoais, passível sempre de ser tomada como de irritante catártico — espero que não seja tomada nesse mau sentido, pois isto há sempre vários sentidos para tudo, mas mais como um arco-íris colorido de esperança na humana-idade, uma espécie de exercício de liberdade, sinónimo de saúde mental.
    Verdade que nada se compara a este irritante, não catártico :) E a estas criaturas de Deus que pululam de volta de mim, sempre a desconcentrarem-me deste meu processo de catarse, sem fim à vista.
    Ouvir ler? Sim, talvez seja um bom caminho, mesmo se a voz de quem leia seja um irritante na relação entre o leitor e o livro.
    Que se oiçam as vozes para que se comprem... ou, pelo menos, leiam livros!

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    1. António Luiz Pacheco15 de abril de 2020 às 08:09

      Uma Extraordinária empreitada, essa... para o que lhe desejo a melhor ventura, mas sobretudo uma boa viagem!

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  9. Otima notícia. Vem calhar por exemplo a qualidade da escrita nas audições. A voz por vezes, realça a excelência da pontuação a seja em poesia ou textos de romance. A paciência necessária do leitor para elogiar uma leitura, contrapõe da "ansiedade" em dias incertos.

    Gosto, também da escrita na beleza desperta e original quando se lhe ampara de arte em diversos movimentos.
    Cláudia da Silva Tomazi

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