Crónica e oralidade
Hoje ainda não era dia de crónica, mas, como amanhã é Sexta-Feira Santa (embora todos os dias sejam mais ou menos parecidos quando estamos metidos em casa), farei folga do blogue e, por isso, deixo já aqui o link:
https://www.dn.pt/edicao-do-dia/21-mar-2020/ah-fadista-11956806.html
A literatura começou a ser transmitida oralmente e hoje, por força das circunstâncias, está a regressar a literatura dita e ouvida, seja através das redes sociais (nas quais autores, actores e muitas outras pessoas lêem excertos de livros ou poemas próprios e alheios), seja através de programas de rádio e televisão que contemplam espaços de leitura, como o que se segue, da TSF (neste link, Nuno Camarneiro lê Os Passos em Volta, Herberto Helder):
Como amanhã não há post, recomendo uma extensa obra do tempo da literatura oral, mas que, graças da Deus, e para nossa enorme alegria e ilustração, foi sendo transmitida e registada até vir parar às nossas mãos: A Odisseia, de Homero, com tradução do escritor e professor Frederico Lourenço. Um dos mais belos livros do mundo e certamente um dos fundadores da literatura no Ocidente. Bom fim-de-semana a todos.
Ontem falava-se na adequação do discurso.
ResponderEliminarDeixo-vos aqui um trecho discursivo desadequado para tempos normais, mas adequado para estes tempos excepcionais, um “exercício de escrita discursiva” sob o signo da Procura do velho Molero, aquele que há dentro de todos nós.
«Se a noite foi feita para dormir, não foi menos feita para nos apercebermos como todos desempenhamos papéis no palco da vida. O Velho diz aqui que ama o teatro», observou Austin, vestindo de sons o silêncio em que mergulhara mais uma noite. «Segundo aqui consta, preocupa-o ATrangressão que instauramos porque, para ele, o desvio não é o acto, mas as consequências da aplicação por outros de regras e sanções às mesmas.»
«Obviamente, Austin, que é preocupação comum a todos que gostam de um mínimo de ordem e civilidade.»
«Consta também que ama tanto os cenários como a forma como administramos impressões uns aos outros, como podemos parecer uma coisa e outra ao mesmo tempo, como podemos parecer aquilo que não somos! Chefe, mas não nessa perspectiva de vida em comunidade! Numa perspectiva mais da instauração da norma, dos empreendedores morais e materiais, dos construtores!»
«Acha ele que o segredo podendo-nos conduzir ao inferno está no domínio da etiquetagem. Etiquetar é, hoje, demasiado fácil. Júnior diz de Molero que ele tentou toda a vida libertar-se dos rótulos. Quando era novo era o 'Botas', pensa ele pela dificuldade que tinha em dar corda aos sapatos»,
(…)
«Por fim, entre mais umas dezenas de rótulos, um dos quais recorrente, agora com luzes florescentes, o rótulo 'OSenhorDasMoscas'.»
«Enfim, esse é fácil de perceber!»
«E talvez seja por isso que Molero refuta como “compleição” universal as TrêsRegrasDaVida».
«As três regras da vida? O que é isso?», interrompeu DeLuxe,
«Sim, as 3RDV», respondeu Austin, abreviando por sigla,
«A 1ª: sê amigo do teu amigo cultivando a amizade, como se tratasse de uma flor que tivesses de regar todos os dias da tua vida, nunca desistindo também da tua família a quem deves cuidar como um apêndice de ti; a 2ª: tenta sempre atingir os teus objectivos, sem estiolar pelo caminho, combatendo e desbravando todos os dias um pouco o caminho; a 3ª: afasta-te das coisas ruins, das tentações e pecados que te possam infernizar, emparedar e alienar de ti próprio, tornando-se um obstáculo de dimensão quase intransponível»,
«As três regras da vida, ou 3RDV, como cardápio universal? As três regras da vida, para Molero, debatem-se entre a consciência, a racionalidade, a animalidade, a contemplação e a intuição. Quem se julga tocado por elas, pode pensar a sua imortalidade. Mas na superioridade das suas regras ele pode ficar cego, tapado por um sol que não emite luz, uma espécie de sol da lua. Incapaz de ver, enquanto é analisado e observado no arrastar e controvérsia das suas decisões e construções baseadas no categórico, na auto-afirmação, na punição, no medo e certezas do seu julgamento. 'Desconfia. Desconfia sempre dos calados, diz ele! Porque já te tomaram a mente, já te analisaram, encontraram e apoderaram das tuas forças e medos. 'Ele afirma que as três regras da vida são apenas uma forma minimalista de encarar a vida. Até, demasiado simplista! Não só no interior de uma sociedade, como no interior da própria psique. Percebeu isso quando percorreu o seu próprio percurso no universo 'DeSenhorDasMoscas'. E dá como exemplo as 50 entradas: do OConquistador, ao OPio, ao OBravo, ao Justiceiro, ao OFormoso, ao OInconstante, ao PrincípePerfeito, ao OCasto, ao ODeterminado, ao OMagnânimo, ao BemAmado, a OBom, a ODiplomata, a ODesventurado, 'Percebes agora as 50 entradas?' pergunta ele, 'Que são apenas algumas das que estão em construção no nosso interior.' Diz ele que são uma técnica que utiliza. Uma arma na mão de aparentes desarmados. Tem até uma frase que surpreende pela singularidade e elegância, 'Não podes escrever sobre aquilo que não conheces porque nem sabes que existe'. É por isso que, para si, os rótulos são uma forma estreita de viver. Falta-lhe o multipersonalis
Um bom naco de boa prosa, é sempre bem recebida... e estas conversas só é pena não estarmos com ele, à mesa... qualquer mesa, desde que bem amesandada, se é que me faço entender...
EliminarAbraço!
bom dia
ResponderEliminarvenho desta vez pôr-lhe uma questão de cariz profissional, pelo que sei a autora deste blog também é editora da leya e a d. quixote é uma editora do grupo leya, eu li há algum tempo uma autora espanhola, almudena grandes, editada pela d. quixote, acontece que há anos que não é editado nada desta autora e gostava de saber a razão, se puder ser. obrigado.
henrique cheira
Caro Henrique Cheira,
EliminarSó publico na Dom Quixote há cerca de dez anos e maioritriamente autores portugueses. Nunca fui editora de Almudena Grandes e como tal não sei porque deixaram de a publicar na editora. Não o posso ajudar.
Um abraço.
obrigado por ter respondido à minha questão.
Eliminarhenrique cheira
A simples conduta me obriga dizer ser a primeira vez que leio a palavra 'oralidade' e não o deixa de ser interessante se diante da conduta formal meu aprendizado elevar-se, por assim dizer a humildade. Feliz Páscoa a todos vós
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
É curioso... gosto de ouvir falar, de ouvir contar histórias ou casos, mas, apesar de em pequeno ouvir ler, aos serões e então gostar, hoje não gosto de ouvir ler! Não sei porquê, mas talvez porque sou mesmo muito surdo e tenho imensa dificuldade em ouvir, o que me causa graves transtornos, sobretudo profissionais.
ResponderEliminarA crónica, gostei imenso e digo que teria gostado de conhecer o seu pai... palpita-me que ele seria mais ao meu modo, que não me interessa ir para o Céu, pois os meus amigos e amigas não é lá que estarão...
A propósito daquela história dele, recordo-me de uma que ouvia contar ao meu avô e que será tão verdadeira quanto a outra, mas e isso o que interessa? Uma história não vale pelo que de verdade contenha e sim pelas outras razões todas, e são muitas!
Um rico industrial do Norte, vindo a Lisboa com alguma frequência por força dos seus negócios, arranjou uma corista, como era usança na época.
Um dia, calhou vir com a mulher legítima, e no hotel onde ficaram calhou também cruzarem-se com um outro casal, e os cavalheiros cumprimentaram-se.
De olho vivo, logo a esposa questiona: Aquele não era fulano?
Que sim... mas, quem estava com ele não é a mulher, que eu bem sei!
Pois não... e explicou então que era uma moça que ele "protegia", porque em Lisboa quem era quem, para ser reconhecido e ter importância, para ter peso nos negócios e nas decisões políticas, para ter influências, tinha de alinhar naquele hábito de "mouros" e ter uma "protegida", uma senhora com dotes artísticos que ficava bem apoiar !
Desconfiada a mulher perguntou logo se ele também "protegia" alguma.
Que sim, era obrigado a isso mas que não havia mais nada, era mesmo só para vista, por causa dos negócios, para ser respeitado, e ela até merecia, ainda ia ser uma grande artista e depois ficava-lhe bem a ele que a ajudara, etc. !
A legítima, mais tranquila, determinou no entanto que queria ver a "protegida"! E fez finca-pé, pois queria avaliar.
O nosso homem não teve remédio senão, fazer-se encontrar com a "amiga" que chamou ao saguão do hotel com um pretexto qualquer, enquanto a mulher, disfarçadamente sentada numa poltrona e a recato, observava.
Despachada a moça, reune-se o casal, e comenta a esposa com ar satisfeito:
Olha, sabes, a "nossa" é bem mais bonita que a outra!
São estas histórias que ficam, que fazem épocas e nos deliciam para sempre, enquanto houver passado para contar, pois sem ele é que não há futuro!
Votos de uma Santa Páscoa, "protegido", em saúde e paz, cá desde a Cidade Morena.
Eheheh! Grande história. Essas são as histórias interessantes. As outras são sensaboronas, chatas, cinzentas, pobrezinhas na temática, na inovação, replicadas ao infinito, feitas de uma escrita quase amadora que pouco ou nada acrescenta.
EliminarPor isso é que já afastei a ficção actual contemporânea nacional com poucas excepções e já só leio história, biografias, ensaios, crónica.
É "démodé" como o termo, faltando-lhe aventura, imaginação, garra, fibra, a coragem e a vivacidade com dinâmica quase cinematográfica. Depois queixam-se que não vendem. Pudera!
Boa Páscoa, ALP, com votos que o vírus se afunda o mais possível no mediterrâneo, para salvaguardar esses povos já tão causticados por tantos males e tormentos,mas no entanto com tanta criança com um sorriso estampado de alegria e humildade nas faces.
Ó Paxeco essa tá boa, até parece umas das histórias do Gervásio Lobato (que escreveu um livro giríssimo "Lisboa em Camisa").
EliminarO Gervásio Lobato, era bem mais antigo que o meu avô!
EliminarMas tens razão, estas histórias "à portuguesa" dariam para muitos livros, não duvides, e engraçados!
Eu lembro-me muito bem do José de Oliveira Cosme, que tinha um humor notável e era certeiro a criar personagens, "cromos" como se diz hoje... os meus preferidos eram os "Justo e Justa", um casal de saloios que tinham o mesmo nome, faziam anos no mesmo dia, tinham-se conhecido no mesmo dia, e até casado no mesmo dia! Só não queriam morrer no mesmo dia, pois como eram muito amigos, pretendiam ir ao funeral um do outro!
Abraço, à distância, claro!
Ó Paxeco afinal, segundo ouvi a uma entendida, não é (trabalho) à distância mas sim a distância (a sem acento); era pelo menos alguém entendido em comunicação.
Eliminar