Biblioteca itinerante (e viva)

Conheço muita gente que se apaixonou pela leitura no tempo em que a Fundação Calouste Gulbenkian tinha bibliotecas itinerantes e corria o país de lés a lés para levar livros a jovens e crianças de terras pequenas que ainda hoje, tantos anos passados, não têm uma livraria. Um desses casos é o de José Luís Peixoto, que me contou como esperava ansiosamente a chegada da carrinha para poder ir buscar mais um livro (e foi assim, se não me engano, que chegou a Dostoievsky). Estamos a milhas desse tempo, com uma rede de bibliotecas públicas apreciável, mas há países em que, infelizmente, não é assim. Li uma notícia sobre uma original biblioteca itinerante na Indonésia, fundada por um homem de 42 anos, pai de cinco filhos. Tratador de cavalos, este homem iniciou a biblioteca com uma doação de cem títulos e percorre as aldeias vizinhas três vezes por semana, levando nos alforges de um dos seus cavalos um número significativo de livros para as crianças. Espera-as normalmente nos intervalos escolares e empresta-lhes o que elas queiram ler. Segundo dados da UNESCO, a Indonésia conseguiu reduzir para metade, entre 2004 e 2010, o número de analfabetos, e certamente pessoas como este senhor fazem todos os dias a diferença. Vai aí uma fotografia para se deliciarem. Boa Páscoa!


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Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda24 de março de 2016 às 03:02

    Louvável o que muitos anónimos fazem pelo Mundo, em nome da Cultura, da difusão do Saber e da Memória. A prova de que, na verdade, os verdadeiros heróis se encontram, quase sempre, na sua simplicidade - tantas vezes ignorada - sob os pedestais e não sobre eles...

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  2. Incluo-me nessa gente apaixonada pelos livros à custa das bibliotecas, que ainda hoje frequento, mesmo tendo agora livros por toda a casa (parece que as estantes não lhes chegam...). Não tenho sentimentos de pertença em relação aos livros, apesar de gostar muito de ter alguns sempre à mão. Já li muitos emprestados (até fiz parte de um clube de leitura dinamizado pela professora de Português no 5.º ano) e gosto muito de emprestar livros, mas há sempre quem ache que é para sempre... Há até quem partilhe os livros de forma bem original. Nunca encontrei nenhum livro desses que são deixados em sítios públicos para que outros os levem, mas deve ser delicioso!
    Este projeto deste pai de cinco filhos na Indonésia vem provar que «nem só de pão vive o homem», e que há pessoas que conseguem mudar um pouco o mundo.
    Há pouco tempo voltei a frequentar a Biblioteca de Oeiras e fiquei surpreendida com a quantidade de gente que por lá anda, pelo menos ao sábado. Os tempos de crise devem ajudar, claro.
    Boa Páscoa e boas leituras!

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  3. Eis uma experiência colombiana dos biblioburros:
    https://www.youtube.com/watch?v=rPfFZEPhLAE

    Ah, o meu gosto pela leitura começou com a itinerância da Gulbenkian. Bem hajam!

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  4. António Luiz Pacheco24 de março de 2016 às 05:59

    Acho uma maravilha! E vivam os heróis livrantes - creio que é o termo que melhor se lhes aplica.

    Pela minha parte e como já contei diversas vezes, tive a dita de crescer numa casa de gente que lia e adorava livros, onde existia até uma divisão (o salão) com uma biblioteca, que herdei, mantive e ampliei. Por ter essa sorte fui herdando livros que por morte me vão chegando às mãos e porque muita gente sabe da minha paixão e que tenho espaço.

    No entanto sou um egoísta, e, se tenho muitos livros (andam pelos 5.000 fora os milhares de Patinhas e outras BD)) é porque tenho por regra que os não empresto! A ninguém! Só se lêem lá em casa... A excepção são a minha irmã mais velha (co-herdeira de boa parte deles, que a mais nova foi excluída) e a minha sobrinha mais-velha que tem a mesma paixão pela leitura e livros.

    Saudações Pascais cá da Cidade Morena, de onde estarei ausente nos próximos dias pois vou fazer um périplo pela Namíbia, Botswana e Zâmbia, seguindo os passos do meu Largueza.

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    1. Diz Pacheco: «(…) sou um egoísta, e, se tenho muitos livros (andam pelos 5.000 …) é porque tenho por regra que os não empresto! A ninguém! (…)»

      Ó Pacheco! Não esperava isso de si! Deixe-se lá desses complexos ego-elit-istas, homem!

      Veja o comentário anterior de Isabel Pires. Arranje um burro, carregue-o com livros e faça-o circular pelo Ribatejo – ou (e) pela Cidade Morena – a emprestá-los a quem gosta de ler mas não os tem.

      Desculpando-me a expressão: “um burro carregado de livros…” – como você, Pacheco – “…é um Doutor.”

      Nunca ouviu esta, Doutor?

      Quando voltar da Zâmbia, despache-se: estarão muitos Extraordinários ribatejanos e morenos à espera do burro, e muitos Extraordinários burros à espera do Doutor.

      Ande lá, não leve a peito, que isto já não são horas de estar com esses preciosismos, e a brincar é que a gente se entende.

      Bom fim-de-semana na Namíbia, cumprimentos ao pessoal do Botswana.
      Um abraço ao Doutor moreno-ribatejano .

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    2. António Luiz Pacheco4 de abril de 2016 às 09:45

      Eheheh! Ouvi sim senhor... mas, a minha formação é em engenharia... logo, não se me aplica, ahahah!

      Um grande e especial abraço - cheguei à pouco, e estou a por os mails em dia!

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  5. É bonito demais. Ele vive a preencher o vazio dos livros. No nosso mundo o vazio é de leitores. Bons leitores. Abnegados leitores que se peguem aos livros como a gente de família. Coisas.

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  6. Também eu cresci numa terra e numa casa sem livros lá pelos confins da Beira Alta. Contam-se pelos dedos os que por lá andavam: O Monte dos Vandavais que ainda tenho, Scenas da Munha Aldeia do Joaquim Pinto de Sousa Macário, O Amor de Perdição, O Almanaque do Diário de Noticias de 1954 que ainda tenho, Fui Criada de Hitler da Pauline Kohler e Um Jardim Perfumado do Sheik Nefzawui que o meu pai trouxe do Brasil em 1954. Pois foi aí pelos finais dos anos 50 que eu jovem estudante comecei a frequentar a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian à qual devo também uma bolsa de estudo desde o 1º ano até ao 7º do Liceu. Aí então tornei-me um leitor compulsivo até hoje. Comecei pelo Emilio Salgari , R. L. Stevenson, Júlio Verne e acabei nos clássicos ingleses, italianos e franceses.Não tenho muitos livros porque não tenho espaço para os ter, assim como discos e dvd e tenho a sote de os ter espalhados por 3 casas: Na minha casa da Beira Alta juntamente com alguns que herdei do meu pai, na casa de minha sogra na Chamusca onde estão albuns de arte valiosos tipo FMR e no meu apartamento de Lisboa onde se espalham pelos corredores, salão e quartos de dormir. Só não há na casa de banho. Para me vingar do que não li quando era adolescente hoje desforro-me com a "Guerra e Paz" e a "Ana Karenina" do Tolstoi, o "Crime e Castigo" e "Os Irmãos Karamazov" do Dostoieveski, A "Montanha Mágica" do T. Mann, "O Homem Sem Qualidades" do Musil, A "Viagem ao Fim da Noite" do Céline, etc. Dos portugueses prefiro o nosso Aquilino e Camilo.

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