O que ando a ler

Não ando a ler, já acabei, mas, para o efeito, tanto faz. Capa belíssima e título ainda mais belo fazem de qualquer livro irresistível e, por isso, este não é excepção. Chama-se Não Há tantos Homens Ricos como Mulheres Bonitas Que os Mereçam e assina-o Helena Vasconcelos, a crítica literária mais simpática da actualidade que, ainda por cima, tem a coragem e a humildade de se atrever à ficção. E fá-lo num romance com muito de ensaio e muito de biografia, que é também uma espécie de “Jane Austen para principiantes e devotos”. Contando a história de Ana Teresa – uma rapariga desfasada do seu tempo e com pais ausentes, que vai para Londres investigar tudo o que ainda não sabe sobre a sua escritora preferida –, a autora partilha simultaneamente com ela e connosco a vida e a obra de uma das mais interessantes e divertidas ficcionistas dos inícios de Oitocentos, herdeira de alguns dos bons tiques de Shakespeare e conhecida por livros como Orgulho e Preconceito, Ema ou Sensibilidade e Bom Senso (só para citar os mais populares). Parece, aliás, que o desejo de Helena Vasconcelos era escrever sobre Austen e que Ana Teresa, a avó, os pais, Rebeca, Mark e as outras personagens do romance saíram da sua cabeça para que pudesse levar a cabo a tarefa de uma forma menos académica do que num ensaio, menos exaustiva do que numa biografia e, sobretudo, mais agradável para o leitor, que acaba por andar a fazer companhia a Ana Teresa (e ela bem precisa), deliciando-se com o seu questionamento sobre o que faria a escritora britânica se se visse nos seus apuros. Um romance inesperado, que podia ter sido arquitectado pela mão de Austen, compõe esta narrativa que se lê de repente.


 

Comentários

  1. António Luiz Pacheco1 de março de 2016 às 02:30

    AHHHH! Que bom... posso ler e comentar, sem óculos!!!!!
    Extraordinário!!!!
    Saudações oftálmicas cá da Cidade Morena!!!!

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  2. Cláudia da Silva Tomazi1 de março de 2016 às 03:12

    Bom dia! Dizem: quem vai ao mar, prepara-se em terra.

    Acolhi um título bem interessante, sugestão aqui do Blog da Rosário e, inclusive alguns de meus colegas gostaram e o recomendara leitura em tratar-se o prémio Leya 2008 "O Rastro do Jaguar" de Murilo Carvalho, embora nem excluo a semelhança com o romance de Darcy Ribeiro "Maíra" o qual ambos percebe-se resposta humana a dimensão de fé.

    Tive (também) a oportunidade de conhecer os "Contos Dispersos" de Alberto Moravia ed. Bertrand do Brasil, leitura bem apreciada.

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    1. António Luiz Pacheco1 de março de 2016 às 05:53

      "O rastro do jaguar" foi um dos Grandes Romances que li nos últimos anos!
      Gostei muitíssimo!!!!
      Nenhum outro premiado se lhe aproximou sequer... colocou a fasquia altíssima!
      Saudações felinas aqui da Cidade Morena - aqui há coisa de duas semanas um leopardo (que aqui chamam onça, como no Brazil ao jaguar) matou um homem na Kalohanga, levou-o para cima de uma árvore e comeu metade... foi-me contado pelos pastores do Carivo na Sexta-feira passada.

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  3. Ando a ler pouco...

    Tenho à minha frente as "Novelas Estravagantes" do Mário de Carvalho que querem que as comece a ler...

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  4. Ando a Ler_42

    Cá continuo às voltas com a desarrumação, no metafórico pára-arranca que relatei no mês anterior.
    Kundera, tomado da sua insustentável leveza, saiu do carro a pretexto de ir comprar cigarros e esticar as pernas, prometendo que nos apanharia mais adiante. Será sempre bem-vindo.

    Ficou Sollers que, nesta “Estranha Solidão”, continuava nas suas divagações.
    “Divagações” sem ofensa, que eu vejo-as pelo lado positivo, como seja esta na pág. 44:
    «É assim que se insiste sobre algumas inépcias, vincando que, se elas são tão absolutas, o hão-de ser em compensação de qualidades também extremas. Um sonhador compraz-se em dizer que “não sabe fazer nada dos seus dez dedos”, porque a família, admirando-se de o ver tão meditativo, sempre lhe repetiu essa frase em tom de admiração; e ele supõe que “não saber fazer nada dos seus dez dedos” implica adicionar:”mas que cérebro poderoso!”».

    Estávamos neste pára-arranca , espécie de sorte-azar , quando, parado em mais uma metafórica prateleira desarrumada, por mero acaso se me depara José Cardoso Pires, a quem ofereci boleia.

    Ele, mal entra no carro, vai directo ao assunto:
    «Jogo de azar é (...) o palpite, o pressentimento, a sorte de intuição com que todo no narrador, bom ou mau, estabelece certas relações para definir a natureza. Mas é mais do que isso, e mais importante. No fundo, talvez os desocupados deste livro devam a uma situação de acaso (exterior a eles, à sua vontade) as formas de existência que lhes são impostas... Se formos a ver bem, o facto é tanto mais verdadeiro quanto é certo que o indivíduo destituído de autoridade está condenado a tropeçar a cada passo nos caprichos daqueles que a detêm como exclusivo.»

    E tira do bolso da gabardina o livro a que se estava a referir, colectânea de contos que escrevera nos anos 60 e a que chamou “Jogos de Azar” (ed. Leya / BIS, 2011).

    Recordei-me de, no supermercado onde o comprei, folheando este livro ter ficado logo seduzido pelo conto «Uma Simples Flor nos Teus Cabelos Claros».

    Mas não digo nada, que isto de encontrar por acaso livros interessantes no supermercado...
    Por outras palavras: já é uma sorte encontrar jogos de azar no supermercado...
    ... ...
    Enfim: estou aqui às voltas a ver se engendro uma metáfora como deve ser, capaz de homenagear Umberto Eco – uma vez que ninguém aqui tratou disso.
    O problema é que não consigo manejar a fabulosa Machina Aristotélica de fazer metáforas, que ele inventou em “A Ilha do Dia Antes”.
    De modos que cá tenho Eco a meu lado esperando que, com os contributos de Sollers e Cardoso Pires, lhe arranjemos aqui uma Metáfora Extraordinária.
    Uma coisa assim género: “Como, por sorte, não sei fazer nada com os meus dez dedos, nesta estranha solidão ocupo o cérebro com jogos de azar”...Hhm ... Ó Umberto , dá-me a impressão que merecias melhor...

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  5. Ando a ler (praticamente ainda só cheirei) «Judas» do Amos Oz. Amos Oz está entre os meus 'preferidíssimos'.

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  6. Achei muito curioso o paralelismo com o livro que estou a ler: "O Papagaio de Flaubert ", de Julian Barnes . O autor anda a estudar o romancista, desloca-se a França para melhor o fazer, é um ensaio o que tem em vista, mas com tanto conhecimento local evolui também para uma biografia. Além de valioso é divertido. Tem muitas similitudes.

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  7. Jane Austen não é dos «finais de Oitocentos» mas sim dos inícios.

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  8. Decidi ler António Lobo Antunes, mas ler do principio ao fim. Isto porque já era hora e também porque depois de inaugurar uns quantos livros nada me satisfazia. E apesar de ter imensos livros deste escritor nunca, mas nunca mesmo lhe dediquei duas horas seguidas de leitura. E achei que estava na hora, e foi... Agora estou deliciada com aquelas páginas, aqueles livros, até porque ganhei pânico de escrever e para desbloquear preciso de ler coisas difíceis, que me obriguem a extrema concentração. Que me obriguem a sair deste mundo caótico. Estou a ler "Arquipélago da Insónia".
    Depois seguirei para Maria Velho da Costa e Cardoso Pires. Depois, bom depois talvez consiga voltar à escrita, até lá venham livros e mais livros.
    Curiosa quanto ao novo livro que vai sair do João Ricardo Pedro. Gosto mesmo muito do autor, da sua narrativa.

    Um abraço e boas leituras.

    ps. Esta nova imagem do blogue dá muita vontade de comentar, dá a ideia de termos todos uma letra muito bonita e bem desenhada.

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  9. "Ana de Amsterdão", reunindo um conjunto de posts que não tinha lido antes no blog com o mesmo nome. Li agora o livro que goza de uma sábia seleção cronológica de textos pelo João Pedro George (o iluminado biógrafo do Luíz Pacheco). Para mim é uma grande descoberta: a autora (Ana Cássio Rebelo) é uma inovadora estilista com um incrível poder de observação da vida atual. O editor escreveu um prefácio fulgurante (aqui ou ali, acho que o George poderia ter podado um pouco mais, ampliando a tensão do texto; mas o trabalho do editor é sem dúvida soberbo). Lê-se, a certa altura, que a autora escreveu um romance que foi rejeitado por um editor. Pela qualidade literária que observei no "Ana de Amsterdão", acho que temos romancista !

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    1. Mas ultimamente só fala de sexo e encontros em pensões e etc.
      No blogue, bem entendido.

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    2. Uff ! O livro não tem tanto desvario.

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  10. António Luiz Pacheco1 de março de 2016 às 13:33

    O romance ilegal do Sr. Rodolfo.
    António Eça de Queiroz
    E a gostar! Encontrei-o aqui à venda no hipermercado Kero, ao módico preço de 1500 Quanzas... quando qualquer livro custa sempre 3500 e por aí acima...
    Uma escrita fácil, fluida mas rica, diria que bem-disposta! Nada de coisas pesadas, a reviver fantasmas e passados... uma história que mete um caricato antiquário tomado por traficante de pedras preciosas e um procurador novato, impreparado para a qualidade do Sr. Rodolfo, um excêntrico que se revela bem mais sabedor do que se julga... vamos a ver, mas é um livro que se lê com muito agrado.

    Saudações bem-dispostas desde a Cidade Morena e de um pargo com molho de iogurte...

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  11. Descobri na estante de um amigo o seguinte:
    "Poemas com Cinema", antologia organizada por: Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martello, onde se encontram reunidos 92 poemas (de 53 autores) sobre cinema.
    Escolhi o poema "CINEMAS KING (SESSÃO DA MEIA-NOITE) do José Mário Silva:

    Deixa passar oito minutos,
    entra já às escuras, segue
    o foco da lâmpada na
    escuridão. Observa,
    se puderes, o travelling
    a refletir-se, trémulo,
    em rostos desconhecidos.
    Guarda o bilhete rectangular
    no bolso do casaco e senta-te
    na primeira fila, para que a
    vista arda. Depois respira
    fundo. Sabes como funciona:
    a verdade (e a mentira) em
    24 imagens por segundo.

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