Uma questão de honra

Nas últimas Correntes d'Escritas, Javier Cercas, o romancista espanhol que venceu o prémio literário atribuído anualmente naquele certame com a sua obra As Leis da Fronteira, contou uma deliciosa história quando foi ao palco receber o galardão, tudo por causa das falsas modéstias. Ao que parece, o grande Miguel de Unamuno foi receptor de uma condecoração muito importante por parte de Sua Majestade o rei Afonso XIII. E, no momento em que fez o discurso de agradecimento, disse com todas as letras que se sentia honrado com aquela medalha que tanto merecia e ainda bem que lha estavam a dar. Parece que o rei conhecia razovalmente Unamuno e que, por isso, não estranhou por aí além as suas palavras; mesmo assim, não resistiu a perguntar-lhe porque reagia daquela forma um pouco sobranceira, afirmando que o prémio era merecido. Por ser verdade, explicou Unamuno. E, quando Afonso XIII lhe lembrou que os seus antecessores todos tinham dito sentirem-se profundamente honrados com a distinção justamente por não serem dela mercedores, o escritor retorquiu laconicamente: Claro, mas nesses casos era verdade.

Comentários

  1. Que delicia! Ahahah pelo menos fez a diferença.

    ResponderEliminar
  2. António Luiz Pacheco10 de março de 2016 às 02:10

    Ahahahah!
    Quem diz a verdade... enfim, ou pelo menos o que pensa ser devido, merece respeito por estranho ou como dizem os espanhóis "raro" que seja.

    Por vezes premeia-se a hipocrisia da falsa modéstia e pune-se quem tenha a coragem tida por imodéstia de assumir o seu valor. Há verdadeiros imbecis armados em bons que toda a gente aplaude, mas temos o exemplo de Cristiano Ronaldo que trabalha muito para ser quem é e que na sua simplicidade diz que é esse o seu objectivo, estar no topo! Mas logo um coro de virgens ofendidas lhe cai em cima a fustigá-lo porque é vaidoso... mas o que ele diz é a verdade.

    Nós portugueses somos ousados, mas tendemos a não ousar ser bons e a assumir o nosso real valor, antes gostamos de fingir que somos modestos, mas sempre à espera de, cristãmente sermos elevados porque nos humilhamos. É uma idiossincrasia, um traço nosso, sem dúvida.

    Saudações ousadas cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  3. As ironias das mentiras verdadeiras!

    ResponderEliminar
  4. Portanto, ninguém faltou à verdade junto do rei:).

    ResponderEliminar
  5. Acho que Unamuno fez muito bem.

    Também começo a estar farto de falsas modéstias, de gente que escreve livros e depois em sessões públicas diz que não se sente escritor (mas só em sessões públicas...).

    Somos o que somos.

    ResponderEliminar
  6. Uma história com piada mas falsa, até porque Miguel Unamuno nunca foi condecorado por Alfonso XIII, com quem se dava muito mal.

    A condecoração a que se refere o episódio, contado milhares de vezes por outros tantos milhares de intelectuais, é a Gran Cruz de Alfonso el Sabio, que começou a ser atribuída em 1939 por Franco. Ora, Unamuno era franquista e, só por isso, bem poderia tê-la recebido. Mas isso nunca terá acontecido, simplesmente porque Unamuno morreu bem antes de ela existir: em 1936, dois ou três meses de ter sido posto em prisão domiciliária pelo seu amiguinho... Francisco Franco.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório