Portugal-Brasil
Não é novidade que as literaturas portuguesa e brasileira andam há muito de costas voltadas; mas a notícia de que o Ministério da Educação do Brasil (MEB) iria eliminar o carácter obrigatório do estudo da literatura portuguesa chocou muita gente dos dois lados do Atlântico. O problema não está, note-se, em acompanhar o que se vai escrevendo por aqui na contemporaneidade, mas em riscar dos currículos do Secundário alguns nomes fulcrais da literatura lusófona como Camões, Pessoa, Camilo, Garrett, Eça (eu julguei que Eça fosse apreciadíssimo no país irmão, apesar de por lá terem o grande Machado de Assis) e até Saramago, a quem muitos leitores brasileiros faziam vénia cada vez que punha os pés no Brasil (e foi lá frequentemente). A decisão – que ainda não foi confirmada e só será posta em prática, se o for, em Junho – foi considerada por muitos educadores brasileiros política e populista num momento em que o MEB quer fazer mudanças profundas nos programas de História e Língua Portuguesa. E, no jornal Folha de S. Paulo, dois professores universitários afirmam que a proposta raia o absurdo e que Portugal, custe o que custar, não pode ser simplesmente apagado das origens do Brasil. A ver vamos.
É preocupante, mas preocupa-me mais o estudo (ou melhor, a qualidade dele) da literatura portuguesa nas nossas escolas.
ResponderEliminarQuando me aposentei, três anos atrás, estava praticamente restringido ao Secundários e a alguns autores -- Vieira, Eça, Garrett (Frei Luís de Sousa), Pessoa, Saramago, Sttau Monteiro. A maior parte dos alunos ficava-se por leitura apressada, nas explicações, das sebentas, por visitas de estudo aos locais (roteiro queirosiano, Mafra, etc.), e algumas peças de teatro. Muito poucos liam um capítulo que fosse dos romances obrigatórios ou interpretavam um poema.
Não adianta dizerem-me que no vosso tempo... Fui professor de português do ensino secundário de 1975 a 2012, acompanhei a degradação acelerada, lutei contra ela com unhas e dentes, perdi, desertei, já sem idade, sem esperanças, sem apoios para reverter a situação. Porque um ensino em que se não ensina nada é muito conveniente para muita gente e não raro os piores professores ocupam os lugares de direcção, precisamente porque não gostam de ensinar, não são capazes de o fazer, e dominam magistralmente outras artes que muito ajudam a singrar na vida.
E agora vou lavrar, que o dia está a pedir, pelo que não poderei ler e comentar eventuais respostas hoje.
JCC
Mas em tanto ano de ensino com certeza também assistiu a professores que liam e comentavam com os alunos, na aula, os livros de leitura obrigatória. E por certo conheceu alunos de 12º antes temerosos de Pessoa e depois rendidos.
EliminarAs direcções das escolas talvez exijam perfis de liderança diversos, talvez chamem a si professores que o não foram nunca - e também não serão bons directores -e talvez também haja gente competente e que se entrega a liderar como outros se entregam a ensinar.
Mas a entrega é cada vez mais difícil. E ainda me falta descobrir se as salas de aula do futuro, que são ou pretendem ser exemplo pedagógico e à frente do tempo - coisa que a escola nunca conseguiu -, apontam no bom sentido, o do saber efectivo.
As visitas de estudo são necessárias, mas ensinam mais a quem lê. O professor dá a ver. E ninguém é cego. Mesmo que a mensagem desvirtue, se perca em parte, se transforme dentro de cada um, desde que exista, alguma coisa deixaremos.
É nisto que acredito sempre.
Peço desculpa, ali em cima, esqueci o cartão de cidadão:)
EliminarBeatriz, concordo com tudo o que escreve, vi fazer muita coisa, eu mesmo fiz muito, não me fica bem contar, deixo essa tarefa aos meus antigos alunos, e eles têm-no feito, mas nada disso altera o que afirmo: nas escolas de Portugal também se não estuda a nossa literatura, nem outra qualquer. Não há progressão, não há nexo, os autores são raros, muitos alunos não lêem nada, os professores insistem nas actividades que rendem boas notas em exames, etc. Ainda ontem uma colega no activo me contava desesperada que os alunos nem sequer têm a obra de leitura obrigatória...
EliminarSó quem está por dentro, e a trabalhar com alunos, pode ajuizar da extensão da desgraça, que as constantes reviravoltas na política educativa só agravam.
JCC
Creio que é o eterno mal das pseudo-elites, neste caso as da cultura e da política juntas, tanto em Portugal como no Brazil.
ResponderEliminarNão passam de luminárias que se masturbam mentalmente com as ideias que têm, que ignoram a realidade pois só se ouvem a si mesmos e só vêem os que lhes interessa, tudo interpretando à luz do seu ideário pessoal ou da cartilha que professam.
Não é de agora, os modernos e os evoluídos sempre existiram e campearam, aliás foram daqui para o Brazil...
Do lado de cá pretende apagar-se o passado mesmo que não se tenha um caminho para o futuro, e vejam-se 40 anos de ensino... destruiu-se imediatamente o que havia (e funcionava!) mesmo antes de se ter um plano e saber como ia ser. Cada ministro que chega, apaga tudo e começa de novo segundo as suas ideias pessoais, quase sempre absurdas ou irrealistas pois nenhum deu aulas o suficiente para poder dizer que seja um conhecedor... veja-se a actual luminária que leva a pasta, outro a querer mudar tudo em poucos meses, que nada sabe, mas cheio de ideias e de "querer". Desmancha tudo para recomeçar (pela enésima vez) um processo a partir do zero. São quarenta anos de zeros!
Há sempre intelectos e uma elite de serviço que se põe ao serviço, e quem sofre são como sempre, alunos, famílias e os professores! Não se melhora a instrucção, nem o conhecimento nem nada... apenas se alimentam egos e satisfazem as vaidades daqueles que uns meses depois desaparecem de cena, partindo para outra coisa qualquer... e responsabilidades? Não há... nunca há, pois o sistema é assim, desresponsabiliza e seremos eternamente governados por irresponsáveis!
No Brazil... é o mesmo! Pior, pois há uma elite cultural que se por um lado cultiva e apregoa o seu tropicalismo e Sul-americanidade, por outro lado rói-se de inveja porque nós os padeiros, somos europeus... e quanto a isso não há nada a fazer nem volta a dar, vingam-se assim, tentando cortar o cordão umbilical, mas Caetanos e outros, apesar do seu anti-portuguesismo primário, não se coíbem de vir aí dar espectáculos e de vender discos... isto falando da música, na literatura sinceramente não sei, mas creio que tanto os académicos quanto os escritores brazileiros, têm uma postura algo diferente dos músicos e da elite musiqueira.
Só lamento deveras que os políticos continuem a usar estes mesquinhos detalhes para nos separarem em vez de nos unir, no que teríamos todos muito mais a ganhar.
Melhores dias virão, acredito... porque normalmente as crises é o que fazem, e que o bom-senso prevaleça. Espero que a eleição de um PR culto, assertivo, que gosta de ler e é bom comunicador seja um passo na boa direcção.
Saudações esperançadas da Cidade Morena.
E por cá a literatura brasileira passa pelas nossas escolas como deve ser?
ResponderEliminarAssis, Amado, Lispector, Veríssimo ou outros atuais com prémio Camões entram devidamente nos curricula nacionais?
Quem tem obrigação de educar os filhos são os pais...apesar de já haver cursos para os pais (patetas -eu vi-os na TV-que são actualmente em grande número) aprenderam a educá-los.
EliminarE podem? Com a carga curricular que o ensino carrega e as queixas de alguns portugueses sobre o que lhe falta de autores portugueses???!
EliminarRepare que eles nos estudam como língua de origem e influência; não é o nosso caso.
Pois essa desculpa limitada de que eles estudam a literatura da sua língua de origem e nós temos uma carga horária que não permite o estudo da literatura brasileira é mais que suficiente para compreender a atitude deles, independentemente de eu concordar ou não com a desistência por parte deles.
EliminarPara quem, como eu, nasceu num país que foi colónia de outros é bem fácil perceber como é mau esse ar de superioridade de que o País antes tutelado é que tem de preservar as influências de quem ele se libertou.
Bom. É sempre útil perceber. E compreender. Mas a génese é a génese. E não o é por ser superior ou inferior, mas por sê-lo. E como tal será estudada, é a origem da língua que se fala e que, como é da natureza de línguas vivas, evolui no seu próprio sentido, independente e livre. Mas as línguas têm, como tudo aliás, a sua história (até Deus que é aquele que é, tem uma história temporal) e uma matriz irreversível. Quem o não entenda, talvez só perceba.
EliminarTalvez a literatura brasileira não seja dada nas nossas escolas com a honestidade que se devia ter... é possível, sim, creio que não é dada!
EliminarMAS, há um detalhe da maior importância, aliás já aqui e muito bem referido: É que a língua e portanto literatura original, mãe, é a nossa, o português e não é uma questão bacôca nem de provinciano nacionalismo, mas sim de fundo, de carácter... o português é a língua que deu origem ao brasileiro e em que escreveram Machado de Assis e , Rui Barbosa... e para ser estudada e compreendida, não é lendo Jorge Amado que se aprende correctamente, por muito que se goste deste grande autor.
Essa a verdade que não conseguem obliterar os acordistas e nem os defensores do brasileirismo, tal como não nos conseguem tirar o facto de estarmos e sermos europeus, por muito que tal custe à malta do Leblon.
Saudações luso-africanas cá da Cidade Morena.
Somos a origem. A coisa primária. Temos uma língua, uma língua que semeamos e que está visto não sabemos manter de pé como a origem, a coisa primária. De repente muda-se a ordem das coisas, altera-se a ortografia para, dizem eles, uniformizar a língua, depois tumbas: eliminem lá esses escritores portugueses que já não dão nada ao ensino! Pois é, nem a origem sabemos ser. E talvez esteja a ver a coisa ao contrário, mas parece-me que o Brasil vai marcando golos atrás de golos e nós deixamo-nos golear porque temos um guarde redes maneta e um defesa coxo.
ResponderEliminarQuanto ao ensino português, muito haverá a dizer. Pena tenho que programas europeus aplicados na educação, e que até revelaram algum sucesso, não sejam tão vincados na boca dos políticos como o é (ou foi) a austeridade. Claro fica que isto de manter um povo culto e informado trará muitas chatices, melhor mesmo é deitar uma bacia de água ao brasido e enterrar as cinzas, não vá a fogueira atear de novo.
Um abraço e bom fim de semana.
Carla Pais
Ora se em horário nobre da RTP1 deste nosso Portugal há um concurso (em que se poderia aprender qualquer coisa, apesar de só às vezes se falar ali português), nem imaginação houve para escolher um título em português BIG PICTURE pasme-se)...
ResponderEliminarÉ uma tristeza! E foi, entre muitas e muitas barbaridades, ali que vi um licenciado que, apesar de ter vivido na Póvoa de Varzim, não conseguiu, nem pelas imagens, identificar a terra onde nasceu Eça de Queiroz...perante isto...
Se nós próprios não defendemos a nossa língua terão os brasileiros alguma responsabilidade acrescida?
Então não é que na passada terça-feira estava eu no espaço da pastelaria e átrio de conferências da FNAC Chiado e vi a apresentação de um indivíduo croata que nos trazia cinema em bonecos animados e a sua apresentação foi totalmente feita em Inglês, com os papalvos da plateia (portugueses) a fazerem perguntas em INGLÊS como é de bom tom...andamos sempre agachados como referi ao indivíduo (português) que apresentou o artista...
A vida de muita gente que o mandante da revista egoísta e com todos os negócios do Casino realizou o maior despedimento colectivo para seu beneficio destruindo a vida desta gente com a corrupção paga por OFFSHORES.
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