O cheiro do passado

Há tempos assisti a uma conferência brilhante de José Tolentino Mendonça sobre os sentidos e como lhe prestamos tão pouca atenção na actualidade. De todos eles, aquele que mais depressa me consegue transportar ao passado é o olfacto – e gosto muito de ser levada de repente a um tempo antigo ou a alguém que deixei numa outra parte da minha vida por um perfume que, subitamente, se cruza comigo na rua ou por um odor de comida que sobe do meu prato durante um jantar. Estou a ler um livro que associa cheiros a episódios de uma autobiografia, mesmo que entrecortada, e a gostar muito. Chama-se justamente Perfumes e escreveu-o Philippe Claudel, autor de outros livros que me encheram as medidas, especialmente Almas Cinzentas, um dos meus preferidos de sempre. Todas as nossas idades têm cheiros facilmente identificáveis, mas eu, que nasci na capital, nunca me poderia gabar do odor dos pinheiros e das acácias como Claudel, que passou a infância no campo. Já o bafio me diria qualquer coisa (os armários da minha húmida Ericeira nunca lhe escapam), bem como o after-shave que ele associa ao pai barbeando-se na casa de banho e que também eu poderia associar ao meu. Mas há muito mais matéria olfactiva para descobrir nesta pérola literária, sumamente bem escrita, sobre uma vida contada também pelo nariz. A não perder, claro.

Comentários

  1. O cheiro da terra molhada, o cheiro dos míscaros nos pinhais, o cheiro das fogueiras de Natal que o meu pai fazia, o cheiro do cacau quente em casa da Ti Aurora ao fim do dia da matança do porco, o cheiro das rosas bravas por cima do chafariz da Marteanes, o cheiro dos ramos de flores silvestres e goivos, que oferecíamos a Maria no seu mês de maio, o cheiro do feno acabado de cortar e que tínhamos de pôr em montes para alguém com braços mais fortes atar, o cheiro da peliça do meu pai no canto da lenha, o cheiro dos meus cabelos ao vento, depois do banho de sábado, a andar de bicicleta e a saborear o crepúsculo quente dos dias compridos... e tantos outros cheiros a que volto de vez em quando, mesmo que apenas em memória, pois alguns já não se repetem e outros deixei de os sentir desde que abusei de umas gotas para o nariz aqui há uns anos. Ficarei de olho nesse livro, sim. E por falar em perfumes, lembrei-me logo do Perfume, um livro singular!

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  2. Emílio Gouveia Miranda29 de março de 2016 às 03:26

    O primeiro cheiro de que me lembro, é o de caranguejos a cozer, numa tarde de sábado, em Luanda. Foi nesse dia que nasci para a vida. Nada para trás existe na minha memória e esse é o primeiro momento - dia - em que me lembro de estar vivo. Vivo de cheiros.

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  3. Cláudia da Silva Tomazi29 de março de 2016 às 04:07

    Sim. Literatura fascina.

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  4. Em relação a cheiros e sabores que perduram na memória lembro-me de duas situações: em 1972 fui para a guerra colonial na Guiné-Bissau onde havia mangas que eu julgava ir saborear pela primeira vez.Quando trinquei a primeira manga grande foi o meu espanto porque afinal aquele sabor e cheiro já o havia experimentado nos anos 50 no Brasil onde estive dos 3 aos 4 anos. Outro cheiro também do Brasil e que conservo até hoje é o das flores do jasmim que existiam no quintal da nossa casa onde morávamos na Rua Marechal Hermes suburbio norte do Rio de Janeiro. A memória é uma cisa fantástica não é?

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  5. Tanta leitura a não perder:)
    E tanto cheiro que se nos entranha. A nossa vida tece-se com eles. E alguns teimaram em ficar. Para o bem e o mal. Porque também as grandes tristezas têm cheiro. Ou há um cheiro que lhes associamos. E as pessoas. Cada um de nós. Não o cheiro dos perfumes em nós que também é específico, mas o nosso.

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  6. Os cheiros são muito importantes na minha vida, para o melhor e para o pior. Eu explico: tal como outros Extraordinários já referiram, o cheiro da terra molhada é fascinante, e consigo aperceber-me da diferença entre o cheiro que sentia no bairro onde morei em Lisboa, do cheiro que agora sinto, qdo chove no Funchal, um clima semi-tropical , é avassalador. Também adoro o cheiro dos bosques de pinheiros e/ou de eucaliptos, ou então o cheiro da maresia, ou então, os cheiros das especiarias que se soltam da cozinha e vêem ao meu encontro! Por outro lado, incomodam-me os cheiros muito ativos , por. exemplo: perfumes, detergentes, etc.

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