Como escrever

O meu irmão, que foi em tempos professor numa universidade americana (a Brown, em Providence) falou-me de bibliotecas abertas toda a noite e de estudantes extremamente aplicados, que nem ao fim-de-semana saíam, de tal forma era exigente o currículo e caras as propinas (não havia ninguém que pusesse sequer a hipótese de chumbar porque os pais se endividavam muitas vezes para os filhos frequentarem aquela e outras universidades). Há pouco tempo, pus os olhos num artigo sobre os livros que os estudantes das universidades de topo dos EUA – o MIT, Yale, Princeton, Harvard, Columbia, etc. – tinham de ler; e muitas das obras não constituíram grande surpresa: a República, de Platão, O Contrato Social, de Rousseau, a Odisseia, a Democracia na América, de Tocqueville, O Príncipe, de Maquiavel, além de Hobbes, Aristóteles, Thomas Kuhn, Samuel Huntington ou mesmo o mais recente Nobel da Economia Joseph Stieglitz. Mas em quase todas as listas aparecia um autor que, para dizer a verdade, não me dizia mesmo nada, um senhor chamado William Strunk, conhecem? Fui ver então por que diabo era aconselhado de leste a oeste, chegando à conclusão de que o seu livro The Elements of Style é na verdade uma pequena bíblia de estilo, considerada desde 1923 pela revista Time uma das cem obras mais influentes em língua inglesa; escrito originalmente em 1920 (mas actualizado posteriormente por E. B. White), compreende regras fundamentais para a composição de um texto, incluindo um rol de palavras e expressões que as pessoas costumam usar de forma errada e outro de palavras que a maioria escreve com erros. Embora já não esteja em idade de redigir trabalhos universitários, hei-de espreitá-lo para ver se ele pode ajudar alguns escritores mais jovens a fazer melhor.

Comentários

  1. Ora bem: quando cursei Ciências Agrárias, na Universidade de Évora, que seguia o modelo americano (era-nos dito assim, mas anos depois frequentei a Universidade de Cornell nos USA e percebi que nem por isso), tínhamos uma cadeira logo no 1º semestre, de Estilística Prática. Ali aprendíamos rudimentos de escrita, com o objectivo de aprendermos a fazer relatórios, trabalhos escritos, apresentações, etc.

    Foi-me útil! Reconheço... e ainda hoje recorro a técnicas como o "topicalizar" por exemplo.

    Por curiosidade, o docente da cadeira era o Dr. Sousa e Costa, casado com a professora de francês, Anette Sousa e Costa. Eram um casal característico, hippies reciclados e sobreviventes do Maio de 68 (ela francesa, ele tendo estudado em Paris), que por usarem o cabelo comprido e por norma despenteados eram por nós conhecidos como "o casal ventoso"... eheheh!

    Não conheço o sistema universitário americano, mas o tempo que passei na Universidade de Cornell, em Ithaca estado de NY, deu-me uma idéia de não tem nada a ver com o nosso!

    Lá, era caro tirar um curso e os alunos faziam sacrifícios... o gerente da loja de recordações era um sino-americano, advogado e pai de família que estava a fazer um mestrado, e trabalhava na loja para ajudar às despesas! Muitos estudantes trabalhavam para a Univ. como jardineiros no campus, no hotel que esta possui, em restaurantes e bares, lojas... é que a Univ. era uma cidade universitária, ao lado da cidade de Ithaca, com vida própria, quartel de bombeiros, esquadra de polícia, habitações do pessoal da Univ. etc.
    E, nunca dormia! Estava sempre tudo aberto, campos de jogos, restaurantes... e havia sempre gente em movimento. Um Mundo completamente diferente do das nossas... e nem por isso via malta bêbeda, a fazer tristes figuras... quem lá estava era para trabalhar duramente, sem dúvida. E notem que nem sou grande admirador do american way of life...

    Saudações e recordações cá da Cidade Morena
    a p c

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  2. Não sei se esses livros fazem bem a quem escreve.

    Cada autor deve ter o seu cunho pessoal.

    Vou cada vez mais pelo que Zé Cardoso Pires dizia, que era mais ao menos isto: para se ser escritor, é preciso esquecer a gramática e todas aquelas regras que nos ensinam e não cabem nos livros...

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    1. Já foi tema de discussão acesa (e feia, com o negregado Lacerda) ... recordo!

      Mas, inteiramente de acordo consigo: sou dos que acreditam que o escritor é-o por inspiração e não porque aprenda a escrever, se bem que - óbviamente - a técnica se pratique e melhore o que se escreve! Assim fosse e qualquer secretária, repórter, etc. , seriam magníficos escritores!

      No entanto, esta coisa da estilística, é útil para o comum do cidadão sobretudo escolar... porque ajuda a organizar, a fazer um texto com princípio, meio e fim, e portanto a conseguir comunicar por escrito. Suponho que não permita escrever um romance...

      A maioria do pessoal, universitário inclusive, tem dificuldades várias em escrever, é algo que constato.

      Um abraço cá da Cidade Morena, hoje chuvosa!

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    2. Efectivamente se um puto não tem jeito para jogar à bola escusa de ir prás escolinhas de futebol do Pedro Barbosa! Há coisas que nascem!

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  3. Um livro de certeza interessante e útil.
    Muito útil para quem escreve também este livro: As cinco primeiras páginas - e eu pensando que eram as 21 primeiras. :)

    «É frequente os bons poetas serem bons prosadores, pois trazem para a sua escrita anos de experiência em que estiveram muito atentos ao som das palavras, ao ritmo, às pausas, a pequenos elementos como a aliteração ou o eco.»

    «Quando tocamos as notas certas num piano e as deixamos reverberar, se estivermos atentos conseguimos ouvir as ondas subjacentes à música... as notas musicais não são constantes... reverberam em ondas minúsculas, cada vez mais altas e suaves.»

    (As cinco primeiras páginas)

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  4. Um canhenho com algumas regras básicas até que teria a sua utilidade para todos.
    Já não haviam tantas pessoas a escrever com erros. Tem muito a haver com isso. Ainda hadem fazê-lo. Prontos.

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    1. Eheheheh!

      Mas os erros, ortográficos, esses só mesmo na escola. Escrever correctamente (ainda que com erros ortográficos) é que é o busílis. As famosas redacções, eram para isso mesmo... uma forma básica de estilística prática, assim como os trabalhos escolares de geografia, história, ciências da Natureza, que obrigavam a ir procurar informação e a aprender a coligi-la, organizá-la, a usar fotos e recortes, etc. Lembro-me das idas às embaixadas ou similares a pedir folhetos para trabalhos da escola! E de irmos a feiras e outros eventos e recolhermos sacadas de material visual para depois ilustrarmos trabalhos ao longo do ano!

      Eheheh!

      Saudações saudosas cá da Cidade Morena

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    2. O saudoso Dr. Simões, e a mulher, meus professores de geografia no secundário, já me conheciam tão bem, que chegavam a proibir-me de fazer sempre trabalhos sobre temas Africanos!
      Ahahah! Obrigavam-me a escolher outros países, para me ajudar a ilustrar - hoje se calhar seria anti-pedagógica esta atitude...

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  5. Estando na minha fase mais estudiosa - cada vez acredito mais que só depois de ter cursado cinco ou seis ciências poderei dizer com assertividade que sei, cada vez menos nada saber, confrontei-me com um douto docente Americano em Metodologias das Políticas Públicas que, falando pouco Português no meu paper " da unidade, me riscou "Políticas Públicas Europeias" - que escrevera - tal e qual como acabei de as mencionar, caps " ligadas - tendo as substituído do alto da cátedra por políticas públicas europeias.
    Como escrever está mesmo na Academia eivado de... como diria a Cristina Carvalho do termo possidónio ou possidónios... como escrever é cada vez mais, para mim, um exercício de liberdade e afectividade, um mix integral de Brasileirismos, com Cabo-Verdianismos - que bem sabe ouvir o colega Cabo-Verdiano com alguns termos sonoros, arrevesados, ou os colegas Brasileiros com aqueles Brasileirismos tão Gabriela, Cravo e Canela, tudo fruto de uma língua evolutiva, rica, cada vez mais navegando livre, absorvendo a maresia num oceano global, dançando à bolina Kuduros ", capoeiras, mornas, bailinhos , com as caravelas.
    Há regras para um modesto anarca-libertário , ou apenas um defensor intransigente da liberdade individual e colectiva, que são mesmo para levar para a cova.
    De preferência, obviamente, carregadas com muito amor e felicidade, únicas regras que devemos cumprir de forma integral em compita com o respeito e liberdade do outro.

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  6. Parece-me interessante. E não só para estudantes e escritores. Também para curiosos dos meandros da língua. O que não sei é se se aplica ao português ou se são normas restritas à língua inglesa. Haverá, provavelmente para os dois gostos: erros e confusões universais e específicos.

    E decerto ajuda muito universitário de língua inglesa a redigir melhor. Uma ideia a ponderar pelas universidades portuguesas. Mas quem sabe, nem há obra que lhes sirva.

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  7. Incomparavelmente melhor é o The Sense of Style, the Steven Pinker (é mais difícil, porque mais profundo, mas bem mais útil). O Elements of Style cai em muitos mitos da língua inglesa e o facto de ser muito usado deve mais à inércia do que à qualidade.

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  8. Que bela prenda que a Rosário nos deu, sobretudo aos que adoram ler em inglês ! É que há um PDF de acesso livre: já o estou a imprimir para ler durante este fim de semana. Apanha-se aqui:
    https://faculty.washington.edu/heagerty/Courses/b572/public/StrunkWhite.pdf

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  9. Eu tenho esse Elements of Style algures por aqui em formato eletrónico. A ideia com que fiquei - li um bocadinho em tempos - é que serve para quem escreva em inglês (muita gente, bem sei) e que será dificilmente traduzível. Quanto a bibliotecas universitárias abertas 24 horas, conheço pelo menos uma aqui em Portugal, no Técnico Tagus Parque. Aposto que haja outras. Quanto às leituras americanas obrigatórias, pena que nem assim os libertem de tiroteios salteados, inclusive nos campus, e de outras trumpalhadas que aí se perfilam.

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  10. Cara Maria do Rosário Pedreira,

    Tomei conhecimento do livro "the elements of style" através do livro "escrever, memórias de um ofício", de Stephen King, da temas e debates, editado em 2000, penso eu.

    Fiz um workshop de escrita de romance com o João Tordo em que ele também o referiu, e um curso online com o João de Mancelos, onde o livro também constava na bibliografia.

    Consegui fazer o download do livro em inglês. São poucas páginas. Mas penso que não existe em português. Nem sei se fará sentido, visto a língua ser diferente. Confesso que o meu sonho de escrever um livro ficou um bocado adormecido, e nunca cheguei a ler o tal manual na totalidade.

    Gosto muito do seu blogue.

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    1. Caro Fernando Ferreira:

      Não adormeça! Ainda que tenha tomado consciência da difícil empreitada que pode ser (e é) escrever um livro, se é esse o seu anseio, cumpra-o, nem que seja para si e os amigos!

      Ter um Ferrari ou um Rollex Platina, são coisas assaz complicadas para nós gente comum... mas escrever, depende apenas de si e de começar!

      Não sou exemplo e nem escritor, mas aos 54 escrevi finalmente o romance que andei a mentalizar uma vida inteira. Não foi nenhum sucesso - excepto junto dos meus conhecidos e leitores das revistas - mas o que me importa isso?

      Costumo dizer que o que é bom em ser criança é ter sonhos, e o que vale a pena em ser adulto é cumpri-los...

      Cumpra pelo menos esse sonho, desperte!

      Um abraço amigo cá da inspiradora Cidade Morena, onde ando a cozinhar outra incursão à escrita... eheheh!

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  11. Cláudia da Silva Tomazi25 de fevereiro de 2016 às 15:49

    Família de Doutores a Rosário!

    Parabéns os pais a formação.

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