O de sempre
Já aqui trouxe a questão, é um facto, mas quase sempre a restringi aos maus hábitos do nosso pequeno Portugal. A verdade é que a política da borla, ou de fazer trabalhar de borla, no tocante aos escritores acontece pelos vistos em muitos sítios, e o Reino Unido parece ser um deles. O director do Festival Literário de Oxford (FLO), que em vinte anos não recebeu um centavo pela sua participação, explicando que, a princípio, a organização era pequena e não tinha verbas e trabalhou quase por patriotismo, cansou-se – e acaba de se demitir porque o FLO não quer pagar aos escritores convidados. Diz ele que hão-de pagar às senhoras da limpeza, aos designers, aos cozinheiros, aos motoristas, aos assessores de imprensa, enfim, a toda a gente que trabalha para que o FLO seja um sucesso… excepto aos escritores, que são a verdadeira razão do encontro, aquela que fará, na verdade, com que alguém compre um bilhete para ir ao certame. Como diz o senhor Philip Pullman na carta que escreveu a explicar os motivos da sua demissão: Enough is enough. Lá como cá.
E com toda a razão. E se é um festival onde se paga para assistir...
ResponderEliminarMas todos os maus hábitos são difíceis de "vencer"...
(ainda ontem cometi uma "gaffe" de todo o tamanho, contra a classe, ao dizer que gostava sobretudo de oferecer os meus livros... Embora seja verdade, desvaloriza todo o trabalho dos escritores)
Muito interessante esse artigo de desabafo do escritor Philip Pullman. Tinha-o também lido online no Guardian da semana passada. Já agora aqui vai o link:
ResponderEliminarhttp://www.theguardian.com/books/2016/jan/14/philip-pullman-resigns-oxford-literary-festival-patron-pay-authors
Fenomenal achei, também no Guardian, um artigo (“Struggling as an author? Stop writing only what you want to write”) de um “ghostwriter” (e também escritor de alguns romances) chamado Andrew Crofts que traça sem disfarces a vida dura de quem quer viver da escrita literária: uma quase impossibilidade. Como ele diz, para quem aspira a ser escritor profissional a probabilidade de que o venha a ser são iguais ao de ganhar o primeiro prémio da lotaria. O conselho dele para quem a aspira a ser criador literário: prepare-se para dedicar a essa atividade criativa (a que ele chama “passion writing”) apenas uma pequena parte do seu tempo. A maioria das horas terá que ser ocupada a procurar e aceitar encomendas de escrita para outros para poder pôr pão em cima da mesa. Aqui vai o link:
http://www.theguardian.com/books/2016/jan/06/struggling-authors-earn-a-living-through-ghostwriting?utm_source=esp&utm_medium=Email&utm_campaign=Bookmarks+base&utm_term=148449&subid=16465837&CMP=EMCBKSEML3964
Realmente é absolutamente incompreensível como é que se não se alimenta o coração da máquina. E como é que o Sr. Philip Pullman aguentou esta autêntica velhacaria (de usurário)? Quem é que, durante vinte anos, foi fundamental para fazer funcionar a máquina? Inimaginável e para mim incompreensível.
ResponderEliminarSinceramente, trocando de saco por mala Silverstone emprega os mais bem pagos do planeta a pilotarem uma das mais belas invenções e, farei um "pit stop" (por orientação) o quê de questionar qualquer escolha a tratar-se a mais bela invenção do homem a esferográfica.
ResponderEliminarSeria correcto o termo dispensa a tratar-se voluntário. Pois não?!
Pois não?????
EliminarParece-me uma situação semelhante à dos atores de teatro. Com exceção das estrelas, que são aqueles que nos fazem conhecer, os outros levam uma vida dura, mal remunerada, no desconhecimento do que é o seu futuro. Entre estes há pessoas de imenso talento mas a quem a roda da fortuna não tocou. Mesmo assim insistem, levam a sua avante, impelidos sabe-se lá por quê, talvez por uma luzinha que brilha no fundo da sua alma, um afã de criar. A única vantagem que lhes vejo é terem virado as costas para a vida desinteressante e rotineira de quase todos nós, a apagada e vil tristeza da existência comum.
ResponderEliminarParece tão óbvio que deviam ser pagos que nem deveria ser questão. Se ainda fossem tertúlias informais...
ResponderEliminarOutro dia via a notícia de cerca de 1000 empresários que pagaram 490 euros para assistir, na Porto Business School, a uma conferência com 3 gurus da gestão. De certeza que eles receberam os seus valores para falarem sobre a sua experiência.