Bilinguismo

 Os filhos de uns amigos portugueses que foram trabalhar para o estrangeiro quando a crise lhes bateu à porta já não falam praticamente português; percebem tudo, e respondem aos pais com monossílabos ou dissílabos internacionais (Okay, Ja, Yes...) ou uns refilares bem lisboetas, mas entre eles e na escola já só comunicam em inglês, pelo que vão provavelmente esquecer a língua materna não tarda nada Acontece muito a quem vive e estuda fora desde pequeno e, mesmo que seja uma pena – eu cá sempre adorei o bilinguismo –, é quase inevitável. Nos EUA, onde há muitos luso-descendentes, mais concretamente em Brockton, no Massachusetts, uma escola resolveu, porém, tentar emendar a mão. Num programa que contempla exclusivamente crianças oriundas de famílias de expressão portuguesa, experimenta-se agora aquilo a que a directora chama a «imersão» no português, leccionando metade das disciplinas na nossa língua e a outra metade na língua do país de acolhimento e promovendo, assim, o verdadeiro bilinguismo. A proposta pareceu agradar a vários pais, pois, ao que leio, vai ser preciso fazer um sorteio para encontrar as 50 crianças felizardas que, divididas em duas turmas, vão poder desfrutar deste ensino bilingue. Talvez seja mais produtivo do que, como vi na Suíça, mandar os filhos aprender a língua dos pais apenas uma vez por semana – e, o que é terrível, no único dia em que não há aulas...

Comentários

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  2. São boas notícias vindas da região para onde tantos açorianos imigraram primeiro como baleeiros e depois para trabalhar em fábricas. Hoje, com tanta imigração cabo-verdiana e outros luso falantes na Nova Inglaterra, faz todo o sentido esta iniciativa. Já agora: o jornalista Mike Rezendes , figura chave do caso retratado no filme do caso spotlight , tem ascendência açoriana, quiçá seja longínquamente relacionado com o malogrado diretor do DN, Mário Bettencourt Resendes . Uma família de genes jornalísticos?
    Eu tenho filhos nascidos nos USA que regressaram sem falar uma palavra de português (mas compreendendo a língua dos pais). Como regressámos antes da sua adolescência, a transição linguística demorou apenas três meses e foi fácil passarem a falar e escrever português.

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  3. Há muitas teorias sobre as virtudes e desvirtudes do ensino bilíngue. Basicamente, falamos na língua em que mais precisamos comunicar. Dantes eu pensava que a minha língua-materna era o alemão, depois pensei que era o inglês e hoje oscilo entre o inglês e o português para fins de socialização. Hoje-em-dia acho que tenho o alemão numa lástima mas se estiver imersa em alemão uns dias, a língua volta naturalmente e o português passa-me a sair com sotaque. Depois dá-se o vice-versa e assim por diante, tirando o inglês porque estamos sempre imersos no inglês (ou eu, pelo menos estou). As pessoas comunicam na língua que lhes dá jeito e tão depressa se socorrem mais de uma como de outra.

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  4. Os suíços não querem mesmo que as crianças aprendam. Ou então pretendem que o português seja entendido como castigo. E uma vez por semana toda a gente sabe que é insuficiente, dado o intervalo entre aprendizagens.

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  5. Eu sou professora de português na Suíça e da minha experiência pessoal, o facto de os alunos falarem ou não português depende em larga escala da comunidade onde estão inseridos, daí as discrepâncias tão grandes dentro de um mesmo país. Onde leciono a comunidade portuguesa é bastante grande, por isso os meus alunos falam todos bem português (a escrita é outro assunto!), mas sei que há outras regiões, principalmente onde o francês é a língua oficial, onde os alunos usam o francês como língua de comunicação e de socialização, só usando o português na escola e com a família (e é quando não falam em francês com os pais!)
    Acho que a ideia dessa escola devia ser replicada em tantos outros sítios!

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