O que ando a ler

O Luto de Elias Gro, romance de João Tordo publicado há cerca de um ano com o selo da Companhia das Letras, foi, curiosamente, escrito por Lars D., personagem do mais recente O Paraíso segundo Lars D., também de João Tordo. Confusos? Não fiquem. O que quero dizer é que, neste novo livro de Tordo que ando a ler – e que tem como personagem Lars D., um escritor doente e terrivelmente amargurado –, aprendemos que ele deixou um livro terminado antes de desaparecer de casa num belo dia e que essa obra tem o título do romance que João Tordo publicou há um ano (e que ainda não li). Esta é, porém, apenas uma marca deste autor que, desde que me lembro, gosta de usar personagens de uns livros noutros livros e de ligar romances que, às vezes, não têm outros laços além de um pequeno pormenor como esse. O Paraíso segundo Lars D. conta a história de uma ausência demasiado presente – a de Lars, um homem de meia-idade que encontra uma rapariga bonita a dormir dentro do seu carro e que, oferecendo-se para a levar à estação de comboios por sugestão da mulher, para que ela encontre um caminho que já perdeu, não mais regressa a casa. É esta mulher abandonada que nos narra a história, não a do que realmente aconteceu ao marido depois de ter saído com a rapariga (essa ser-nos-á relatada por um narrador impessoal numa segunda parte e tem momentos muito fortes), mas a do seu casamento de anos com o escritor e a da grande cumplicidade que encontra num jovem vizinho, estudante de Teologia, com quem acaba por partilhar o drama que está a viver. Um livro sobre o medo e a solidão e sobre a incapacidade que alguns têm de viver a alegria.

Comentários

  1. É interessante esta forma de relacionamento entre obras. Até porque, no final, tudo se resume a uma só obra tentada de muitas maneiras. Tenho um ou dois livros do autor, mas nunca li nada dele. Um dia destes, quem sabe...

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  2. Estou a ler dois livros em simultâneo. Um está na mesa de cabeceira e outro anda por aí comigo.

    Falo de "Histórias de Mulheres" de José Régio, que estou quase a acabar. Apesar da sua simplicidade - até nas histórias das mulheres escolhidas para personagens - gostei do Régio contista.

    O outro livro foi uma descoberta, "Cemitério dos Desejos", romance do filósofo José Gil. Não fazia ideia de que ele escrevia ficção...

    O melhor deste segundo livro é fazer-me escrever, dar-me ideias (mesmo sem terem nada a ver com o que estou a ler...), ser sugestivo. provavelmente pela sua "loucura" aparente...

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  3. Nelson DeMille, Quando A Noite cai (Marcador)

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  4. Hum ... não, obrigado, passo! Como aliás passo a maioria dos escritores portugueses actuais, é que eu não tenho medos por aí além, nem da solidão pois esta é minha companheira e até me ajuda a criar, tal como vivo a minha alegria, sou um homem da luz, do campo e do mar que não tende para a depressão.

    Bom, falo dos escritores badalados e de sucesso promovidos pelas editoras, excepto talvez José Luis Peixoto que consegue sair um pouco dessa negritude. Porém leio e gosto dos outros, dos desalinhados, cujos livros me vêm vindo parar às mãos, com quem converso e troco ideias e estão mais para o meu sentir e viver.

    Li, e gostei, de Pedro Almeida Vieira - Assim se pariu o Brazil. Aliás recomendo vivamente, se bem que não seja um romance.

    Ando a ler, e estou a gostar, No coração do mar - de Nathaniel Philbrick. Não vi o filme e nem faço tenções de ver...

    Ponho-me a pensar que o naufrágio do Sepúlveda daria certamente um Óscar se um realizador de peso e com mão para estas coisas olhasse para ele, mas aposto que nem se lembram que Portugal existe e tem uma história trágico-marítima riquíssima...

    Saudações marítimo-litorais aqui da Cidade Morena!

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  5. Li «O Luto de Elias Gro» muito recentemente, logo seguido do primeiro volume da biografia do norueguês Karl Ove Knausgård. Tão depressa não consigo entrar num livro negro como parece ser o último do Tordo. Estou a intercalar com algo menos dramático, «A pintora de plantas» de Martin Davies.

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  6. Tem 70 anos, está bem na vida, vive confortavelmente mas, um dia depois de celebrar as suas bodas de ouro, vê-se obrigado pela sua mulher a deixar para sempre o domicílio conjugal e é assim que F.Mayol inicia "A VIAGEM VERTICAL" - Enrique Vila-Matas é um bom escritor e este é mais um bom livro deste escritor catalão.

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  7. Estou a reler O TALENTOSO MR . RIPLEY da Patricia Highsmith . Estou a relê-lo porque o integrei no programa de leituras da comunidade LERDOCELER e continuo a achar este livro muito bom.

    Acabei de ler O FIM DO HOMEM SOVIÉTICO de Svetlana Aleksievitch : importantíssimo lê-lo! É um mergulho no mistério do ser humano. Um passo na sua decifração...

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    1. Hum... fiquei alerta com o seu conselho, pois já não é a primeira pessoa que me o aconselha, se bem que as que me falaram dele ( O fim do h.s.) o fizessem imbuídas de motivos menos motivadores, e nem por isso sendo própriamente gente da leitura. Por isso a sua observação é mais para ser levada em conta, se me permite dizê-lo.

      Cumprimentos da Cidade Morena, onde o homem soviético (e cubano...) andou, eheheh!

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    2. Perdoe-me o péssimo português... um bocado ambaquista... eheheh!

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    3. Para mim, lê-lo foi compreender (ou continuar a não compreender, a espantar-me desmedidamente) que, como dizia o outro (e não era bem assim que dizia) o ser humano é um abismo...

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    4. O português ambaquista não tem de pedir perdão ao português europeu...

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  8. Li tudo, e com imenso prazer, o que João Tordo publicou até ao Elias Gro. Para mim, claramente, o João Tordo é o melhor escritor da sua geração.
    Confesso que não consegui chegar ao fim deste livro. Demasiada escuridão temática e, sobretudo, uma acentuada mudança estilística: frases secas, enxutas e, por vezes, com um enredo cujo seguimento é difícil de compreender, muito menos de nos seduzir, como acontecia sempre nos romances anteriores do João Tordo. Temi até, mas devo estar errado, que o João Tordo tenha enveredado em definitivo por uma via António Lobo Antunes, à procura da “literatura pura” que não faz concessões aos leitores, que lhes dificulta o prazer, que os castiga não só com o sofrimento interior dos personagens mas também com a sua imprecisão, e com uma penúria de palavras e metáforas.
    Eu, egoisticamente, desejo que o Tordo saia rapidamente da via antunisiana e regresse à via austeriana. Mas o que mais temo é que ele de antunisiano passe llansoliano. Terei que folhear a sequela do Elias Gro. Há sempre que ter esperança: o João Tordo é um imenso escritor ! (e, o mais provável, é que todos os meus anteriores comentários sejam errados e que o defeito seja meu).

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  9. Ando a Ler_41

    No engarrafamento dos livros que foram ficando para trás encontrei dois, que tenho andado a ler em pára-arranca.
    Como ainda falta muito para chegar ao fim da viagem, não posso fazer mais do que transcrever aqui duas ou três coisas que me foram dizendo os meus passageiros, e que muito me... como dizer?... muito me deram que pensar.

    Philippe Sollers, de ”Estranha Solidão”, seu primeiro romance, escrito aos vinte anos, em 1958 (ed. Livro de Bolso, Portugália Editora) :
    «Principiei a escrever. Tinha só vinte anos, não ignorava que seria mau, de começo, o que ia escrever, e que assim devia ser se quisesse atingir um dia a perfeição do meu entusiasmo provisório. Lutar corpo a corpo, em sentido próprio. Conheci o desânimo, a dúvida (quando não era a aversão). De um dia, só aproveitava alguns minutos favoráveis, o resto gastava-o a provocá-los. Enfim, com toda a energia, toda a inquietação de que era capaz perante o mundo, estava consciente de que iria consumi-las neste problema esgotante: tanta obscuridade vale uma luz tão intermitente, mas inapreciável?» (pág. 108).

    Milan Kundera, do seu famosíssimo ”A Insustentável Leveza do Ser”, (Publicações Dom Quixote):
    A propósito da leveza, diz ele que «Não existe nada mais pesado que a compaixão. Mesmo a nossa própria dor não é tão pesada como a dor co-sentida com outro, pelo outro, no lugar do outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos.»
    Fiquei com dúvidas. Mas ele, mais adiante, parados num semáforo:
    «Para duvidar (...) é necessário um esforço gigantesco e muita prática.»
    E eu, retomado a marcha, sussurrei para comigo mesmo: «Para duvidar como deve ser...»

    Liguei o rádio. A Antena 2 estava a passar o Quarteto “Es muss sein” opus 135, última obra de Beethoven.
    “Es muss sein” traduz-se “Tem de ser”.
    Kundera aproveitou para dissertar longa e variadamente sobre este tema.
    Não cabe aqui transcrever tudo o que ele disse em várias partes do livro, mas vale a pena ir, por exemplo, às pág. 42 e 43, e mais adiante, às 224 e 225.
    De novo parado num semáforo, fiquei a matutar nesta: «O herói beethoveniano é um halterofilista de pesos metafísicos.»

    ... ...

    Mais um esforço e lá chegarei ao fim da viagem nestes dois livros.
    “Es muss sein!”

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  10. 'Cossacos, uma novela do Cáucaso' do Tolstói. Não sei como é que deixei que esta genial obra (de juventude) que estava lá nas baixezas da pilha-por-ler (quase do pré-câmbrico mesmo...), demorasse tanto a ser desenterrada. Apetece parafrasear, porquê 'não só' ler os classicos?

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  11. Ando talvez a misturar coisas a mais: ainda, e com dificuldade, A Serpente Emplumada de DHLawrence, confirmando o fascínio do México mas concluindo que o escritor era provavelmente racista, e Luz Antiga de Banville por culpa dum post aqui aparecido há dias. Neste caso posso certificar a tendência poligâmica do autor, aqui desvendada. No entanto, o foco principal da leitura em curso tem sido um pequenino livro de Manuel de Freitas que encontrei há poucos dias na Pó de Livros: Incipit. Trata-se duma análise das primeiras obras de alguns poetas portugueses marcantes que iniciaram a sua atividade na segunda metade do século passado, começando pela Perseguição de Jorge de Sena e acabando em - vou folhear para ver... - O Sino de Areia de José Miguel Silva. Leitura bastante inteligível, o que nem sempre é habitual neste tipo de obras, e que me obriga a relembrar autores e poemas, ou, em muitos casos, a procurá-los e descobri-los. Uma coisa de que eu gosto.

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    1. Extraordinário... acredita que tenho talvez uma primeira edição de A serpente emplumada? E que a li... sei lá... teria uns 13-15 anos atraído pelo exotismo, quer da capa quer depois do tema!

      Ah! Mas terei de ler outra vez... sem dúvida!

      É extraordinário!

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    2. A capa é realmente apelativa e a cultura asteca sempre me atraiu com as suas divindades de nomes difíceis de fixar. A Serpente Emplumada é Quetzalcoatl. A edição que tenho é de 1996, Publicações Europa-América, Coleção Grandes Clássicos do Século XX, que consegui comprar em Dezembro passado.

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    3. Certo! O romance foi escrito em 1920 e tal... a edição que tenho (era de meu avô) creio que é por aí... 20 e tal ou 30 e se bem me recordo é tradução e edição brasileira, mas sinceramente não tenho a certeza. A capa é mole mas com um grafismo atractivo sobre a dita plumitiva cobra.

      Quer uma engraçada? Ontem a minha empregada Mariana estava a passar diante da TV (como seu hábito) e na TV Record onde assiste a novelas mexicanas dobradas e programas de entretenimento brasileiros. Numa espécie de "apanhados", o apresentador ria muito e declarava que o americano não falava "brasileiro" e depois repetia que a modelo só falava "brasileiro" e nada de "americano"... Imagine-se a estupidez e a falta de cultura do apresentador que deu logo duas calinadas de cabo de esquadra... língua brasileira e americana...

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    4. Na contracapa do meu exemplar indica-se 1926 como ano da escrita, durante uma estadia do autor no país onde "decidiu procurar a fonte de sabedoria que considerava perdida na velha Europa". Não a terá encontrado. Os da TV Record também não. Abraço.

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