Às cegas

Os portugueses começaram tarde com esta prática, mas o aparecimento da Internet e dos chats acabou por precipitar também entre eles os encontros às cegas – e, ao que parece, até já houve casamentos que nasceram assim. Há quem ache a coisa perigosa (e pode ser, uma vez que nunca se sabe quem é a pessoa com quem nos vamos encontrar) e quem a ache excitante (e pode ser, mais ou menos pelas mesmas razões); mas, para comemorar o Dia dos Namorados, uma livraria de Sidney teve uma ideia genial: a de promover blind dates entre os leitores… e os livros. Curioso? Posso adivinhar. A ideia é contrariar a normal escolha de um livro através do nome do autor, do título, da capa ou da sinopse e apelar ao espírito aventureiro dos leitores, vendendo o livro embrulhado em papel pardo com umas pistas apenas, do tipo «Saga Familiar, História Recente, Tragédia Pública» ou «Romance de Estreia, Estados Unidos, Seres Sobrenaturais». Assim, alguns leitores mais informados até podem adivinhar de que livro se trata, mas outros, se calhar mais indecisos, terão este empurrãozinho para arriscarem uma leitura. Se quiser, veja no link abaixo qual o encontro às cegas mais ao seu gosto.


 


http://www.elizabethsbookshop.com.au/shop/detail/blind-date-with-a-book/

Comentários

  1. Pela parte que me toca, estas iniciativas são sempre interessantes! Tudo que de algum modo, ainda que indirectamente, promova a leitura é de louvar!

    Um pequeno aparte colonial mas que julgo não estar descontextualizado com o nosso tema de hoje:

    Não sei a partir de que data, mas sei que foi durante o Salazarismo (que também teve iniciativas e actuações positivas - e digo-o sendo anti-Salazarista por tradição bi-familiar), que se promoviam os famosos casamentos por procuração, entre pessoas que se não conheciam, normalmente moças pobres da metrópole com homens que se encontravam nas antigas províncias ultramarinas... era-lhes oferecido uma máquina de costura (Singer), um valor em dinheiro e tinham a passagem paga... estes homens muitas vezes eram fazendeiros, comerciantes ou gente dedicada à pesca ou actividades similares, mas também funcionários da Fazenda ou da Administração em lugares remotos e que não teriam meios e nem a oportunidade para cortejar uma esposa.
    Foi uma forma achada para colonizar através do estabelecimento das famílias e suponho ainda que o de promover ou providenciar hipótese de casamento a moças desvalidas, pobres e até sem família...

    Claro que isto em 2016, com internet e facebook vai parecer uma coisa do outro Mundo, porém, se nos lembrarmos que tal ocorreu lá por 1930/60 ou assim, quando só havia correio eventual e muito demorado... era uma forma de fazer a coisa.

    Conheci alguns casais assim "formados" e curiosamente deu certo... eram até felizes e amigos!
    Não sei qual o grau de sucesso e ainda menos os sacrifícios e constrangimentos que posso adivinhar, mas funcionava!

    O meu tio-avô Virgílio Fino, filho mau de uma família boa, a quem foi comprado um bilhete de ida para Moçambique, para se endireitar e de castigo, trabalhou na Administração Colonial em Tete, e casou assim com a tia-avó Rosa. Foi um exemplo positivo... se bem que fosse sempre (como todos os Fino) mulherengo e mariola, aliás adorado pelos sobrinhos quando vinha fazer a "graciosa".

    Conheço uma senhora interessantíssima (D. Laura Leitão) que foi professora na Baía dos Elefantes, onde era a única mulher branca e para onde ia por 3 meses, de traineira por não haver estrada, com um filho de meses. Casou assim também com um funcionário da administração colonial. A D. Laura, nasceu em Alcanhões e fez o liceu em Santarém, o que não era comum na década de 50, depois foi para o magistério. Era uma pessoa ilustrada e nem por isso uma pobre de Cristo e nem de espírito, mas queria conhecer outras coisas e sair de Alcanhões, a oportunidade de aventura foi esta, e conheci-a já com 90 anos, mas fresca de mente! Nunca se arrependeu e teve 4 filhos... animei-a a ditar as suas memórias à filha, pois achei sempre que teve uma vida interessantíssima atrás do marido que era inspector, correu toda a Angola no Land Rover e dormiu no mato e em cubatas, foi mordida por uma cobra (esteve muito mal) e foi uma mulher e pêras (ainda por cima bonita!). As suas memórias constituiriam história, contemporânea e acredito que não se deveriam perder estas e outras...

    Quem diria que os blind dates fazem parte da nossa história colonial?

    Saudações da Cidade Morena.

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    Respostas
    1. Amigo Pacheco, estas histórias devem ser preservadas pela escrita para que se não percam. Que tal um livro de contos com elas?
      Abraço,
      JCC

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  2. E lá me fui eu lembrar do Vergílio Ferreira:
    «O encontro feliz com um livro foi combinado fora de nós.»

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  3. Tem tudo para nos levar a ficar com o livro errado. :)

    E se for um livro de um autor de que não gostamos (por uma má experiência anterior), não acredito que seja lido...

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  4. Interessante... Esta coisa dos livros. Claro.

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