Mudam-se os tempos
A notícia de que José Rodrigues dos Santos era considerado pela maioria dos portugueses (a amostra de pessoas que responderam ao inquérito foi de 28 000) o melhor escritor nacional deixou obviamente muitos amantes da Literatura escandalizados (talvez se tivessem já esquecido de que há uns anos, num inquérito promovido pela televisão, Salazar fora considerado a figura portuguesa mais importante de sempre). Uns dias depois, li um pequeno artigo sobre recordes, que incluía os livros de ficção mais vendidos desde a publicação, e concluí que, de facto, os tempos mudaram e, com eles, também as vontades (desculpem roubar a expressão a Camões, mas não estou ainda preparada para citar Rodrigues dos Santos). Parece que até há pouco tempo a obra ficcional que tinha chegado a um maior número de leitores era A Tale of Two Cities, de Charles Dickens, que vendera mais de 200 milhões de exemplares em todo o mundo (suponho que a escola de língua inglesa a tivesse integrado nos programas de ensino); e parecia estar de pedra e cal até que a saga de Harry Potter lhe tomou o lugar, vendendo mais de 450 milhões no conjunto dos sete volumes. O problema não está, mesmo assim, em comparar Dickens e J. K. Rawling, mas em saber que o livro do primeiro será também provavelmente destronado muito em breve pelas Cinquenta Sombras de Grey, que já passou a barreira dos 100 milhões e saiu há menos de meia dúzia de anos. Outra razão para quem gosta de livros ficar escandalizado.
Escandalizado não fico, e nem surpreendido!
ResponderEliminarA diversidade de gostos é imensa - e ainda bem!
Muito mais gente gosta de Anselmo Ralph do que de Filipe Mukemba (quem é este????)... muitíssimo mais gente gosta do Toni Carreira do que de Rui Veloso... são factos que têm a ver com razões óbvias de popularidade popularista popular!
Se é que me percebem...
Não tem a ver com mau-gosto ou bom-gosto, que direito tenho eu de dizer isso? Tem de facto a ver com a quantidade de pessoas que estão mais despertas ou sensibilizadas para um determinado género musical, e por extensão ao género literário.
Tem ainda, e muito mais, a ver com a actualidade! Digo eu...
Reparem, alguém duvida de que os valores morais de Dickens, da Condessa de Ségur, da Odete de Saint-Maurice estão hoje desactaualizados, descontextualizados e ultrapassados, parecendo aos garotos, jovens e adultos uma coisa ridícula, enfadonha... etc.?
Isto para não falar no contexto, na época... são coisas muitas vezes inatingíveis e diria que até incompreensíveis.
Bom, mas o JRdosS, de quem só li um celebrado livro, que achei francamente mau e parecia escrito por 3 pessoas diferentes (uma escrevendo cada parte) - o Anjo Branco - escrito de uma forma simplista e até ao estilo redacção da 4ª classe, e por isso mesmo o ponho ao nível de um Toni Carreira, ou Marco Paulo... cito este porque não conheço nenhuma letra do outro. Numa feira ou quando se conduz um táxi é mais fácil e fica no ouvido o que se grita "eu tenho dois amores!" ou "é linda de blue jeans e blusão de cetim, à' Anita!", do que a letra e a música de Porto Sentido ou Sei de uma camponesa...
Parece-me um facto compreensível e indiscutível.
Faço o mesmo raciocínio na literatura.
Depois temos ainda o factor merchandising e publicidade, o marketing em volta do JRS que é uma cara conhecida, simpática, comunicativo... logo meio caminho andado para ser vendável e as pessoas o lerem. E as editoras sabem disso, logo usam a bomba atómica no sentido do lucro.
E se calhar ainda bem, se o que ganham com JRS der para editar outros melhores mas menos rentáveis...
Não sei se me perceberam?
Concordar ou não é outra coisa, mas sempre vamos trocando ideias o que é Extraordinário!
Saudações pensadoras cá da Cidade Morena!
Sempre bem pensado e dito, António.
EliminarUm livro e a literatura em geral é como o Natal: sempre que um homem quiser!
Cataclismo! Estamos no fim dos tempos.
ResponderEliminarOu mudam-se os paradigmas.
Ou é apenas a hora da antítese hegeliana e há-de haver uma síntese salvadora a repor a humana verdade.
Ou nada disso. Mas as sombras de grey vendem muito e não são literatura, nem José Rodrigues dos Santos, nem. E o mundo pula e avança sobre eles que nem só de vendas vive o homem (mas também).
Enchem os bolsos, mas a história vinga-se e ignora-os? Talvez. Mas sobretudo não elevam o espírito a ninguém. E os efeitos de qualidade são o único que conta na produção humana: o que deixamos de nosso aos outros e seja bom para eles, lhes sirva como adubo.
O resto é conversa.
"O tempora o mores"
ResponderEliminarPenso que não faz muito sentido a utilização da palavra "escandalizado".
ResponderEliminarSomos o que somos. Um povo massivamente "ignorante", que prefere com alguma naturalidade o fácil e não gosta muito de pensar. Embora goste muito de opinar (mesmo sobre coisas que desconhece), prefere quase que os outros pensem por ele (então se forem coisas complicadas...).
As maiorias sempre foram educadas a consumir "lixo", especialmente pela televisão.
Isso explica o sucesso de Rodrigues dos Santos e de Tony Carreira, por exemplo. Sem desprimor para nenhum deles. Com certeza que merecem todos os seus leitores e ouvintes.
Não vou comentar que somos um povo massivamente ignorante, porém livros como as 50 sombras, vendem que nem gelo no deserto, no Mundo inteiro, logo...
EliminarTambém não me considero guardião e nem exemplo de bom gosto, pelo que não critico os que tenham gostos diferentes, não sou a medida de nada a não ser de mim mesmo.
O que se passa, e resta-nos esse consolo, é que podemos e conseguimos neste espaço ou entre amigos que pensem e gostem das mesmas coisas, conversar e partilhar os nossos gostos, em liberdade.
Sim desagrada-me o que li sobre JRS ou as tais 50 sombras, tenho pena, lamento até mas não critico pela mesma razão de respeito pela liberdade alheia, mesmo que possa ser chamada de mau-gosto, mas que também me serve para defender a minha liberdade e o meu gosto.
Afinal, todos nos erguemos contra a Inquisição, a censura, etc. mas depois actuamos nós como sensores, em nome do nosso "bom-gosto"? Claro que é legítimo discutir e analisar como o fazemos, até criticar, mas temos de perceber que há outras maneiras de pensar e sentir.
Saudações libertárias cá da Cidade Morena.
Bolas... Censores, é claro e não sensores!
EliminarEu quando disse que somos um povo massivamente ignorante, estava a situar-me na nossa própria história, Pacheco.
EliminarE sei que somos os menos culpados do que se tem passado no nosso pais, em relação às políticas culturais e educativas.
Quem tem ocupado o poder sabe que é muito mais fácil de governar quem não tem acesso à cultura e à educação.
Ah, mas eu não contesto a nossa ignorância, nacional... o que quis dizer é que não estamos sós!
EliminarSe as 50 sombras - de que dizem não ser literatura, e eu acredito - vendem disparates pelo Mundo fora, isso significa que o mal é geral... ou seja, que nós somos mesmo uma minoria, coisa que a mim aficionado dos toiros, caçador e outras coisas incorrectas como consumidor de álcool e de carnes de todos os tipos, fumador de umas gostosas charutadas, não me assusta mesmo nada! E, note bem, persisto... em gostar de ler o que consideramos bons livros, como os aqui tantas vezes referidos, sem ser consumidor de JRS ou de MRP e outros fenómenos literários... para dizer com franqueza nem dou grande fã do celebrado Moita Flores por exemplo, tido por um "mestre do diálogo"... Deus nos valha!!!!
Um grande abraço cá da Cidade Morena.
O dia em que mostrarem a nota da gráfica e nota de vendas (destes livros) então neste dia vou perceber que a literatura nem está a ser refém de marqueteiros.
ResponderEliminarTorna-se abusivo a inclinação aos clichês do sucesso quando em querer oportunizar a idéia do sofisticado a literatura. O sofisticado nada têm haver com a indústria cinematográfica em relação a indução massificadora do sexo. Sim, porque no "Cinqüenta tons de cinza" fica esclarecida a versão fantasiosa a perversão a retratar nas garras a cultura machista.
Assisti não gostei e achei decadente.
Há romances maravilhos e bem escritos, há escritores que revelam a doçura a gentileza e a natureza perfeita por (construir ideais) e, consagrá-lo(s) e transformá-lo(s) em conceito do quê é literalmente sofisticado e educativo à novos tempos.
Duvido que as 50 sombras ultrapassem o Dickens. É uma novidade que passa como as outras. Apenas as obras maiores continuam a vender sempre. Ainda se vende o D. Quixote, as peças de teatro do Shakespeare ou os clássicos Gregos.
ResponderEliminarQuantos milhões ainda irão vender a saga "twilight" ou Dan Brown? Têm a sua época.
A não ser que adoptem o "50 sombras" no Plano Nacional de Leitura.
Não fico escandalizado, trata-se de popularidade e é natural que surjam esses nomes nas escolhas das pessoas. Os Globos de Ouro são escolhidos pelos leitores de uma revista e representam os melhores do ano no Teatro, Cinema ou Televisão? Trata-se de popularidade.
Um dia o José Rodrigues dos Santos poderá candidatar-se a Presidente da República e colher milhares de votos em relação a políticos menos conhecidos.
Podemos dividir uma sociedade em duas (ou mais) camadas: teremos os que gostam de pensar, reflectir, estudar, desenvolver ideias, analisar e comparar. Os que não se conformam facilmente com um resultado. A esses podemos chamar a minoria. Os tais que se concentram no rigor das suas escolhas, pois têm a capacidade de decidir por eles mesmos aquilo em que acreditam, ou seja, predispõem-se a efectuar uma triagem, um refinamento das suas opções.
ResponderEliminarDepois teremos a maioria. Aqueles que agem e reagem sob o impulso da moda, da manipulação da massa; os tais que dizem o que ouvem dizer e que fazem o que vêem fazer.
Por isso não estranho as escolhas da maioria, nem me espanto com estes resultados. O mundo sempre foi assim, de fácil manipulação e efémero encantamento.
Um abraço,
Carla Pais
É isso, Carla, e talvez mais a complexidade do Homem. Qual não foi o meu espanto um dia ao estar em casa de um Homem cultíssimo e aperceber-me do seu gosto por novelas trauliteiras e pretensamente acéfalas. Há sempre na vida de alguns aqui e ali um síndrome assexuado. O mundo é tão colorido e diverso que a nossa atitude me parece ter de ser a de quase tudo relativizar. Ainda hoje indignava-me por ter apanhado chapa 14 de uma docente fraquinha, fraquinha e uma nota bem mais robusta de uma fortinha , fortinha , no conhecimento e capacidade de embelezar a vida. A mediocridade anda sempre de mãos dadas com a arrogância, a insensatez, a mesquinhez, a inveja, a soberba, o medo do Outro...
EliminarBeijinho Carla para a Cidade Luz. Que por aqui as lâmpadas andam muitas vezes fundidas e desligadas, mas o Sol vai aqui e ali dando uma mãozinha e aquecendo os corpos.
O que eu temo é que, num futuro próximo qualquer, o que escreve o J. R. dos Santos e Dickens (exemplos) se diluam num centro qualquer, numa opacidade pantanosa... Com o alisamento e o impulso de des-hierarquização » que vai para aí...
ResponderEliminar«Com o alisamento e o impulso de des-hierarquização»
EliminarPode esclarecer o sentido do seu comentário? Obrigada!
EliminarPosso com certeza Maria Almira Soares.
EliminarDo que depreendo, não tendo certezas ou enganos, a Maria Almira Soares teme o efeito da normalização, da não seriação, da não hierarquização, da destrinça entre o bom e o mau.
Pessoalmente não temo isso já que acredito num mundo multicolor, num mundo relativo de formas, sabores, paladares. Um mundo de diferentes públicos, assunções, visões, crescimentos, tempos. Um mundo onde se cresce a cada hora, onde as hierarquias se confundem com os mundos que vivemos, os mundos que contemplamos, os mundos que sonhamos, os mundos que suspiramos e entrevemos como porvir. Um mundo de enorme liberdade, de nichos e públicos diferenciados, onde os gostos e os não gostos vivem no mais e no menos de cada um. Com excepção de casos limites de mau gosto antecipadamente declarado ou de bom gosto quase impossível de negar, duvido sempre dos sinaleiros da qualidade, baseado naquela máxima de um ponto de vista ser apenas a vista de um ponto. Assim hierarquizar sabe-me sempre a dominar, impor, sustentar, caracterizar, universalizar, normalizar, como se não pudéssemos todos viver mundos imperfeitamente paralelos que aqui e ali se vão tocando.
Se por um lado tenho pena, por outro lado penso que, pelo menos, há gente a ler, ainda que sejam os livros de JRS.
ResponderEliminarSe pensarmos que Portugal é um dos países da Europa onde se lê menos, e que grande parte da população não chega a ler um livro por ano, conforta-me saber que há gente que lerá pelo menos um...
Concordo, Vespinha.
EliminarTambém prefiro que leiam, mesmo que sejam os livros de Rodrigues dos Santos. :)
JK Rowling
ResponderEliminarApesar de não ter mudado de opinião, passei no entanto a reflectir antes de dissertar sobre o assunto, depois de Pedro Mexia, um bom escritor e um voraz leitor, ter dito, em devido tempo, conforme cito hoje no meu blogue:- Victoria Becham confirmou que nunca leu nenhum livro. Nem um. Houve quem se escandalizasse com essa confissão obscena. Não percebo porquê....."
ResponderEliminarPodiam colocar em categorias separadas! É com cada mistura!
ResponderEliminarNessienet.blogspot.pt