E Eça, hem?

Lembrei-me de Fernando Pessa a dizer «E esta, hem?» no fim das suas reportagens e não resisti… José Luís Peixoto reescreveu há meses Os Lusíadas para garotos e deram-lhe forte e feio nos jornais e no Facebook, por isso não sei o que lhe vai acontecer agora – a ele e a mais cinco autores, a quem o semanário Expresso pediu que prolongassem a história d’Os Maias até à fundação do jornal, em 1973. Vamos, pois, ver como vão Peixoto, José Eduardo Agualusa, Mário Zambujal, Rentes de Carvalho, Clara Ferreira Alves e Gonçalo Tavares imaginar, cada um num período específico, a história desta família que já passou pelos olhos de milhares de portugueses, nem que tenha sido na Escola Secundária, na qual foi leitura obrigatória ao longo de muitas décadas. Os estilos da narrativa prometem variedade; e sendo, como li, o pivot de todos os volumes o mesmo – Carlos da Maia –, a circunstância vai certamente causar alguma estranheza que pode ser igualmente enriquecedora. Eu, pelo menos, fico curiosa e desejosa de saber se este Maia tem mais sorte do que os seus antecessores… O primeiro volume sai já no próximo sábado. Com o Expresso, evidentemente.

Comentários

  1. Confesso que estou com imensa curiosidade, até porque Os Maias é um dos livros da minha vida.
    Quanto aos eleitos, eu não escolheria melhor!
    :-)
    antonieta

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    1. Olá Antonieta!
      Também eu estou imensamente curiosa. Em especial pelo Gonçalo M. Tavares, um dos meus autores preferidos. Estou desejosa de o ler! Por mais voltas que dê à cabeça não consigo imaginar o texto...

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    2. Olá Ana!

      Embora sejam escritores muito diferentes, com registos diversos, gosto de todos.
      Também gostaria muito de ver o Mia neste grupo.

      Aguardemos pois, para ver o que aconteceu ao Carlos da Maia e ao João da Ega depois de apanharem o americano!
      E ao «Eusébiozinho chic a valer», aliás estou-me a lembrar de uma figurinha do nosso pindérico jet-set que também é chiquérrimo...

      :) Antonieta

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    3. Uma pequena correção:
      o «chiquérrimo» era o Dâmaso; o Eusébiozinho era o das olheiras causadas pelas lombrigas

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    4. Olá Cristina!

      Tem razão, era o Dâmaso. E já não me lembro nada da história das lombrigas...
      Os Maias foi o meu primeiro livro do Eça (há umas décadas) e marcou-me imenso, não pensava ser possível um português escrever assim tão bem.
      Nessa altura (pobre tonta) tinha a mania de só ler autores estrangeiros, até para praticar o inglês e o francês.
      Devorei tudo o que encontrei dele e ainda o acho tão actual, sempre que vejo aqueles debates no parlamento lembro-me sempre das Farpas.

      Vamos então ver o que estes «seis magníficos» vão fazer dos Maias.

      :) Antonieta

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    5. Na verdade, essa história das lombrigas é apenas um pormenor, referido quando o Eusébiozinho, ainda pequeno, é um mimalhito, de pernas moles, que se aflige com as brincadeiras vigorosas do Carlos ;-)

      Mas o autor da expressão «chic a valer» é de facto o Dâmaso, que entra em concorrência com Carlos, na conquista de Maria Eduarda. Esta é, felizmente, avisada pela sua cadelinha escocesa de que o homem não é boa rez! A bicha faz sempre um escândalo, quando o Dâmaso aparece. Escusado será dizer que adora dormir no regaço do Carlos.

      O Eça é mesmo delicioso ;-)

      Com toda esta discussão, também fiquei curiosíssima. Felizmente, o meu pai compra o Expresso, todos os sábados, há décadas. Vou-lhe pedir para me guardar os fascículos.

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  2. António Luiz Pacheco11 de julho de 2013 às 02:35

    Gosto muitíssimo do Eça!
    Compreendo a eleição de "Os Maias", pois me parece ser o mais universal e mundano dos seus romances, se bem que os meus preferidos sejam "A Cidade e as Serras" e "A Ilustre Casa de Ramires" - sobretudo esta...

    Gostaria de ver numa versão actual em que se deu em definitivo a cisão entre um Mundo Rural que quase desapareceu e é desprezado e sinónimo de atraso, e o Mundo Urbano, desorientado.
    Fica a sugestão e quem sabe alguém também a aproveite...

    Quanto aos autores... não me pronuncio, mas também fico na expectativa. Pessoalmente aposto no Mário Zambujal que é o meu preferido!

    Saudações kaluandas!

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  3. António Luiz Pacheco11 de julho de 2013 às 02:36

    Hum... asneira!

    Gostaria de ver numa versão moderna, "A Cidade e as Serras"... claro!

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  4. Confesso que tenho alguns preconceitos relativamente a alguns escritores, por exemplo ainda não li nenhum livro do Dan Brown , li apenas um do José Rodrigues dos Santos (o 575), e quando falo em preconceitos é que efectivamente normalmente não leio best sellers . Relativamente a outros autores funciono precisamente ao contrário, por exemplo à partida para mim todos os livros de José Saramago, Philip Roth , John Steinbeck , Mia Couto e do desconcertante Gonçalo M. Tavares são bons, daí e porque todos os escritores que vão Maiar são do meu agrado é com expectativa que aguardo. Realço contudo que continuo com a pedra no sapato relativamente ao José Luís Peixoto, depois de ter lido essa tremenda desilusão que é esse relato pela Coreia do Norte; é que tinha gostado tanto do "LIVRO", que o impacto negativo foi derreante.

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    1. Curiosamente, do Peixoto, foi esse o único que não li... Se gostou do "LIVRO" certamente irá gostar dos outros. Vá por mim que partilho consigo a paixão pelo Roth, pelo Saramago, pelo Mia e pelo Gonçalo M. Tavares. :)

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    2. Ó Ana mas "DENTRO DO SEGREDO" é uma completa penúria, será que naquele (apesar de cinzento) país, não haverá pessoas para descrever, lugares para descrever, situações diferentes para descrever, é que o autor é absolutamente incapaz de traçar e de nos revelar um pouquinho que seja daquele misterioso país, e o mistério, ao contrário do que se possa pensar, tem muito que se lhe diga ...e José Luís Peixoto foi absolutamente incapaz de o dizer neste livro...uma desilusão das grandes.

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  5. Rosário! Ainda ontem a sua cara - metade citava este "lugar incomum" da Epígrafe do Inferno:
    "Os lugares mais tenebrosos do Inferno estão reservados àqueles que mantêm a neutralidade em tempos de crise moral”, extraído do novo romance de Dan Brown . Ou talvez não tão incomum, já que cada vez parece mais, neste carnaval veneziano que: "O céu pode esperar!».
    Ver o Carlos e a Eduarda arrastados por seis distintos magníficos para estes e outros palcos incomuns em que se transformou a nossa história, não me aflige – já que são seis “raio de bons escritores”, neutros, da neutralidade que cria.
    Mas, o que querem? Corrói-me a alma ver a minha Eduarda, aquele anjo, e o Carlos, aquele santo, de volta a um futuro cada vez mais cinzento, não a soldo de seis magníficos do eixo do bem - Agualusa, Zambujal, Rentes, Peixoto, Clara e Tavares – mas a soldo de uma criatividade impulsionada por grupos económicos e estratégias de marketing - eu que vivi dentro dessa rameira que se chama management ” – num regresso ao futuro, convivendo com Sidónios, Salazares, ou Spínolas - para nos reduzirmos apenas aos ésses ” da história. (Ontem o Peixoto ia-se zangando comigo, mas já estamos amigos, porque é um cavalheiro – mesmo tatuado no corpo, que não na alma!) E, porque entendeu que não são os escritores os visados, como eu entendi que só conheço a missa a metade, mas este tempo que faz das artes vítimas de pouco interessantes “mecenas” que até se querem apropriar dos personagens. E como estou farto de que se queiram apropriar de tudo, até do nosso imaginário!
    Cumpra-se a celeuma, faça-se o marketing e, como somos nós também parte deste carnaval veneziano…olha que boa ideia me deram! Raios parta a epígrafe do inferno!

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    1. Caro Pedro de elegantíssima pena, Adam Smith venceu Karl Marx e Hayek quase tornou Keynes irrelevante. Já não nos mostrou Brecht, há já quase um século e na sua "Ópera dos Três Vinténs", que o capitalismo é crime organizado?

      Mesmo marketinguizados, os escritores continuam a ser os espíritos puros que se dão aos outros, mais do que o faz qualquer das hodiernas almas.

      Você, por direito próprio, pertence a esta confraria tão extraordinária e martirizada dos escritores do nosso Portugal.

      Que as almas puras não se digladiem entre si !
      Que podem as almas puras em relação às exigências do tão poderoso vil metal dos mega grupos económicos ?

      Não há neutralidade e não haverá inferno para as almas puras que oferecem aos outros os frutos da sua imaginação e do seu solitário labor.

      Há sim resistência, sem a vertigem de uma imolação que tudo anularia.

      Os escritores, esses meus silenciosos benfeitores, estarão sempre no meu altar !

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  6. Que excelente ideia a de se continuar "Os Maias"! É que o modo aberto como o romance termina está mesmo a pedir que o continuem. É que tanto Carlos como João Ega são ainda homens jovens cheios de sonhos e desilusões quando correm atrás do americano "pela Rampa de Santos e o Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia." Tinham muitos anos e todo o século XX à sua frente...
    Não costumo comprar o Expresso mas vou fazê-lo em agosto pela minha curiosidade sobre a inventiva dos nossos atuais escritores.
    Tenho pena que o Mário de Carvalho, o Mãe e o Viegas não estejam entre os escolhidos (o Lobo Antunes não aceitaria a encomenda).

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  7. Vivendo no estrangeiro, falha-me muito do que se passa em Portugal, apesar da internet. Por isso, não sei o que se disse dos "Lusíadas para toda a família" nos jornais e também não tenho conta no Facebook. Posso dizer a minha opinião, apesar de não ter lido muito. Na minha estadia em Portugal, em Junho, comprei um número da "Visão" e calhou-me em sorte o Canto IX desses Lusíadas reescritos, logo aquele que fala da Ilha dos Amores.

    Confesso que fiquei desiludida. Senti falta de uma atitude mais crítica por parte de José Luís Peixoto. Hoje em dia, devíamos ser mais críticos no que respeita à suposta heroicidade lusa, afinal, os tempos do Estado Novo já acabaram há quase quarenta anos.

    Nada como as palavras do Prof. José Mattoso para ilustrar melhor aquilo que pretendo dizer (tiradas de "Naquele Tempo", Temas e Debates 2011):

    «Ao propor o ideal da heroicidade a todos os cidadãos, pelo simples facto de a narrar como história do povo lusíada, a épica quinhentista veio em socorro dos historiadores da nação e marcou indelevelmente cronistas e memorialistas portugueses até aos nossos dias.
    (...)
    A dificuldade de distinguir a História da Epopeia continua até hoje».

    Acho que se devia parar de transmitir às crianças e aos jovens portugueses essa ideia, na minha opinião, caquética de heroicidade.

    Confesso que ainda não li nenhum livro de José Luís Peixoto, mas, em Junho, comprei o "Abraço" e estou muito curiosa.

    Quanto aos "Maias", espero que também não fique desiludida. É uma tarefa ingrata, essa de lhe dar continuação, embora reconheça a excelência dos escritores escolhidos.

    A Maria do Rosário diz: «fico curiosa e desejosa de saber se este Maia tem mais sorte do que os seus antecessores». Eu penso que ele não devia ter. As personagens masculinas de Eça caracterizam-se. muitas vezes, por uma passividade inexplicável, o que os ajuda a cair na tragédia (não é só azar). Essa fraqueza de caráter (chamemos-lhe assim) também está presente em Carlos da Maia e espero que seja aproveitada nesta nova versão. Caso contrário, é bem capaz de me desiludir... A não ser que consigam dar a volta bem dada!

    Enfim, curiosa, fico, sem dúvida.

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    1. Não me parece que se transmita aos nossos jovens ideia alguma de heroicidade lusa, bem antes pelo contrário. O que se transmite agora é a pequenez periférica, a baixa produtividade, o saiam daqui, a inveja, a troika, a culpa, o sul, ... Os heróis, no entanto, se ainda existem, são todos americanos e digitalizados.

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    2. Infelizmente, é verdade.
      Mas eu referia-me mais à História, ao passado. A História de Portugal é ainda apresentada cheia de heróis e lendas, algumas, como se fossem verdades absolutas e como se Portugal fosse uma espécie de país eleito. É claro que tivemos bons momentos, mas... heróis míticos? Era tudo gente de carne e osso.

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    3. Mas, Cristina, que mal há em que o nosso país seja "o eleito", pelo menos para nós, desde que saibamos relativizar e manter alguma ironia? E que mal há em que sobrevalorizemos a nossa História? Ao menos que sirva de contraponto ao presente que se desvaloriza. A Ideia que tenho é que os outros países serão idênticos - é sempre mais empolgante imaginar um desembarque no Brasil, na Lua ou na Normandia, do que o cumprimento dum déficite -, sendo que há casos ao contrário: orgulham-se do presente e envergonham-se do passado, às vezes bem recente.

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    4. Déficite !? Défice, claro!

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    5. «desde que saibamos relativizar» tudo bem!
      Como, por acaso, disse, há pouco tempo, também num comentário de blogue: nada tenho contra lendas e epopeias (fazem parte da identidade e da cultura de um povo), desde que não percamos o sentido da realidade.

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  8. Para mim, o melhor destes escritores é o Mário Zambujal. E punha as mãos no fogo em como será o que melhor continua a obra de Eça, com o seu humor e a sua ironia.

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  9. Não é que os Maias me diga alguma coisa, ou sequer que eu considere um grande livro, mas imaginemos que o considerava um fenómeno, intocável, uma espécie de santuário e apareciam uns "malandros" com intenções de esticar e baralhar aquilo tudo. Eu, furioso, como todos os imbecis adversos à mudança, pegava em mim e... não lia. A verdade é que a maior parte das pessoas intransigentes em relação a livros específicos, não leram muito mais do que esses. Adaptações de livros para crianças são um trabalho importantíssimo, por razões mais do que óbvias, e muito difíceis já que enquanto os adultos têm medo de se ridicularizarem ao dizerem mal de um portento como os Maias, as crianças por sua vez, se aquilo for uma porcaria, não se calam com o assunto. Esses Lusíadas saem já da prateleira para o meu Vasquinho!

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  10. António Luiz Pacheco11 de julho de 2013 às 06:31

    Caríssima e Extraordinária Cristina:

    Penso que comete uma falha na avaliação que faz!

    Não li a tal versão dos Lusíadas, apenas uma outra de Adolfo Simôes Muller (Os Lusíadas lido às crianças) há quase 50 anos...
    No entanto creio que (sem pretender tirar razão a Matoso) há que perceber o espírito da época e com que Camões escreveu tal epopeia! O seu objectivo foi de facto e declaradamente "cantar o peito ilustre lusitano".

    Na minha fraquíssima opinião de traça literária, o que importa não é tanto desmistificar as proezas dos portugueses de quinhentos, que a mim não me incomodam mesmo nada, mas antes explicar às crianças, que têm de perceber o contexto e a época em que as obras são escritas para as poderem valorizar! Localizá-las... mas o maravilhoso e o épico devem fazer parte da sua educação, defendo eu.

    Quanto ao carácter deprimido que refere e de que sofrem por sistema os personagens Queirosianos, era chamado pelos ingleses de "spleen", e muito comum entre as camadas altas da sociedade, dita "snob". Não esqueça que Eça era mundano, muito viajado e tinha uma veia Victoriana pois até traduziu Haggard ... logo não me admiro por ter colocado nos seus personagens aquilo de que padeciam os gentlemen na época, como na actualidade todos os escritores são urbano-depressivos...

    Saudações kaluandas aí para a Germânia!!!!

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    1. «explicar às crianças, que têm de perceber o contexto e a época em que as obras são escritas para as poderem valorizar» - sem dúvida. Mas é precisamente isso que eu acho que falta nesta reescrita!

      Eu sei que a tarefa é difícil, porque, a fim de se reescrever a obra para crianças, fazendo-as entender de que tratam os versos, qual a história que contam, terá de se proceder à "tradução" literal. Mas não haveria lugar para uma certa ironia, de vez em quando, dando a entender que a obra foi escrita noutro contexto, noutra época?

      Não sei se José Luís Peixto o fez, só li o Canto IX. Mas frases do género: «Os infiéis eram manhosos, versados em falsidades, e usavam as suas artes para convencer os mercadores a não comprarem um metro dessa fazenda" não me parece adequada aos tempos de hoje. Foi isso que Camões escreveu, mas não haver nem uma nota final a explicar que se devem colocar estas afirmações no contexto...
      Ou ainda: «Levava ainda Monçaíde, fiel e bonito. Inspirado pela pureza delicada dos anjos, quis fazer-se cristão. Ó feliz, abraçou-se à verdade» - esta última frase parece-me supérflua e eu optava por não a publicar, por exemplo.

      Em relação aos «Maias», eu não me refiro propriamente ao «spleen», ao carácter (ainda se escreve assim, ou não; confesso que não sei) deprimido, mas mais a uma incapacidade de reagir a certas situações, muito vincada em Pedro da Maia, para grande desgosto do pai Afonso. O filho Carlos, educado pelo avô para ser diferente, acaba por herdar bastante desse traço do pai, o que ajuda à tragédia. O que, no fundo, matou Afonso da Maia foi o facto de saber que o neto se tinha ido, mais uma vez, encontrar-se com a amante, depois de saber que ela era sua irmã! Essa fraqueza dele é que acabou por aniquilar o avô.

      Essa inação, a passividade, o «deixar-se levar», está muito bem caracterizada por Eça na sua personagem Artur de «A Capital».

      Já agora, aproveito para dizer que nada tenho contra o reescrever, dar continuação, ou mesmo inventar um pré-enredo para um clássico da literatura. Pelo contrário. Lembro-me agora do filme «Rapa Nui» (não sei se há o livro), sobre os antecedentes da história que culminou com a Jane Eyre e que adorei. Mas, quando se tem uma certa ideia, o confronto com algo que achamos descabido pode chocar, ou desiludir. É só isso.

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    2. P.S. Saudações germânicas para os trópicos ;-)

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  11. pois eu tenho todas as razões para temer o pior. peixoto foi responsável por uma "versão infantil" de "os lusíadas" onde as ninfas estavam cheias de "ninfetices" e outras parvoíces avulsas. não tenciono comprar nem ler, mas cheira-me que vem aí uma nova eduarda, lesbiana recalcada, que se torna alcoólica quando carlos lhe confessa ser uma drag-queen de tendências sado-masoquistas (e outras "ninfetices" do mesmo calibre). enfim... na silly season inventa-se qualquer coisa para vender papel impresso.

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  12. Não gosto de criticar sem ler primeiro, "eça" é que é "eça". No entanto, fico numa expectativa de pé atrás, pois não vejo que se continue com Os Maias sem se entrar num tom jocoso e quixotesco sobre a obra escrita noutro e para outro tempo.
    Isto pode resultar em termos de divulgação dos autores em causa, num semanário que se pretende de referência no ramo, dando aos escribas a profundidade de trazerem o Carlos da Maia para o terreiro do paço em dia de manifestação da CGTP e colocá-lo de espectador no Martinho da Arcada com um portátil sobre o tampo da mesa.
    Façam imitações e sequelas de igual jaez com obras de autores vivos e não se utilizem os que já não podem contrariar as imitações, sejam elas delicadas ou grosseiras.
    Qualquer dia, qualquer jornal, irá lembrar-se de fazer reviver D. Quixote no século XXI, para confundir com moinhos de vento as hélices das geradoras eólicas que pululam os montes desabrigados deste País. Então, mais uma vez, um jornal que precise de vender mais papel e lutar com o gráfico da concorrência, contratará mais escritores que precisem de receber algum trabalho pago e produzam um arremedo de passado trazido ao presente para leitura de basbaques que lêem o que lhes trazem os jornais (como utilizam o champô que vem agregado às revistas para a lavagem da cabeleira), babadinhos pela simples razão que têm os seus preferidos autores metidos nesta caldeirada.
    Bom proveito...

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    1. Reentro para desfazer um equívoco.´
      Quando ficcionei o Carlos da Maia no Terreiro do Paço, fi-lo após o ano de 73, data limite proposta pelo jornal aos autores, por ser o da sua fundação.
      Ora, posto isto, ninguém terá a veleidade de colocar a personagem de Eça em plena Revolução dos Cravos e noutras posteriores até à infeliz e ridícula actualidade; se possível, num fugaz encontro com Pinto Balsemão e Marcelo Rebelo de Sousa, a propósitoi de qualquer notícia despropositada sobre a família, enquanto o Tista, o seu criado o espera "lendo o jornal, na confortável antecâmara dos quartos do menino, forrada de veludo cor de cereja, ornad de retratos de cavalos e panóplias de velhas armas".

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    2. Caríssimo Jocamartinho,

      Não gostando de criticar antes de ler, lá vai criticando, eça é que é eça!
      O que eu posso dizer é que esta «basbaque» vai mesmo comprar o jornal e ler «babadinha» o que eles querem que eu leia.
      Digamos que é assim uma espécie de shampoo interior!!!

      :) Antonieta

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    3. Caríssima Antonieta

      Eu coloquei os "basbaques" numa hipótese (futuro condicional) e não no presente; e não no caso dos Extraordinários. Longe de mim dizer mal de quem aqui, como eu (e melhor do que eu) comenta sobre os livros e a respectiva leitura.
      Veja:
      Comecei a frase com "Qualquer dia(...)". Nessa sequência - "Então, mais uma vez, um jornal que precise de vender mais papel (...)". Depois, ainda na continuidade "e produzam um arremedo de passado trazido ao presente para leitura de basbaques ". Tudo num hipótese em futuro.
      Não me referi ao caso vertente e em apreço. Esta carapuça é para outra feira. Só a usa nesta quem quer.
      Se a ofendi, ainda que directamente, peço-lhe que aceite as minhas desculpas.

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    4. No último parágrafo, embora se subentenda, onde está directamente deve ler-se indirectamente.
      Algumas horas do dia passo a rever textos e a corrigir gralhas. As que esvoaçam vêm cair aqui.

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    5. Extraordinário Jocamartinho,

      Não me ofendeu nem há «nexexidade» de apresentar desculpas, estávamos ambos a usar este espaço que a Rosário nos oferece para debater ideias.
      Esperemos para ver o que vai sair da imaginação dos escritores escolhidos...

      Abraço,
      Antonieta

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  13. O Eça continua tão vendável, tão publicável, tão promotor de carreiras, tão inspirador e tão prometedor hoje como ontem. acho que, bem no fundo, temos inveja contemporânea de não termos um Eça no presente.

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  14. Tanta, tanta curiosidade que tenho! E grandes expectativas.

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  15. Jose_catarino@sapo.pt11 de julho de 2013 às 15:56

    Os Maias continuam a ser obra de leitura obrigatória no Secundário; o que não significa que sejam lidos -- é que há umas sebentas, uns filmes...
    A iniciativa do Expresso não me seduz e, receio, não beneficiará os escritores envolvidos: Eça é insuperável no seu campo, como o é, por exemplo, Rentes de Carvalho ou Gonçalo M Tavares nos seus estilos. E o que aconteceu a Carlos da Maia é sabido de todos os leitores: leva a vida do homem rico que vive bem e a quem nada de relevante acontece; falhou a vida como todos nós falhamos de uma forma ou de outra porque, afinal, sonhamos ser uma coisa e acabamos por ser outra...

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  16. Há obras cuja genialidade devia impor um especial pudor em lhes tocar; onde o autor as quis deixar, aí deveriam ficar. Do Expresso - que achou apropriado rebaixar a obra de Camões aos ditames embrutecidos desta idade cretina de "bués", "tipos", "altamentes" e "cenas" (muito mais prático do que levar as criancinhas a entender a forma e o conteúdo camonianos) -, campeão incansável do acordês, a coisa, lamentando-se, não surpreende.

    Que ao menos Rentes de Carvalho imponha que aquilo que escreva seja impresso em português expurgado dessa peste repugnante.

    Costa

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  17. Há uns anos atrás comprei na Feira do Livro do Porto uns números desgarrados de uma revista literária chamada Almanaque que se publicou entre 1959 e 1960, com direção de José Cardoso Pires.
    Escreveu na revista Almanaque a fina flor dessa época -- por exemplo, o Vasco Pulido Valente iniciou-se aí.
    A revista trazia umas crónicas de Luís de Stau Monteiro em que aproveitando algumas personagens de Eça -- dos Maias, do Primo Basílio, etc. -- se verrinava o dia a dia da Lisboa salazarista.
    Já nem sei onde param essas revistas -- e tenho pena de as ter extraviado -- mas tenho a ideia que eram uma delícia e que o as ditas personagens se adaptavam muito bem ao sec . XX.

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    1. Pois é mesmo isso, Rui!
      O Eça continua perfeitamente actual, desde o Crime do Padre Amaro (tal e qual) até ao regresso às origens e à vida do campo tão saborosamente descrito na Cidade e as Serras.
      E então as guerrinhas entre partidos que ele e o Ramalho tão bem retratam nas Farpas?
      Continuamos na mesma, qual democracia qual carapuça, cada um quer é sacar o mais que puder!
      Será que nunca vamos aprender?

      Antonieta

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  18. Ideia... desafiante, curiosa, sedutora.
    Mas... Eça é Eça! Pode valer como exercício... por mim vou continuar com o "velho" Carlos da Maia.
    A propósito, acabei de reler "O Crime do Padre Amaro" não é que o Eça está a escrever cada vez melhor!!!
    Gosto do seu blog. Cumprimentos do Mário F.S. Carvalho

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    1. É verdade, o Eça cada vez escreve melhor.
      Já li e reli o Eça tantas vezes e é sempre um enorme e redondo prazer.
      E a minha família e os meus amigos sabendo desta paixão, sempre que sai algo sobre o Eça -- biografia, ensaio, ilustração , etc. -- já sabem o que me vão oferecer.

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