Empatia

Se é certo que a minha inclinação política e a dele não coincidem, também não deixa de ser verdade que, tanto quanto sei, nenhum de nós milita em partido algum nem veste camisola de cor assim tão definida. Assume-se, todavia, como um homem de Direita enquanto eu me considero claramente de Esquerda. Mas isso não me impede absolutamente nada de apreciar a sua inteligência e a sua escrita, nem de ler de fio a pavio – e sempre com enorme prazer e empatia – as crónicas que publica semanalmente no suplemento «Atual» do Expresso, especialmente as que têm um pendor autobiográfico, mesmo que atravessado nas histórias de outros, como acontecia na última, cujo ponto de partida era um filme português que não vi sobre adolescentes, mas com bastas referências ao meu querido Éric Rohmer, de quem vi muito. Às vezes, quando o leio sobre a própria adolescência e o martírio (a palavra é minha) do crescimento (presumo que tenha sido um rapaz misantropo, se é que não o é ainda), lembro-me do meu irmão que, enquanto eu passava os verões na rua a fazer amigos de todas as nações, permanecia em casa a ler a História Universal da Verbo ou, mais novo, a fazer pistas de automóveis com feijões a tarde inteira. Mas também me lembro da minha própria adolescência – e da dificuldade que era ter um metro e meio e ficar sempre atrás de toda a gente nos concertos de rock (não se riam, que é mesmo chato) ou não poder olhar por cima do ombro do parceiro durante os slows (que também não foram muitos porque me atrasei um bocado nos namoros – e não por estar a ler em casa). Há uma ternura, enfim, e uma cumplicidade muito boa que me ligam às crónicas de Pedro Mexia, uma qualquer matéria triste mas nunca lamentosa com que me identifico prontamente. Mesmo que muitas vezes pensemos de maneiras distintas sobre vários assuntos, a verdade é que o oiço e leio sempre (e, na maior parte das vezes, fico a ganhar).

Comentários

  1. Partilho do seu sentir em relação ao Pedro Mexia. Ainda no sábado passado estive mesmo mesmo para lhe enviar uma mensagem para o endereço electrónico a dizer que andei anos à procura do raio verde. E que por vezes ainda ando. Tal a poder que esse filme do Rohmer teve em mim.

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    1. Olá Ana!

      Imagine que no verão passado consegui comprar na Fnac Chiado a caixa do Rohmer «Comédias e Provérbios» por apenas 12,99€, em vez dos 53,99€ que era o preço inicial.
      Nem queria acreditar na minha sorte!
      Além do Raio Verde, tem as Noites de Lua Cheia, A Paulina na Praia, O Amigo da minha Amiga, O Bom Casamento e A Mulher do Aviador.
      Uma autêntica sessão de cineclube!
      E nem tive que ir lá, vi no site, encomendei e recebi à cobrança.
      :) antonieta

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    2. Com isto do Rohmer acabei por não dizer que gosto imenso de ler a prosa do Pedro Mexia (não conheço bem a poesia dele).
      Recomendo o livro «O Mundo dos Vivos», da Tinta da China, com prefácio de Manuel António Pina.

      Antonieta

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    3. Olá Antonieta!

      Também gosto muito dos filmes do Rohmer . Foi uma excelente oportunidade, sem dúvida. Beijinhos :)

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    4. Escusado será dizer que nunca vi o verdadeiro raio verde, embora também o tenha procurado, especialmente nos dez anos que vivi em Sines e em que quase todos os dias via o pôr-do-sol no mar.
      Agora, aqui perdida na beira interior, é que nunca o vou encontrar...
      Beijinho, Ana!
      Antonieta

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  2. apesar de também estar no "outro lado da barreira", gosto da sua lucidez, talento e honestidade intelectual.

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  3. António Luiz Pacheco15 de julho de 2013 às 03:16

    Hum... vai-me perdoar, mas fez-me sorrir o seu "sou claramente de esquerda"...
    Será?
    Penso que não... nem nenhum dos que aqui tanto me mostram de sentimentos e sensibilidade.
    Nem de esquerda nem de direita!
    Porque ambas são incompatíveis com os conceitos
    da justiça, equidade, diversidade, liberdade de pensamente, até com sensibilidade e romantismo. Todos estes conceitos, ainda que amplamente publicitados nas ideologias, são por elas abolidos na prática, pois o objectivo claro de cada uma é conduzir ao pensamento único! Seja ele qual for...
    A "esquerda claramente" é uma máquina de impor aos outros aquilo que ela julga serem as verdades universais para o que aliena e lava por completo consciências e sensibilidades...
    Verifico que quem tem sensibilidade e algum romantismo, é habitual achar-se "de esquerda", porque os intelectuais decidiram que só podia haver cultura e sensibilidade sendo da esquerda, e esse mito perpetuou-se.

    Declaro que sou claramente de esquerda quando estou com gente de direita e claramente de direita quando estou com gente de esquerda, porque me irritam as falsas certezas e as convicções teóricas!

    Deus me livre de algum dia me limitar a estar na esquerda ou na direita... Recuso, tanto o ser obrigado dizer que gosto de ler Saramago como impedido de o fazer, por razões de esquerda ou direita.

    Também leio o Pedro mexia com muito prazer, e nunca me apercebi que fosse de direita, talvez porque como sou uma traça, apenas procuro a luz, e estou isento de me posicionar, ou seja não tenho gps político nem ideológico.
    Eheheh!

    Saudações kaluandas!

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    Respostas
    1. Caríssimo,

      Escrevo-lhe com o firme (mas amigável) propósito de continuar um "feudo" que mantivemos há poucas semanas (terão sido meses?!).

      Será de todo inaceitável aceitar que existem padrões de pensamento, os quais, pelas direcções que tomam, pelos exemplos e fontes que vão buscar, poderão ser reconhecidos como de Direita e Esquerda?

      E porque lhes chama "falsas certezas e convicções teóricas"? Que não goste de partidos e partidarismos, eu até consigo compreender, mas, não aceitar que existe um pensamento de Esquerda e outro de Direita... isso já me parece excessivo.

      P.S. Tenho diversas opiniões que tanto considero Neo-Liberais, como Marxistas-Leninistas, no entanto, se olhar o todo, considero que existe uma clara tendência para a Esquerda. E... sim! Assumo-me: considero ser de Esquerda.

      E quando assumo ser de Esquerda, não me considero do lado dos bons... nem sequer dos maus.

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    2. António Luiz Pacheco15 de julho de 2013 às 04:51

      Meu Caro Víctor Ferreira:

      - Há em nós a liberdade de sermos diferentes, e de assumirmos o que sentimos!
      E, dê graças a Deus por não estarmos sob o jugo de nenhuma declarada direita nem esquerda, ou isso seria impossível...

      - Eu não disse que não exista um pensamento de direita e de esquerda, sou um ignorante assumido mas não tanto!
      O que eu disse, talvez de modo pouco claro, é que não me identifico com nenhum deles ao ponto de dizer que sou declaradamente de direita ou de esquerda.

      Porque repito que a justiça, sensibilidade e os bons sentimentos não são exclusivos da esquerda como da direita, e se critico ambos e os referi como "falsas certezas e convicções teóricas" é nesse sentido.

      Posso acrescentar que não sinto necessidade de me assumir como sendo de esquerda ou direita, para me integrar num grupo, corrente ou outro...
      Tenho amizades nos vários quadrantes e isso é o que menos me importa, se os faz felizes, pois que o sejam...

      Espero seja evidente que não desprezo o pensamento que seja diferente do meu, pelo contrário, ele me interessa até muito mais que o dos que pensam como eu, pois é assim que eu, pobre traça sem gps, pode encontrar alguma luz.

      Saudações e não se amofine porque disse e penso assim, isso é um tique, claramente de esquerda...

      Um abraço do meio do peito!


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    3. Não pude... Não consegui evitar uma boa gargalhada quando li a sua última bicada. Foi uma boa resposta ao meu desafio.

      Touché, caro António Luiz Pacheco... É sempre um prazer discutir com pessoas elevadas.

      Abraço forte

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    4. António Luiz Pacheco15 de julho de 2013 às 06:12

      Com toda a sinceridade lhe tiro o chapéu!
      Se eu lhe fiz um toque... você nocauteou-me, meu caro e Extraordinário Amigo - espero poder passar a chamar-lhe também assim!

      É por gente assim que tanto gosto de aqui vir e do Vos ler!

      Um grande abraço!

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  4. Li " o raio verde" Jules Verne, há muitos anos atrás quando ainda era uma adolescentede, quanto ao filme não o vi. Ainda.
    Também gosto do Pedro Mexia, que merece esta pequena homenagem, tanto de o ler como de o ouvir no "Governo sombra" (também gosto muito do humor do Ricardo Araujo Pereira).
    Isabel

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