Em carne viva

Se tem estômago fraco, o melhor é nem se atrever a este romance, que é de extraordinária crueza no que toca a tudo: política, sexo, tortura e, sobretudo, carência de afecto e de humanidade. Dá para ficar deprimido um bom par de dias depois de virar a última página – mas é também dessas depressões que nos ensinam muita coisa sobre o ser humano em geral e sobre os dominicanos em particular. Chama-se A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao esta maravilha que nos magoa e interpela, e escreveu-a Junot Díaz, nascido na República Dominicana e actualmente professor universitário no MIT. Ganhou o Pulitzer (nem outra coisa seria de esperar) e conta-nos, através de três gerações de uma família amaldiçoada (de que Oscar Wao é apenas o membro mais novo), a história incrível de um país do qual pouco mais sabemos do que a existência de um lugar chamado Punta Cana, para onde se arrastam anualmente turistas que não se importam com a miséria que grassa à roda dos resorts. Mas esse paraíso de águas supostamente transparentes e brancos areais (nunca lá fui, mas acredito que seja assim) foi um autêntico inferno para os que lá viveram na época de Trujillo, o ditador que «reinou» durante uma parte considerável do século XX e praticou actos de confrangedora humilhação e vileza. Oscar Wao, no entanto, não passou por isso (senão através dos relatos da mãe e de uma tia), pois já nasceu em New Jersey, onde a vida não é fácil a um dominicano como ele, obeso, carente e sem namorada. A sua breve vida (e a vida mais longa dos seus parentes) é contada neste romance fulgurante por um ex-namorado da irmã, que foi seu companheiro de quarto na universidade e tentou ajudá-lo (mas não ajudou grandemente e sabe disso). Para leitores com estômagos decentes, este é um livro completamente imperdível.  

Comentários

  1. Ao ler este romance (li-o em 2010) fiquei certamente a saber mais sobre a República Dominicana do que a grande maioria dos portugueses (senão a totalidade) que nestes últimos vinte anos têm viajado para Punta Cana, CanCun e seus derivados...
    Só um àparte -qual é a diferença entre ir para a Costa da Caparica e ir para Punta Cana ou CanCun ? é mais longe, apenas...há coisas que não percebo, ultrapassam a minha compreensão.

    Por isso eu costumo viajar todo o ano com os meus livros.

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    1. E viajando assim, Severino, não só se bronzeia mais, como sente mais os cheiros, colam-se mais as paisagens, entranham-se mais os usos e costumes, diverte-se mais, aprende incomensuravelmente melhor, evita o stress pós regresso, poupa o erário, vai ao encontro e não de encontro, evita picadas, dengue e malária... a não ser, Severino, que siga o caminho inverso do turista incidental.

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    2. Talvez a diferença esteja, segundo se diz, na temperatura da água. De resto, ir à Caparica é uma tremenda chatice como ontem mesmo testemunhei, quando saí da praia às 10 da manhã. Ao chegar, nascia o sol, parecia o paraíso, mas a partir das 10h mais parecia um inferno, em especial nos acessos de entrada: calor excessivo, poeira, bichas intermináveis, má-criação. Já quanto ao viajar nos livros, ou viajar com livros, eu prefiro esta última modalidade, pois permite usufruir do dois em um.

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    3. Quanto ao Óscar Wao , já tanta vez olhei para o livro... histórias ácidas também gosto, mas agora vai ter de esperar que acabe Os Adeuses (também cruentos?) do Onetti, de quem confirmo tudo o que aqui foi dito.

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  2. Ainda não li esse livro embora já o tenha há algum tempo. Mas, do mesmo autor, li um extraordinário livro de contos intitulado "É assim que a perdes" que aborda também o quotidiano da comunidade dominicana de Nova Jersey. Inclusivamente uma das personagens principais deste livro de contos é o Yunior , que penso ser o narrador (ex-namorado da irmã) do Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao .
    O livro reúne um conjunto de contos todos interligados e que abordam o Amor nas sua diferentes formas. É brilhante a forma como o autor descreve a infidelidade compulsiva da personagem. Adorei!
    Por tudo isso, a expectativa para o A Breve e Assombrosa... é imensa!

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  3. Quer dizer: quem tem estômago fraco, não tem um estômago decente...

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  4. Há livros que passam despercebidos e são grandes livros, como este "A BREVE E ASSOMBROSA VIDA DE OSCAR WAO ".

    Por exemplo outro grande livro que passou completamente despercebido, já aqui falei dele e ainda recentemente o vi em saldos na Feira do Livro (a € 5,00), -"DOMÍNIOS DA NOITE" William Gay, um grande romance sobre a vida no interior do Sul dos Estados Unidos.

    Estamos em 1952 e é a história de um um músico de blues, que, após trinta anos de ausência, decide voltar a casa...

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    1. Feira do Livro de Lisboa; é que quanto à Feira do Livro do Porto, que não se realizou, soube agora que afinal a história não foi bem contada, como a pintaram muitos escritores e muitos blogues. É que parece que afinal os livreiros já tinham recebido uma determinada quantia combinada primeiramente, gastaram-na e depois pediram mais e o Rui Rio não foi na conversa...portanto houve aqui qualquer coisa mal contada...obviamente que apenas me contaram estes pormenores e atenção que não estou perto nem longe do Rui Rio, apesar de, na altura, muito me ter admirado já que o continuo a ter na conta de um homem sério e não tão contra-cultura como parece se está a fazer querer; contudo não estou em condições de fazer avaliações porque me estou a basear no que me disse alguém ligado a uma editora.

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  5. É sempre assim meu caro Severino...
    Quem conta um conto...
    Viajar nos livros é fantástico, mas tem lugares no planeta que são imperdíveis, lá isso tem.
    Bem hajam

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  6. Não conhecia este autor e fiquei interessada, neste livro e no de contos. Vou procurar, obrigado pela divulgação. :)

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  7. Gostei muito deste livro, mas, apesar da crueza com que se cose, consegui sentir-lhe uma ponta de humor. Quantidade suficiente para ultrapassá-lo sem a tal depressão.
    Ficou-me o livro na memória, ficou-me a história da RD na mente e ficou-me o nome de Junot Díaz na mira.

    Boas leituras

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  8. Sobre a história da República Dominicana e do seu ditador Trujillo, recomendo o fantástico "A festa do Chibo" do Mario Vargas Llosa. São três histórias paralelas das "garras" do ditador na vida de 3 personagens. Muito bom!

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    1. Esse está no top das minhas escolhas. Do melhor que já li.

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  9. Confesso que gostei infinitamente mais do É Assim Que a Perdes (e gostei tanto, meu Deus). A obra de Junot Díaz tem toda Yunior como narrador.
    No caso da Assombrosa Vida de Oscar Wao é uma personagem secundária mas quer em É Assim Que A Perdes, quer em Drown (ainda não traduzido para português), quase todos os contos são protagonizados por Yunior. E as histórias interligam-se de tal maneira que acabam por ser excertos de uma só.
    É Assim Que a Perdes é o livro mais curioso que li nos últimos tempos e Junot Díaz é decididamente uma voz incontornável da nova literatura.
    Senhor de um sentido de humor cáustico, reforça o discurso semeando palavras espanholas por onde lhe apetece provocando um efeito desconcertante.
    É tão bom que até temos pena que o livro acabe.

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