Luxos poéticos

Dizem que a poesia não dá de comer aos autores e até já ouvi a teoria de que alguns poetas publicam todos os anos para ver se lhes dão um prémio que se veja (em termos pecuniários, quero eu dizer, porque com tiragens tão pequenas não há direitos de autor que lhes valham). Já é difícil a um romancista viver do que escreve (falo de Portugal), mas um poeta ganhar dinheiro com a poesia está mesmo fora de questão. Apesar disso, deixem-me ser um bocadinho mundana. Hoje, no momento em que escrevo este post (uns dias antes de o publicar no blogue) estou instalada num resort de cinco estrelas no Algarve, com arquitectura de inspiração árabe que lembra alguns pormenores do Alhambra, como, por exemplo, um pátio com fonte e laranjeiras entre duas arcadas sob as quais ficam os quartos. Melhor: deram-me uma suite luxuosíssima com uma banheira maiúscula e jacuzzi privado que deve ter uma área total equivalente a metade de um andar de quatro assoalhadas. Melhor ainda: ofereceram-me o jantar durante uma semana num restaurante com uma varanda sublime. E porquê isto tudo? Na verdade, por eu ter escrito poemas e o meu último livro ter recebido o Prémio da Fundação Inês de Castro. Ao arrepio do que é costume, esta fundação, proprietária da Quinta das Lágrimas em Coimbra e do Vilamonte (onde estou) em Moncarapacho, perto de Olhão, dá ao premiado em cada ano um voucher para experimentar estas delícias e se sentir um escritor de sucesso por uns dias. E eu agradeço, e muito. Quem disse que a poesia não pagava umas boas férias, hã?

Comentários

  1. Deixou-nos cheios de inveja! E escreveu poesia durante a luxuosa estadia? Lembro-me de já ter dito aqui que só escreve quando está menos bem. O mesmo se passará com outros poetas, talvez. E, sendo assim, ainda bem que a vida não é sempre de calmaria, não acha?
    Por outro lado, nas primeiras aulas de Filosofia, recordo-me de termos refletido em como o ócio proporciona a reflexão, pois será possível refletir ou ser criativo se as necessidades básicas não estiverem satisfeitas?

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  2. Boas férias,
    e porque é que os poetas não deveriam usufruir das coisas boas da vida...eles mais do que ninguém querem e apreciam o belo e desejam-no para todos

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  3. "Um prémio que se veja", pelo menos isso parece que a Maria do Rosário recebeu como homenagem ao labor poético de uma vida.
    Que bom que seria que em Portugal houvesse mais destas Fundações !

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  4. A poesia a compensar, também ,quem a escreve. Boas férias.

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  5. Parabéns e bom proveito. A poesia também me compensa, só de lê-la.

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  6. «Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
    dos seus nomes; dos quartos virados a poente
    onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas...»

    Jamais esqueceria aquela maravilhosa semana, onde tudo foi tão perfeito, umas autênticas férias de luxo, prémio mais do que merecido pelo talento dela que, ainda assim, não se esqueceu da «extraordinária malta» do Horas.
    Obrigada Maria do Rosário!
    :)
    Antonieta

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  7. Nem só de poesia vive o homem!
    Bjs

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  8. Uma delícia de texto e uma semana muitíssimo merecida! Obrigada pela partilha! Sempre nos (me!) faz sonhar com incentivos à escrita de poesia e prosa!

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  9. Como prémio, está bem, está bem...
    A poesia não tem o luxo e as comodidades como alfobre; a poesia é dureza, vivência, expressão de dor e sentimentos (amor, ódio, encantamento), algum deslumbre e alma, muita alma.
    Não se veja isto pelo óculo do despropósito - ou seja, que eu provilegiaria um prémio que levasse a Rosário a uma cabana no mais recôndito da floresta interior, a tomar banho num lago ou num alguidar de barro, a comer o que a flora e fauna silvestres lhe proporcionariam. Nem a imagino aí!
    É certo que o resort será um local para ela utilizar esta sua fremente imaginação. Provavelmente, para além do mar e do pôr do sol, pouco mais haverá para amalgamar um poema, nem mesmo um jacuzzi, ainda que este tenha a área equivalente a metade de um campo de futebol.
    É um ambiente para ler, não para criar. É um ambiente para ler a poesia da Rosário, principalmente a sua poesia reunida.
    Boas férias, Rosário

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    Respostas
    1. Mesmo com o novo acordo ortográfico, não existe "provilegiaria", pelo que devo emendar para "privilegiaria" (do latim privilegiu).
      Também estou a precisar de férias.
      Com esta emenda, aproveito para dar os parabéns à poetisa MRP, pois bem os merece.

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  10. Assim não vale, Rosário. Se for preciso ser premiado, e ainda que os prémios sirvam a qualidade, poucos serão os poetas a quem a poesia proporciona tal requinte.

    Mas pronto: parabéns. Merece uma estadia revigorante. Que tenha aproveitado tudo, o toque a alhambra com laranjeiras e arcos de volta perfeita, o cheiro a mar que há-de haver nas redondezas, o perfume quente das noite algarvia, as casas a desmaiar. E não menos importante, as pessoas. Que ainda não são demais.

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  11. Me alegro mucho, Rosário. Disfruta y que, ojalá, te inspire nueva poesía. Esto es lo más parecido a pasar de las musas al teatro. Saudades desde Espanha.

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