Afinal, havia outra
Pois bem, algumas mulheres que conheço – escritoras – defendem que os seus livros vendem menos porque os jornalistas e críticos literários só dão atenção aos livros dos seus confrades homens. No caso que hoje me traz aqui, nada podia ser mais falso, uma vez que o livro era de um homem – Robert Galbraith, para ser mais exacta – e, desde que saíra, no Reino Unido, vendera uns míseros 1500 exemplares (que, por lá, é quantidade ínfima, como sabemos). E isso não acontecera por ter passado despercebido: tinha recebido excelentes críticas o policial de capa chamativa com o título The Cuckoo’s Calling publicado pela editora Sphere, que se pensava ser de autor estreante e promissor. Contudo, no domingo 14 de Julho, o Sunday Times, que adora uma boa manchete, pôs a descoberto a verdadeira identidade do autor, revelando que se tratava nada mais, nada menos de uma obra da pena de J. K. Rowling, a celebrada inventora de Harry Potter. Em poucas horas, o romance já era um dos mais vendidos da Amazon… Talvez os ingleses não possam ser acusados de machismo, enfim.
Não sei se será bem o caso. Poderíamos avaliar melhor se, em vez da afamada Rowling , o Sunday Times tivesse corrigido a identificação do promissor e estreante autor para Roberta Galbraith , relembrando a crítica positiva e revelando: afinal é uma lady !
ResponderEliminarIsto só prova que muitas e muitas vezes o que vende não são as boas histórias, mas sim o nome de quem escreve... É assim o mundo literário, como tudo o resto. Talvez por isso Lobo Antunes (que não se pode queixar de vendas, digo eu) defende que os livros não deveriam ser assinados, afinal nunca se sabe de que mão saiu a obra. É que um escritor será eternamente uma voz, uma mão que escreve o que, sabe-se lá quem ou o quê, dita... Quem escreve diariamente saberá certamente do que falo, aquele assalto que nos fazem as personagens a meio da noite ou do dia... Mas nem sempre as boas histórias são, merecidamente reconhecidas, pois o nome do escritor passou a ser a marca de venda.
ResponderEliminarUm abraço extraordinário
Carla Pais
Lá como cá.
ResponderEliminarNão se trata de machismo ou feminismo. É uma questão de público leitor, mal formado e de gostos duvidosos, influenciável por publicidade e editores que, de cultura, só a da conta bancária.
Já dei conta que há aqueles (e aquelas) que dizem ter lido A e B, sem terem lido coisa alguma; e que, ainda por cima, comentam como sendo autores supra, apenas porque estão na moda e é culturalmente correcto.
Há quem passeie pelos cafés e esplanadas dos ditos com cartapácios de Roth, Saramago e Cia, sem lerem mais do que a primeira página.
Não tenho pachorra para essas tretas!...
Ó Joca mas o que é que tem a ver o cu com as calças...deixós passear, incomodavam-me mais se andassem a armar com AS SOMBRAS DE GREY debaixo do braço, agora com Roth e Saramago sempre é sinal de bom gosto
EliminarÉ certo, Severino. Sempre é Roth e Saramago. Mas é isso que me incomoda. Transportam-nos sem os lerem, como se fossem troféus ou anéis de curso.
EliminarOs que apreciam a leitura das obras dos exemplos que apontei - tu e eu, por exemplo - lêem em casa ou no campo, mas não andam a passear pela praça pública; nem, estou em crer, iam comprar o livro da Rowling por ficarem a saber que era da autora do Harry Potter.
Há editoras que entram no jogo e vendem o nome do autor ou da autora, algumas delas - as editoras, claro - com tiragens de três e quatro mil exemplares, concomitantemente impressos com autocolantes redondos a dizerem primeira, segunda, terceira, quarta e quinta edições. O resto, já sabes como fazem a caldeirada...
Enfim, cada um é como é. Para ser sincero, dessa particularidade que me "incomoda", não vem mal ao mundo. O que me "dana" é o pedantismo saloio, bacoco e despropositado.
É verdade Joca , estamos de acordo, pedantismo bacoco que, afinal existe e todo o lado onde o homo vegeta.
EliminarQueres ver - a J. K. Rowling não é natural daquele país em que uma imensidão de bacocos (indígenas, atenção que não eram da Malveira) estiveram acampados três dias e três noites para "assistir" ao nascimento do príncipe ?
Boa tirada essa, Severino. São indígenas, mas não são da Malveira. Nem talvez das Malvinas.
EliminarSe bem me lembro, havia aquelas histéricas que acorriam à chegada e à partida dos Beatles e ainda se fazem filas para o primeiro dia de vendas de obras literárias e musicais.
J.K. Rowling não se safava, se se mantivesse em Portugal. Ora, para dizer tudo, a maior parte dos escritores portuguieses não se safa, se se mantiver em Portugal.
Não comecem a falar de livros debaixo do braço, que, à custa disso, levei aqui uma ensaboadela...
EliminarÉ por estas e por outras que não leio:
ResponderEliminarDAN BROWN
575-O ORELHAS
Sveva Casati Modignani
DANIEL STEEL
NORA ROBERTS
PAULO COELHO
RHONDA BYRNE (O Segredo) e outras alimárias do mesmo reino
Sei que o preconceito é algo politicamente incorrecto, mas eu leitor me confesso.
Curioso é o caso de Romain Gary, que conseguiu ganhar o Goncourt duas vezes, sendo este um prémio que só pode ser atribuído uma única vez na vida.
ResponderEliminarGary ganhou em 1956 com «As Raízes do Céu», e em 1975 voltou a ganhar com o livro «Uma Vida à sua Frente», escrito com o pseudónimo Émile Ajar.
Só seis meses depois da sua morte é que foi revelado um dos maiores embustes do mundo literário.
Ele engendrou tudo isto e conseguiu realmente receber o Goncourt duas vezes.
Curioso, não é?
:)
Antonieta
Mas "UMA VIDA À SUA FRENTE" é um excelente livro e só me lembro de na capa ter como autor ROMAIN GARY
EliminarClaro Severino!
EliminarEle só usou o pseudónimo quando submeteu o livro a concurso e até receber o prémio.
Quando o livro teve edição em português (cerca de 30 anos depois da edição francesa, salvo erro) saíu com o nome do autor.
Ele só quis provar que era possível dar o Goncourt duas vezes ao mesmo escritor, embora «escondido» num outro nome.
Pode pesquisar, a história é bem conhecida nos meios literários.
E ele era mesmo bom pois conseguiu o prémio sem revelar a verdadeira identidade, ao contrário da Rowling que não estava a vendar nada com o tal pseudónimo, conforme nos conta a Rosário.
:)
Antonieta
Gary/Ajar. Só podia ser um tipo brilhante, capaz de mudar de estilo e se tornar indectectável. Vou ler!
EliminarPLFF
E há um belíssimo documentário, que passou há uns anos atrás na RTP2, a propósito do episódio desse Goncourt que nomeadamente revela que o senhor Ajar, personificado fisicamente durante anos [deu entrevistas a jornalistas!] por um conhecido do Gary, espantosamente não quis deixar de ser reconhecido como o autor do romance depois de ter sido revelada a belíssima tramoia armada pelo escritor ! Um verdadeiro romance a acrescentar ao "Uma Vida à Sua Frente" !
EliminarTenho pena de não ter visto esse documentário, eu li um artigo na LIRE e depois pesquisei na net.
EliminarGary suicidou-se em 1980, deixando uma nota em que assumia ser Émile Ajar, e também que o seu suicídio não tinha nada a ver com o da Jean em 1979.
Quem não se lembra da belíssima Jean Seberg no «À Bout de Souffle» do Godard?
Foram casados durante vários anos e acabaram ambos tragicamente.
Antonieta
Absolutamente maravilhosa a Jean Seberg nesse belíssimo filme a preto a branco passado numa Paris que eu, jovem na altura, imaginava uma cidade perfeita e, sobretudo, mesmerizado por imagens e enredo que ofereciam vida e liberdade através do par mágico e trágico que ela fazia com o voyou " Belmondo . Marcou a minha geração.
EliminarHavia uma teia de procura de amparos mútuos entre a Jean Seberg e o Roman Gary . Ela era a mulher bela e jovem casada com esse homem genial, mas muito mais velho, que claramente lhe servia de pigmalião e de figura paterna.
Pelo seu lado, Gary não conhecera o pai e era filho de uma viúva judia que emigrara do leste para Paris e de quem ele dependia doentiamente. Lembro-me de ouvi-lo em discurso direto nesse documentário dizendo, já idoso e muito anos após a morte da sua mãe, que todos os dias fazia a si próprio a mesma pergunta: "será que a minha mãe estaria de acordo com o que vou ou estou a fazer ?"
Envelhecido e doente, sem a mãe e depois do suicídio da mulher/filha, que lhe restava ?
Não será a grande literatura a conjugação do talento genial com a necessidade de sarar pela escrita feridas profundas ? [ajudando-nos assim a sarar, pela leitura dos romances, as nossas próprias feridas]
Ó PLFF lê "UMA VIDA À SUA FRENTE" do ROMAIN GARY que é um excelente livro.
EliminarHá dias assim. Em que só me apetece dizer parvoíces, mesmo sabendo que estamos em casa séria, diferente daquela facebokiana onde podemos debitar palermices a granel, esconjurando os nossos mais infantis personagens. Mas a nossa anfitriã perdoa-nos. E a parvoíce de hoje é ver no texto uma boa oportunidade de negócio. Afinal em tempos de ressaca, sempre é preciso ir dando ao dente. E que tal o Dan Brown , o coelho Paulo, a Rowlings (olha, até o José Rodrigo de todos os Santos), começarem a alugar o seu nome cobrando percentagem aos etéreos (na acepção de puros) desconhecidos. Olha que bom! Rowlings , Dan Brown e Coelho, sociedade de (não) anónimos de sucesso garantido.
ResponderEliminarDisparatada reflexão a minha para putativa abertura de outra, isto quando parece vivermos já num admirável mundo novo onde se contam mais os escritores e candidatos do que os leitores. Como a informática e as novas redes alteraram a ideia de escritor e da escrita! Faz algum sentido tudo isto num mundo sobre ocupado, quase insustentável?
Talvez escrever não faça sentido no mundo actual. Ou talvez seja tentativa de dar sentido ao mundo. Ou esforço vão de o compreender. Talvez por tudo isto, ou nada disto, continue a ser importante escrever. De qualquer forma, todos aqueles a quem a pulsão da escrita lhes corre nas veias continuarão a escrever. Penso eu " de que".
EliminarInteressante caminho de reflexão José Catarino. Será que hoje o leitor continua a ter tempo ou disponibilidade para ficção, mundo ficcionado que todos os dias é ultrapassado pela mais ténue realidade. Será que a rede da palavra hoje já não retira a última palavra ao escritor? Será que os indefectíveis da escrita não escreverão cada vez mais para si próprios, para pequenos nichos, apenas por esse pulsar que lhes corre nas veias? Escrever com outro sentido para além deste se já não há cântaro ou jarro que sustente tudo o que jorra! Ainda é sustentável produzir palavras?
EliminarAinda é sustentável produzir e querer amordaçar as palavras?
EliminarSe lermos este texto no seguimento do de ontem, perceberemos afinal o quanto é necessário mudar para que se construa outra Europa...
ResponderEliminarSe o machismo fosse só dos críticos e editores... o pior é que vem também dos leitores, que acham que as mulheres só sabem escrever histórias de amor cor-de-rosa. Um preconceito que vem dos tempos em que não era comum uma mulher saber ler e que, cem anos volvidos, perdura. Não é por acaso que muitos autores (e autoras) anglo-saxónicos assinam com as iniciais.
ResponderEliminarA JKR criou este pseudónimo apenas para saber o que valia sem o peso do seu nome. E provou que não precisa Harry Potter para vingar. Agora gostava de ver o que diriam os críticos, e como seriam as vendas, se o pseudónimo fosse uma mulher...
Cara Filipa
EliminarSente o machismo na compra dos seus livros por parte dos leitores "machos"? E, caso o sinta, como é que chega ao seu conhecimento se são os livros comprados por homens ou mulheres?
Creio que os seus livros, os que são publicados em inglês, possam conter o seu nome e apelidos, sem que alguns dos leitores ingleses se possam aperceber da diferença que há entre Filipe e Filipa. Se assim fosse, a Filipa assinaria com as iniciais - F.F. Silva - como diz ser apanágio dos escritores anglo-saxónicos.
Caro Joca,
EliminarSinto o preconceito, claro, em primeiro lugar, pelo pela percentagem de homens vs mulheres que me contactam (facebook, email, pessoalmente), sendo que é comum os homens escreverem coisas como "achava que era um livro cor-de-rosa e fiquei surpreendido por ter gostado tanto." Em segundo lugar, porque tenho mais do que um amigo que mo disse na cara - "não leio livros de mulheres, salvo raríssimas excepções".
Quanto à versão inglesa dos meus livros, teria sido um opção inteligente assinar como F.F.Silva, mas jamais me conseguiria esconder por detrás de iniciais (ou de um pseudónimo masculino, que poderia facilmente ter criado neste mundo virtual) - assumo o meu papel de mulher, orgulhosamente, mesmo tendo a certeza que isso me vai roubar algumas vendas.
:)
Cara Filipa
EliminarPreconceitos à parte - e não os tenho, até hoje, no que diz respeito ao género - aprecio a leitura de boas obras literárias, sejam elas de autores masculinos ou femininos. Há homens que escrevem romances rosa (como já foi o meu caso, ao escrever contos desse âmbito para uma revista feminina) e há mulheres que escrevem thriller e terror.
Não, não creio que, por ser mulher e assinar como tal, haja menos vendas; pelo menos, vai ter mais um leitor - eu.
Desejo-lhe os maiores sucessos.
Obrigada Joca :)
EliminarEspero que tenha razão.
Felicidades!
Vocês acreditam que nos idos anos 60 (era eu um puto) mas lembro-me de um gajo (o Mega) que "cozia" um jornal de negócios americano (lembro-me que era cor de rosa) ao bolso de dentro do casaco e ia assim para a BRAZILEIRA do Chiado...sem tirar nem pôr
ResponderEliminarEsta questão dos pseudónimos dá que pensar. A The New Yorker publicou ontem um excelente artigo (http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/07/doris-lessing-and-the-perils-of-the-pseudonymous-novel.html?mbid=nl_Daily%20%28292%29) a respeito da rejeição em tempos de um livro de uma tal Jane Somers, que depois se viria a descobrir tratar-se de Doris Lessing. O que nos leva a pensar se a qualidade de certos livros lhes é verdadeiramente intrínseca ou se resulta da aura que alguns autores têm junto do público ou da crítica.
ResponderEliminarmuito giro o artigo. Obrigada pela partilha :)
EliminarBem...eu não sei se existe machismo literário em Portugal. Mas a verdade é que, coincidência ou não, a esmagadora maioria dos novos autores que vão sendo divulgados (pelo menos os mais propalados) são homens!
ResponderEliminarE o machismo da sociedade portuguesa, infelizmente, não se fica na edição de livros. É transversal.
Mas a nível de leitores não posso queixar-me. A esmagadora maioria dos meus leitores são, de facto, homens.
EliminarA propósito de JK Rowling, Robert Galbraith e livros de Herberto Helder por 120 Euros (realmente, somos muito pobrezinhos):
ResponderEliminar«Uma primeira edição do livro The Cuckoo’s Calling, assinada por J.K. Rowling como Robert Galbraith, foi vendida por aproximadamente 3400 euros no AbeBooks, o exemplar vendido pelo preço mais elevado de sempre na plataforma. Outro exemplar está à venda por aproximadamente 4700 euros».
Fonte: Blogtailors
http://www.blogtailors.com/6829487.html
Ao que chegámos. Também já dam fortunas pelas peúgas de John Lennon, espero que pelo menos estivessem lavadas.
Eliminar*deram
ResponderEliminarUsadas talvez até fossem mais caras...
EliminarIsto lembra-me de um livro que acabei de ler: Forged: Why Fakes are the Great Art of our Time, de Jonathon Keats. O autor fala das vidas de vários homens que falsificaram obras dos Velhos Mestres ao longo do século XX. Todos estes falsificadores eram pintores razoáveis, com talento, mas faltava-lhes aquele extra que faz a diferença. Todos eles eram ignorados pela crítica. Assim muitos vingaram-se falsificando pinturas antigas e passando-as como originais pintadas pelos Velhos Mestres.
ResponderEliminarO que acontecia era que estas falsificações recebiam sempre grandes encómias dos críticos. Alguns até declaravam estas falsificações os melhores trabalhos dos mestres, o que dava um grande prazer aos falsificadores.
Mas depois de a verdade sair cá para fora, esses mesmos críticos acusavam as mesmas pinturas de serem péssimas obras de arte. Ou seja, o valor artístico de uma obra pouco tem que ver com talento, é uma questão de consenso, de fama, de nome. Dá que pensar: afinal, a arte é o quê? Uma assinatura numa coisa? O consenso de uns quantos críticos? E o talento, já não conta? O livro é fascinante pelas questões que levanta sobre a legitimidade da arte e do papel do crítico.
Que ótima manobra publicitária!
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