Dar graxa ao amor

Juan Marsé é sempre garantia de horas extraordinárias – e O Amante Bilingue não foge à regra, embora assente numa história que custa a crer tivesse, na realidade, os efeitos desencadeados pela graça ficcionista do grande prosador espanhol (que já mereceu o Cervantes, o Quixote das Letras Espanholas e o Juan Rulfo, entre muitos prémios). E, se falo em graça, não posso também deixar de falar em graxa, porque é de verdadeiros e falsos engraxadores que se faz esta trama fantasiosa. O enredo envolve um pobre diabo, metido por engano numa greve de fome e transformado provisoriamente em herói por uma mulher míope da classe alta que acaba por se casar com ele. Mas a miopia não a impede de olhar para outros homens (vê bem ao perto), especialmente os morenos do Sul, e de trair o nosso protagonista com um engraxador que, depois de apanhado em flagrante com ela, se surpreende a ouvir desabafos do marido enganado enquanto lhe engraxa os sapatos todos lá de casa. Quinze anos mais tarde, ainda não passou a dor de corno a Marés (assim se chama o pinga-amor) e, numa noite de Carnaval, ele tem a ideia peregrina de se fantasiar de engraxador e assim tentar reconquistar a mulher da sua vida. Entre um caderno de memórias na primeira pessoa e um relato de um narrador externo na terceira, esta história deliciosa prova que até ao amor convém dar alguma graxa...

Comentários

  1. Já o tenho...
    Do mesmo autor li o "Rabos de Lagartixa" e o "Caligrafia dos Sonhos". Este último tem umas das minha personagens preferidas de sempre: a admirável, estonteante, melodramática, capitosa, apaixonante Srª Mir . :) Adoro!

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    1. Por acaso, um dos livros que quero comprar é a caligrafia dos sonhos. Pelo título. Nem sequer me lembrava do nome do autor :)

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  2. Confesso que nunca li nada do Juan Marsé, mas com o entusiasmo de duas pessoas que tanto prezo, acho que vou mesmo comprar um livro dele.
    :)
    Antonieta

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  3. António Luiz Pacheco16 de julho de 2013 às 02:44

    A história promete... mas, porque raio tem esse nome: Amor bilingue?

    Dar graxa ao amor... Bom é uma idéia muito engra(x)çada, e por aqui há algumas moças bem engraxadinhas... eheheh!

    Xaudações kaluandas!

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    1. O «bilingue» vem do facto de o marido ser catalão, mas, no seu disfarce, falar castelhano de Múrcia.

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  4. Juan Marsé é um dos autores que mantenho em lista de espera, vá-se lá entender porquê... se pudesse ler apenas um livro dele, qual me recomendariam?

    A razão do meu comentário é outra: não pude deixar de notar que o nome da personagem (Marés) é um anagrama de Marsé.

    Cumprimentos a todos,

    Rui Miguel Almeida

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    1. O livro mais emblemático do autor chama-se «Últimas Tardes com Teresa». Dos que li, o que mais gostei foi «Rabos de Lagartixa».

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    2. Obrigado! Será uma das próximas compras. Já vi na net que a biblioteca de Aveiro tem um (único) livro dele, "O feitiço de Xangai". Talvez comece por esse. Gosto de resgatar os livros do seu sono resignado nas estantes.

      Rui Miguel Almeida

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  5. Ao amor convém estima, resguardo do pó, uma atenção carinhosa e não difusa. Se isto for graxa, então sim, precisa.
    Que os amores são como o calçado, não é todo de engraxar.

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  6. Marsé foi paixão ao primeiro livro e ainda não desiludiu. Assim que Roth me der tréguas, é ao catalão que volto.

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  7. De Marsé li isto:

    «Durante quatro dias, Nandu Forcat não saiu à rua e nem sequer assomou à varanda. Diante da porta pairava noite e dia o cheiro a gás e agora uma sensação duplamente excitante apoderava-se de quem por ali passava, como se o gás e o pistoleiro tivessem estabelecido uma aliança perigosa. Ao entardecer do quinto dia, o capitão Blay comprou o jornal diário Solidariedad Nacional e pegou-lhe fogo por detrás do quiosque, muito perto da entrada. Duas mulheres que passavam por ali ficaram em pânico e desataram ao correr aos gritos, mas não se deu nenhuma explosão.
    No dia seguinte, por volta das quatro horas de uma tarde que ameaçava chuva, apresentou-se inesperadamente um piquete da Companhia do Gás, dois homens e um capataz, e, manipulando picaretas e pás, levantaram o passeio e abriram uma vala à frente do número 8. (O Feitiço de Xangai; Juan Marsé pg.15)»

    Como de costume, por um qualquer efeito dispersão que os livros parecem tomar, a comparação na altura feita foi: dois homens e um capataz! Hum... E então, o fiscal, o ajudante de fiscal, o dono da obra, o calceteiro, os cavadores, o técnico encarregado, os supervisores, ... vi logo na altura que a trama não tinha a ver com as nossas cidades.

    E estes autores que nos deixam sonhar fora do "Livro" são os melhores!

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  8. Então o homem, aturdido com o desabafo do marido enganado, vai engraxar os sapatos lá de casa? Ehehe, parece bastante divertido.

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  9. Num princípio de tarde, já lá vão uns bons anos, cruzei-me com o Juan Faneca Roca nas Ramblas em Barcelona. A sua cara de boxeur reformado é inconfundível. Sem mais, sorri para ele e num catalão aportuguesado disse-lhe:
    - D. Faneca het comprat d ahir“ El Embrujo de Shangai ”. Sabe que na escola eu tinha como ápodo o seu nome... Faneca! Ele sorriu, retirou de uma velha pasta um livro e escreveu:

    “... Vivam los Fanecas!”
    Juan Marsé

    O livro era e é “ Lá muchacha de las bragas de ouro”.

    Fiquei sem sangue e tentei ensaiar um "gràcies ” sentido, ele respondeu com um gesto de mão como a dizer não é nada... Foi um prazer e apontou ao Mercat de la Boqueria.
    ... Ler Juan é uma decoberta permanente.

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