O escritor suíço
Quanto pensamos na Suíça, pensamos em queijos, bancos, relógios e chocolates antes de pensarmos em pessoas. Podemos pensar também na organização levada ao extremo – a minha irmã foi uma vez a um médico na Suíça e veio de lá a dizer que até a vaca estava arrumada na paisagem; outras pessoas que lá viveram contaram-me que, depois da meia-noite, ninguém pode puxar o autoclismo e que, quando alguém faz uma festa em sua casa à noite, tem de colocar um aviso junto das caixas do correio para que os vizinhos não chamem a Polícia. Naquilo que certamente não pensamos é em gente célebre – e a mim, mesmo fazendo um esforço, só me ocorre assim de repente o pintor Paul Klee, o psiquiatra Jung ou – aquele que hoje me traz aqui – Robert Walser, o escritor de língua alemã que foi um dos favoritos de Musil e Hermann Hesse e parece ter agradado bastante a muitos outros confrades, incluindo Kafka. Sobre ele escreveu, de resto, Gonçalo M. Tavares um dos seus Senhores (O Senhor Walser) e, para mim, é um autor dos mais desconcertantes em que pus os olhos, pois consegue a proeza de escrever uma coisa e o seu contrário sem que isso nos pareça estranho, antes louvável e original. Por exemplo, num livro de ficções curtas que li recentemente, A Rosa, uma personagem não só consegue discordar de si própria como, ainda por cima, se consola por causa disso. Os textos de Walser estão cheios de coisas inesperadas, frases que parecem aterrar neles vindas de um tempo mais moderno do que o seu, criaturas metidas em cenários que simplesmente não as pediam (um macaco numa taberna sem saber como se comportar com as senhoras), uma deliciosa desfaçatez que pode ser logo a seguir desarmada por um pedido aos leitores para que não levem aquilo a sério; enfim, têm uma pitada de loucura – o que, bem vistas as coisas, pode ter uma razão de ser, porque Walser esteve internado mais de vinte anos num asilo para doentes mentais (mesmo que alguns médicos achassem que ele estava bom, recusou-se a deixá-lo até à morte) e havia até uma história de doença mental na sua família. Mas não são todos os génios um pouco loucos? Mesmo na bem-comportada Suíça?
Um dos grandes poetas espanhóis contemporâneos, Leopoldo María Panero , vive voluntariamente desde o final da década de 80 em instituições psiquiátricas. É fascinante ver como essa "loucura" coexiste com a lucidez suficiente para produzir alguns textos, em poesia ou em prosa, tão belos como os seus.
ResponderEliminarNão consigo ir à bola como Walser e tenho pena, porque gosto de todos à volta dele, desde o Broch ao Tavares. Tenho com o Walser o mesmo problema que com as castanhas assadas, o chá e o xadrez. A sensação de que têm tudo para se gostar deles (o charme mittleuropeu , um aspecto reconfortante, uma um modo elegante de exercitar o neurónio , respectivamente) e no entanto...
ResponderEliminarW.G.SEBALD caracteriza, n "O CAMINHANTE SOLITÁRIO" esta interessante personagem, que deve ter passado as passas do Algarve por viver num país tão arrumadinho quanto cinzento:
ResponderEliminar"Os vestígios que Robert Walser , escritor suiço de língua alemã, deixou da sua vida são tão ténues que quase se apagaram. Nunca se apegou a um sítio, nunca adquiriu nada para si. Nunca teve casa nem qualquer morada duradoura, nenhum móvel, e por único guarda-roupa somente um fato melhor e outro mais modesto. Não possuía sequer o que um escritor necessita para exercer o seu ofício. De livros, ao que creio, não tinha nem os que ele próprio escreveu. O que lia era quase sempre emprestado. Até o papel para escrever lhe chegava em segunda mão. Distante toda a sua vida dos bens materiais, esteve-o também dos seres humanos".
Bem, viver num país às cores, desarrumado, também parece enlouquecer os seus cidadãos...
EliminarJá Eduardo Lourenço dizia em 1982:É pena que Freud não nos tenha conhecido; teria descoberto, ao menos, no campo da pura vontade de aparecer, um povo em que se exemplifica o sublime triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade"
EliminarE o escritor suíço que está no top de vendas, Joël Dicker, alguém já leu alguma coisa dele?
ResponderEliminarSe tá no top das vendas não deve ser grande espingarda...
EliminarAliás, basta ver quem lá está...
ResponderEliminarNão conheço esse Robert Walser; mas folgo muito que tenha publicado um artigo tão interessante. Vou pesquisar sobre o homem. Disse que teve vinte anos num asilo? Isso é incrível. Boas postagens!
ResponderEliminarBem, nós sabemos por experiência própria o que é viver muito tempo num país kafkiano, uma espécie de grande asilo de doentes mentais, onde também os personagens "discordam de si próprios e, ainda por cima, se consolam por causa disso"...
ResponderEliminarE, vá lá ao menos! até que é divertido.
(Cá está a tal auto-consolação...)
A propósito, vejo agora no JN, «Governo garante que Portugal vai continuar a receber bacalhau sem químicos».
EliminarCrise?! Qual crise?!
Cuidado mas é com o sol!
Quanto ao resto, podemos estar descansados.
(Resumo da conversa com o macaco de Walser ao balcão da taberna)
Não conheço o escritor, mas, seguramente, o asilo onde viveu pouco terá a ver com alguns que conheço. É certo que em Portugal os asilos são instituições que recolhem a terceira idade sem verba para instalações de outra natureza. Dependem bastante da qualidade dos funcionários.
ResponderEliminarMas o génio é um lado bom de ser louco. Que não é dado à maioria viver. Apátrida. Talvez não seja muito são o convívio com o génio; cumes muito elevados tornam mais profundos os vales.
Se não me engano aquele filme de João César Monteiro em que desapareciam as imagens e ficavam só os sons (cinema!) era adaptado de um texto de Walser. Se era, faz sentido.
ResponderEliminarCara Maria do Rosário Pedreira
ResponderEliminarTenho 24 anos, sou leitor assíduo do seu blogue, e leio muitos livros que edita. Acabo de ler "As três vidas", de João Tordo, e surge-me uma questão acerca da trama do romance, que gostava que comentasse:
O narrador-personagem (que não sabemos o nome) descobre, por mero acaso, a livraria Three Lives Bookstore, enquanto passeia por Greenwich Village, e que vem a ser o local onde, posteriormente, reencontra Camila Millhouse Pascal, (que tinha dito a uma colega do dormitório que vivia "em cima de três vidas").
Esta é uma solução viável para o problema que é: voltar a encontrar Camila no meio de Nova Iorque, sem qualquer pista do seu paradeiro. Mas não deixa de ser um caso de "Deus ex-machina". Certo? Até porque, penso eu, a referência à livraria "Three Lives Bookstore" é feita apenas quando o narrador-personagem a descobre. Ou seja, esta livraria não entra na história, nem como figuração, antes de haver uma necessidade real, antes da página 272, no capítulo "o enigma desvendado". Certo?
Gosto muito de João Tordo e é o terceiro livro dele que compro, e planeio comprar os três que me faltam. Mas uma solução como esta, que a meu ver é um "deus ex-machina", não é de evitar, na construção de uma história?
Não estou a insultar, e espero não ofender. Sou apenas um leitor aspirante a escritor, e gostaria de aprender mais acerca deste "ofício".
Obrigado!
Fiz a tese de mestrado sobre Robert Walser , quando pouco ou nada se conhecia sobre o autor entre nós. Existia apenas 'O Passeio e outras Histórias'. É um escritor maravilhoso e desconcertante. Contemporâneo de Thomas Mann de Kafka e de Pessoa, dedicou-se essencialmente à prosa breve e cultivou uma existência discreta e solitária, pautada por crises existenciais e constante mudança de domicílio (são inúmeros os endereços onde residiu em Berna e Zurique, sobretudo na década de 20). Por fim, acatando a opinião de familiares e médicos, concordou com o internamento num sanatório, onde permaneceu entre 1933 e 1956, ano em que morreu. Nunca mais escreveu nada, porque entendia que a escrita só se exercia em plena liberdade. Morreu no dia de Natal durante um passeio na neve. A sua é uma obra dedicada às pequenas coisas, ao pormenor que chama a atenção daquele que faz do passeio tema e mote da escrita. Muitos dos seus textos foram escritos a lápis, em papéis avulsos, numa caligrafia minúscula e de difícil decifração. Estes 'microgramas', como ficaram conhecidos, só foram descobertos e decifrados depois da sua morte: um espólio que parecia nunca mais acabar... É um universo fascinante a descobrir. Aconselho, sobretudo, a leitura de 'O Passeio' e de 'O Salteador'. O (polémico) filme 'Branca de Neve', de João César Monteiro, baseia-se no texto dramático homónimo de Walser .
ResponderEliminarFico muito contente que entre nós se reconheça o valor da sua obra. Mesmo nos países de língua alemã, só a partir da década de 70 é que Walser se tornou mais conhecido. Quem souber Alemão (e digo isto porque não sei se o ensaio está traduzido para inglês ou francês) leia o ensaio de Walter Benjamin sobre Walser . O texto é de finais da década de 20, mas é, para mim, dos mais esclarecedores sobre este autor.
Obrigada pela referência!
Marta