Estamos aqui

No sábado 2 de Fevereiro, eu – que ao fim-de-semana tento afastar-me de lançamentos e outras coisas que se pareçam com trabalho – não resisti a ir à sessão de apresentação do novo livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães na Bertrand do Chiado. O poeta merecia, pois, além de ser um grande escritor, é um confrade culto e generoso que conhece bem a poesia contemporânea e se dedica há muito a divulgá-la em blogues e ao vivo (e às vezes é tão raro um escritor escrever sobre os outros que, pela parte que me toca, não podia faltar). A obra saída do forno chama-se Você Está Aqui, numa clara alusão aos mapas de cidades e transportes públicos que não raro nos orientam nas suas redes a partir de um ponto preciso. Trata-se, assim, de um livro de poesia que é também um livro de viagens e cuja divisão se faz em duas partes – Partidas e Chegadas. Corresponde a primeira a textos sobre cidades estrangeiras, embora nada tenha de postal ilustrado, antes visitando a história pequena e a História maior desses lugares (pessoal e oficial). A segunda faz-se do regresso ao País, aonde é sempre difícil voltar quando as coisas parecem todos os dias mais decadentes, o que torna a leitura mais implicada. A apresentação da obra esteve a cargo de outro poeta – António Carlos Cortez – e foi mesmo interessante. Que bom ter estado lá. Agora, estou aqui, a ler o livro.

Comentários

  1. Decantar - não depurar que a tanto não me atreveria, não há depuração possível fora de nós - é separar componentes imiscíveis. Ou seja, aqueles que não se dissolvem aparentemente uns nos outros, por mais que se diga não misturarem mesmo na essência. Um dos meus maiores divertimentos é, olhar um texto e decantá-lo «do outro» na sua complexidade; como se os textos fossem seres vivos, animados, despertos, com braços, pernas, narizes, ouvidos, sentidos: sim, porque todos os textos são complexos; trazem um bocado de nós dentro deles, uns seres microscópicos que teimam em ocupar cada pedaço do nosso cérebro, das nossas mãos, dos nossos pés. Decantando-os, assim, finjo, sabendo que é apenas uma ilusão, os tornar em dois. A decadência falada, já não é apenas uma decadência civilizacional, da pátria, da mátria, ou mesmo dos sentidos, como a decadência, isolada dos outros sentidos e propalada por um autor aqui muito falado, o Caminha, o da decadência de um importante sentido - a do olfacto. Implicar a leitura, das nossas ruas, das nossas vielas, até das nossas mazelas do dia - a - dia, não implica, no entanto, a cirurgia das palavras: essas, as deixamos para os corpos inanimados. O que me preocupa, mesmo, é a decadência da lembrança; o regresso, por esquecimento, ou ignorância, a um lugar devastado - o que implicará um novo regresso, um novo recomeço e a dor desse lugar esquecido. E é por isso que, através da poesia, estamos aqui para o que der e vier!

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    1. Decantar e decadência, duas palavras irmãs, tão bem acariciadas pelo Sande de tão generosa prosa poética !

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    2. April is the cruellest month...

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  2. É exemplo renovado de médico com intensa atividade literária. Fiquei com uma dúvida sobre a estrutura do novo livro do Barreto Guimarães: é um livro misto de prosa e poesia sobre a viagem, ou trata-se de um livro só de poemas dedicados à viagem? Bem sei que posso esclarecer a dúvida indo a uma livraria, mas já agora, uma palavrinha mais sobre a composição do livro seria bem apreciada.

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