Bicicletas
Agora, que a coisa aperta cada vez mais, até nas sete colinas da capital, num sobe-e-desce desgraçado, as bicicletas multiplicam-se, poupando-se em combustível e ganhando-se em exercício físico. E, por falar em bicicletas e em miséria, um dia destes revi o belíssimo Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica, que venceu em 1948 o Oscar de melhor filme estrangeiro; uma história passada em Itália cujo protagonista é um pobre pai de família lutando por um emprego numa altura em que não há trabalho para ninguém e o único lugar que lhe oferecem – a colar cartazes pela cidade – implica, justamente, ter uma bicicleta (e o pior é que a dele está no prego e vai ser preciso pagar para a tirar de lá). Nunca li o romance de Luigi Bartolini em que se baseia esta longa-metragem (que, por acaso, nem é assim tão longa) e, portanto, não sei se nele o desfecho é o que conheço – nem como de uma história que, aparentemente, se resume em três linhas, é possível fazer mais de cem páginas (mas ainda hei-de descobrir). No filme, porém, depois de conseguir trocar a bicicleta com os lençóis da própria cama na loja de penhores, este pai verá, enquanto trabalha, ser-lhe roubado o velocípede em plena rua – e, com ele, a possibilidade de ter um salário e alimentar a família. E, porque a Polícia nada faz para o ajudar a encontrar o ladrão, resta ao coitado imitar o patife, mesmo que não se saia tão bem como era preciso e a cena decorra debaixo do olhar crítico e devastado do próprio filho. Desconheço se estamos tão mal como os italianos nesse longínquo pós-guerra, acho que ainda não, mas, com tudo o que sabemos que vai acontecer e mais o que ignoramos, palpita-me que também aqui comecem a desaparecer bicicletas...
Lisboa realmente não convida muito à bicicleta, quase de certeza que os ladrões preferem "pedir emprestados" outros meios de transporte. :)
ResponderEliminartambém vi o filme, há quase muitos anos. talvez seja esse o melhor momento do cinema italiano.
a capacidade de brincar com coisa sérias, é única em Itália.
pode ser uma das explicações para que Berlusconi tenha sido primeiro-minstro (e queira ser novamente...).
Para quem goste ou queira saber um pouco mais sobre cinema italiano, há o belíssimo documentário de Martin Scorsese, "A minha Viagem a Itália".
ResponderEliminarCristina
"Desconheço se estamos tão mal como os italianos nesse longínquo pós-guerra, acho que ainda não, mas, com tudo o que sabemos que vai acontecer e mais o que ignoramos, palpita-me que também aqui comecem a desaparecer bicicletas...", revejo as minhas preocupações na íntegra.
ResponderEliminarPor favor, não interpretem mal este meu comentário, juro que é feito com um piscar de olho:
ResponderEliminarpassando a nossa anfitriã a vida a ler originais, admira-me que não saiba "como de uma história que, aparentemente, se resume em três linhas, é possível fazer mais de cem páginas". Não leu já exemplos suficentes? ;)
P.S. E, se detetarem erros nesta minha contribuição, por favor, remetam-se ao silêncio, como verdadeiros cavalheiros (e damas ;)
P.S.2 Na Alemanha, onde ainda não chegou tal crise e o clima é bem severo, há montes de bicicletas a circular pelas ruas (e, sim, também se roubam, ao meu marido já roubaram duas).
Cumprimentos!
Pode ser um problema do meu poder de síntese, mas não me lembro de nada que tenha publicado que se resuma em três linhas. Quando faço os textos de contracapa, o difícil é fazê-los pequenos por causa disso. Mas acho maravilhoso, por exemplo, «O Velho e o Mar», que se conta numa linha e dá muitas páginas, todas maravilhosas. Pisco-lhe também o olho pelos P.S.
EliminarPermita-me ainda uma correção: eu referia-me mais a originais que se recusará publicar, precisamente, por estarem cheios de palha, do que àqueles que acha digno de publicação.
EliminarOu o Amor de Perdição, magistralmente sintetizado por Camilo numa linha: "Amou, perdeu-se, e morreu amando."
EliminarSem pensar muito, parece-me que facilmente se sintetiza qualquer clássico em poucas frases. Talvez por os respectivos autores não frequentarem cursos de escrita criativa...
No Brasil - o clima ajudará, certamente - o uso da bicicleta também está em crescimento. Lá acontecerá ou ou outro assalto, mas há quem se atreva a largar o velocípede, ainda que mantendo-o debaixo de lente:
ResponderEliminarhttp://grama.pt/2013/01/sao-paulo-a-boleia-de-dannyzappa/
(perdoem a publicidade, mas julgo que gostarão de conhecer - se é que não conhecem - as fantásticas composições deste simpático brasileiro)
Queixumes à parte, que não me apetece escrever sobre a realidade... não sei se foi o momento mais brilhante do cinema italiano. Sei que foi um de muitos.
ResponderEliminarNo entanto, acho bizarro como todas as correntes estéticas se dissolvem:
Este Neo-realismo derivou para o useiro e vezeiro Romantismo exacerbado que tanto eles (os realizadores) criticaram.
Sobrou apenas a qualidade dos filmes.
Foi assim Com Vittorio de Sica e Luchino Visconte.
Sou um sexagenário bem sei que ainda novo, mas não me vejo a circular para o trabalho de bicicleta: são bem 22 km, ida e volta, de subidas empinadas e descidas a condizer, com trânsito severo e nem sempre respeitador: só se eu fosse doido! Isso está bem lá para as alemanhas e holandas, ou nos filmes, onde a vida será certamente mais suave.
ResponderEliminarTem razão. As cidades portuguesas são um horror para os ciclistas. Nunca mais me esqueço da fila de carros que se formou atrás do meu marido, e dos buzinões que ele teve de aguentar, há mais de vinte anos, quando se lembrou de atravessar a estreita ponte de D. Luís, que liga Porto a Gaia, de bicicleta! Enfim, coisas de alemão... ;)
Eliminargosto tanto de bicicletas que nem sei comentar este post (ainda que eu mesma já lhe tenha feito quatro, sem esgotar). Por vezes, a gente começa numa relação de utilidade e acaba em amor desalmado. Mas eu comecei logo em amor desalmado. A adiantar.
ResponderEliminarConcordo, as cidades portuguesas não foram pensadas para pedalar. Mas há uns bocadinhos em que podemos :). Desforrar-nos. Levar com o ventinho de frente e dos lados todos que existem. A incomodar, o senhor vento. Ou a empurrar-nos :).
Na minha terra que não é Lisboa, já roubaram várias. Ainda faço um post à compra do cadeado :).
Nunca li o livro, mas gostei desse filme. Em termos gerais, lembra-me um Portugal a que espero não voltemos.
E Um Bom Dia de Sol
Coincidência: ontem vi um belo filme que está atualmente nos cinemas e em que uma bicicleta também é decisiva. "Um porco em Gaza", produção europeia que é a primeira obra de um francês que é reporter de agência noticiosa na América do Sul. Não é um grande filme, mas tocou-me mais do que o afamado "Lincoln". É uma comédia bem intencionada sobre as relações entre palestinianos e israelitas comuns que querem resolver os problemas do seu dia-à-dia mas que têm a vida estragada pelos integristas de ambos os lados. Vale sobretudo pelo extraordinário desempenho do ator que faz de protagonista. Se tiver visto o filme, procure a biografia desse ator. Estou certo que ficará tão surpreendido quanto eu !
ResponderEliminarEsse é sem dúvida o próximo filme que irei ver!!! Vi o trailer, o que me ri!!! E eu que nem vou ao cinema para me rir, este cativou-me definitivamente, como é possível que o porco seja uma ameaça internacional?! Ai, e aquela cena em que tentam fingir que o porco é uma ovelha!?? Simplesmente hilariante!!!
EliminarIsabel
Eu...Lincoln não é um filme cómico. Respeitando preferências individuais e acrescentando até que eu mesma esperava uma história diferente, considero que Daniel Day Lewis ergueu a humanidade do presidente. Em arte e originalidade. Imagem que seria simpática ao próprio Lincoln :)
ResponderEliminarE, se mais não houvesse, que há, isto bastaria para ser um bom filme
Exercício e livros? Aqui fica uma recomendação: O Ultra Maratonista, Dean Karnazes . Quem lê fica com vontade de sair para a rua e correr, mesmo que no meio de carros!
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