Aos pares

Em determinadas épocas perfilam-se pares de autores que atingem um grau de sucesso semelhante. São, pois, concorrentes, seja nas vendas, seja na notoriedade e nos prémios alcançáveis. Por vezes, tornam-se adversários – e isso leva a que, tantas vezes estupidamente, se pense que quem lê e gosta de um não terá pelo que o outro faz grande atracção ou genuíno prazer. Dizer que quem adora Saramago não pode gostar de Lobo Antunes – ou vice-versa – é uma tolice, embora possamos pender mais para um do que para outro por terem estilos francamente diferentes. Nos meus tempos de faculdade, era-se mais Herberto Helder ou mais Eugénio de Andrade, por exemplo, como se não se pudesse ser isso tudo e ainda mais (Sophia, Ruy Belo, Jorge de Sena ou Ramos Rosa). No Brasil, se vou como poeta a algum encontro, logo querem saber se sou adepta de Drummond de Andrade ou de Manoel Bandeira; e um amigo italiano que escreve poesia perguntou-me uma vez se eu era dos que amavam Ungaretti ou dos que preferiam claramente Montale. Enfim, esta coisa de um contra o outro não me agrada. Porque não aos pares?

Comentários

  1. SARAMAGO-um colosso -para mim-!

    Actualmente sou absolutamente incapaz de ler mais de 15/20 páginas de Lobo Antunes, bem tenho tentado mas em vão, acredito que o defeito seja meu e que não tenha bagagem para tanta literatura mas "aquilo não liga a bota com a perdigota ", o último que tentei LOBOLOS QUE RIOS VÃO" nem o título consegui digerir. E, curiosamente, há cerca de 30 anos devorei os seus três primeiros livros "CONHECIMENTO DO INFERNO", "OS CUS DE JUDAS" e "MEMÓRIA DE ELEFANTE". Deixem-me só desabafar com este aviso já lerem FLANNERY O'CONNOR? uma pérola, cada vez que relembro "SANGUE SÁBIO" fico de rastos com tão grande literatura e que belos contos "UM BOM HOMEM É DIFÍCIL DE ENCONTRAR", leiam, por favor.

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    1. "sôbolos rios que vão" é também uma pérola.

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    2. imagino que se refira às redondilhas de Camões "Sôbolos rios que vão por Babilónia, me achei"... Essas, sim, uma pérola. Quanto ao livro de António Lobo Antunes, não sei, não consigo lê-lo. Sinto sempre que ele está-se a borrifgar para o leitor e não gosto disso. Gosto que haja um trabalho de organização do texto e não gosto da sorte de quem não o faz.

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    3. António Lobo Antunes está-se mesmo, creio, borrifando para os leitores e não sei se me interessava muito se não estivesse. Não me parece que tenha a mínima pretensão a agradar uma maioria ou sequer muitos.

      Dizia Saramago (e que curioso que se adapte tão bem a Lobo Antunes) "O caos é uma ordem por decifrar". Tudo parece tão difícil e depois há uma vaga estranha de clareza. Se ler António Lobo Antunes fosse fácil não o lia. A sua genialidade está, parece-me, na aparente (?) anarquia.

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    4. Não é anarquia, caro José Diogo. É caos. Por exemplo, Milan Kundera. É difícil? Muito, bem mais do que Lobo Antunes. Mas um grande escritor: quem quiser, encontra um sentido ao que escreve. Lobo Antunes, para mim, e desculpem-me todos os seus vassalos, é um escritor menor. Simplesmente, não sabe escrever.

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    5. Receio ser um dos seus vassalos então, Manuel (e daí não sei se receio). Admito e admiro a genialidade de Milan Kundera mas pessoalmente aprecio muito mais a obra do Lobo Antunes. A forma como o silêncio de que ele tanto fala assola o livro e os silêncios deixam de ser pausas entre as palavras passando as palavras a serem pausas entre os silêncios.
      Enfim, pode sempre ser deficiência da pouca idade que tenho. O tempo se encarregará de mo mostrar.

      Entretanto, aguardo assim, apaixonado pela obra dele. :)

      José Diogo

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  2. Só para corrigir que Manuel Bandeira é com u.
    C/ votos de bom dia,
    Elsa
    PS - Concordo até com trios, quartetos....

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  3. Eu, contido nos encómios e totalmente contra as sinecuras de que se fazem nalgumas latitudes os dias, dei por mim, num daqueles raros impulsos da vontade, a apoiar in loco pela palavra um daqueles escritores que parecia desanimar face à crueldade, à injustiça da desestima literária, ao sentido do amor - próprio literário, à sua irrelevância para o outro, à recusa e omissão da pequena centelha de motivação pela notoriedade. Numa sociedade pequenina, o sucesso de uns parece obliterar o sucesso de outros, como se a mercearia da esquina não ganhasse com o pequeno supermercado do topo e vice - versa. O monopólio e/ou o oligopólio do sucesso, não são/é exclusivo da rua, mas do racional humano. Assim, Caro L.C:
    A palavra é tudo o que temos, o corpo inimaginável que nos permite contrariar a decadência dos sentidos, tornando o mundo mais desprovido da insanidade da ganância, da injustiça, do calculismo, do ódio, do interesse, da ignorância, da precariedade, do desconhecimento, do absoluto. A palavra é a reconversão do efémero, imaterialidade que derruba fronteiras, harmoniza conhecimentos, solidifica a paz, separa os elementos nucleares, decanta os elementos pesados dos leves. A palavra não é, nem fraqueza, nem vanidade, nem solidão, nem ridículo, mas a compreensão de nós num universo incompleto, complexo, diferenciado. Numa palavra há candura, mas há também dureza; numa palavra há dúvida, mas também certeza; numa palavra há pieguice, mas também coragem; numa palavra há intangibilidade, mas também matéria sensível; numa palavra há mundo, mas também aldeia, lugar, habitáculo. Os actos, esses, são apenas um instrumental das nossas palavras, eixos cartesianos que se movem positiva ou negativamente pelos sentidos, despertares da nossa consciência. Por isso, é pela palavra que vamos, conscientes que esta é a verdadeira sentinela dos nossos actos. Por isso é que o confronto das palavras é o lugar mais humano onde homens e mulheres se podem encontrar. Por isso é que este é o lugar onde nos encontramos com o sentido da vida. Por isso é que a desistência do cheirar as palavras, do apalpar as palavras, é a desistência dos sentidos, a confirmação da perda, a normalização dos actos, o domínio pelo reflexo involuntário, o estado selvagem da nossa indiferença. Pela palavra estaremos sempre muito mais perto do mundo dos vivos, do que pelo seu abandono. O ocaso nunca é um acaso sem glória. O ocaso e a palavra serão sempre um recomeço, uma aurora recorrente da humanidade. Não é verdade que só haja lugar para um eleito.

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    1. Maravilhoso texto, caro Pedro. E contagiante a sua convicção no poder da palavra.

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  4. Ora vivam todos os Extraordinários!

    O homem tende, por definição, a constituir grupos e claro, daí a pretender que seja o único é um pequeno passo... é assim em tudo!

    Porque não seria também na literatura?
    O fanzine ou o clubismo mesmo nos estratos mais elevados da cultura e do pensamento.
    Ao contrário, conheço quem goste de Saramago só pelo que ele representa em termos partidários, e o diga como forma de elevação sem ter lido práticamente mais nada... e como se nada mais existisse, e até se arvoram em "cultos" por causa disso...
    Há quem não goste deste ou daquele autor até por snobismo... por moda, ou porque acham que lhes fica bem é (dizer) gostar de um livro que ninguém leu de um autor que ninguém conhece...

    Há de tudo e não me espanta o que a nossa Extraordinária Anfitriã diz.

    Graças a Deus que me fiz livre!
    Sou profundamente multicultural e decididamente não alinhado... mas também não faço disso uma prisão! Detesto que me "encaixem" num dado grupo ou conceito! Se bem que tenha noção de espaço e de grupo, sei bem o que me compete e o que devo.

    Tal como sou profundamente grato pela aceitação que me manifestam neste Grupo Extraordinário, não faço no entanto parte dele, sei-o bem e não é por isso que deixo de vir e participar, e aprender.

    Assim devia ser em tudo, e, também na literatura, sem essas peias e limitações de ter de ser adepto deste ou daquele! De termos por força de nos incluir num grupo, de identificar com alguma coisa e ter de o mostrar, provar, para ser aceite.
    Estejamos abertos ao Mundo, à vida e às idéias:
    - Livres!

    Saudações libertárias do Planalto Central!

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    1. Caro António Luiz

      Ao ler o seu comentário lembrei-me da teoria dos conjuntos; elementos, subconjuntos, reuniões e interseções de boa memória. Não pertence em exclusivo a este subconjunto HE (horas extraordinárias)? Não faz mal! É sinal que faz parte de um outro que intersecta o HE, o subconjunto TL (tolerantes libertários) que por sua vez (isto nunca há conjuntos que não se deixem intersectar por outros conjuntos) faz parte de um conjunto ainda maior:a pertença ao conjunto dos elementos com M (mundo). Huambo? chama-se agora, à nova, Lisboa? Um abraço amordaçado dos Escravos da Tríade (como o outro chama, à Troika de longa memória!)

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    2. Obrigado pela atenção que me dá!
      É sempre um prazer, e uma aprendizagem, ler as suas inspiradas e inspiradoras palavras, e, reitero o quanto me sinto grato pelo privilégio que é poder aceder a este espaço!
      Nem imaginam o quanto me faz falta e completa!

      Um abraço a todos!

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  5. Tudo que limite a conjugação da razão com a emoção humana no juízo de gosto, menoriza. Pré figurar duplas, triplas ou monolitismos coroados, parece-me preconceito. Conseguindo, é de arredar. Que não somos deuses. Decerto. Mas devemos à palavra escrita a apreciação dela mesma, sem mais.

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  6. Aos pares ou mais ainda...concordo plenamente!! Como poderia eu escolher entre JLP, VHM ou MRP?? E isto apenas para exemplo????:)

    Beijinhos
    Cláudia Moreira

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  7. Não tenho grande vontade de fazer comparações ou mesmo tomar partido.

    Saramago? Sim, gostei de muitos. Acompanhei-o ao longo das suas viagens e narrativas (se bem que me faltem alguns pontos de visita).

    Lobo Antunes? Todos até ao Manual dos Inquisidores (a sua obra maestra , na minha humilde opinião). Depois? Enfim, sou daqueles que não conseguiram acompanhar o autor naquele hermetismo crescente, apesar de reconhecer que continua a lograr páginas e páginas de elevado nível.

    Herberto Hélder, Eugénio de Andrade e Ruy Belo? Às vezes e a espaços. A poesia é para mim, coisa de momentos. Depende muito de estados de espírito.

    Tomar partidos? Para quê e porquê? Qual é o sentido de clubismos na arte?

    Além disso, e perdoem-me a franqueza nas palavras, gosto de pensar em mim como um leitor promíscuo. Hoje Albert Camus e amanhã Aquilino Ribeiro. Em literatura gosto pular a cerca.

    P.S. Só em LITERATURA!!!

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    1. Assino por baixo, se me permite. E mais não digo, a não ser que também eu «gosto de pular a cerca» em termos literários!

      Aliás, haverá cercas?

      E, a haver, quem ganhará com elas?

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  8. Concordo com a Dra. Maria do Rosário. É claro que estes benficas – sportings " literários, racionalmente, não fazem sentido nenhum. Mas, por outro lado, talvez dêem mais cor e mais encanto ao mundo literário. Afinal, temos sempre de ter algo que nos separe.

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  9. porque uma boa parte das pessoas olham para quase tudo como se fosse um jogo de futebol. :)

    não podes ser do Sporting e do Benfica. porque houve alguém que proibiu. :)

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    1. é por isso que sabe tão bem ser desalinhado, ou mesmo "fora da lei". :)

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  10. Apenas apreciando o contrário podemos efetivamente crescer. Apenas lendo diferentes estilos poderemos escolher. É vivendo experimentando que mais vivemos e, para tal, não podemos deixar de experimentar os opostos.

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  11. Tem razão e não acontece apenas nos autores.
    É uma questão estranha que dita, aparentemente, que os autores e outros protagonistas valem mais por oposição do que por si mesmos.
    Por outro lado, essa questão também serve, muitas vezes, para a identificação, classificação e categorização de quem responde. Quem pergunta parece querer rotular.

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  12. Outro par que sempre tive na minha cabeça desde que comecei a ler literatura "adulta": Vergílio Ferreira e Agustina Bessa-Luís.

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  13. Mozart & Salieri, Bernini & Borromini, Buch Cassidy & the Sundance Kid, Bud Spencer & Trinitá... sei lá, adoro pares, pares de tudo, nada bate um belo par! ;)

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  14. Sou pelos libertários e promíscuos. Ainda bem que aqui vim. Aos extraordinários devo esta volátil percepção de mim mesma.

    Obrigada Luiz , obrigada Vitor.

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