Kamasutra para o S. Valentim
Somos peritos a importar tradições alheias – e quando vejo meninos e meninas disfarçados de fantasmas e bruxas no dia 31 de Outubro até fico de cabelos em pé (mas, claro, imagino que seja exactamente esse o objectivo do Halloween). O Dia dos Namorados é só mais uma destas importações, pois quando eu era adolescente não havia disso em Portugal; a primeira vez que me lembro de um namorado me oferecer um presente no dia 14 de Fevereiro já estávamos na década de 1990 e eu fiz uma figura triste porque, como não estava acostumada a celebrar o dia, ia de mãos a abanar... Porém, desde então os pares apaixonados gostam de trocar presentes pelo S. Valentim e, estando a data próxima, começam a aparecer nas homepages das livrarias virtuais destaques a romances xaroposos com capas tendencialmente em tons de rosa e lilás e títulos que incluem quase sempre a palavra «amor» e os seus derivados. No entanto, este ano a coisa promete ser mais picante por razões que todos conhecemos e têm que ver com o recente sucesso de As 50 Sombras de Grey. E, como é preciso usar de artimanhas para vender livros numa época de crescente pelintrice, encontrei um produto fascinante que dá pelo nome de Kamasutra de Grey. A capa, seja na imagem, nas cores ou no próprio tipo de letra, é mesmo chapada dos livros da senhora E. L. James, mas, ao contrário do que se poderia esperar, a editora não é a que publicou a trilogia. Isto é aquilo a que eu chamo «ir a reboque» – mas nem se pense que é caso único porque basta ver as montras das livrarias para logo sermos brindados com dezenas de capas em vários tons de cinzento, com algemas, sapatos de salto, ligas ou outros clichés eróticos, num todo homogéneo seguindo a moda Grey (ou gray, porque é tudo meio cinzentão). Nada contra. Mas, se o sexo é desejável entre namorados, espero que alguns não precisem desta cartilha e, a seguir, leiam um livro decente.
Esta coisa do S. Valentim é tão bimba, valha-me Deus!
ResponderEliminarCredo! Se um namorado me oferecesse um livro desses ia logo corrido! Com tanta coisa bem mais eficaz no mercado, revela, para além de mau gosto, muita falta de imaginação... eheheheheh
ResponderEliminarNão acredito que a segur leiam um livro decente. Não é possivel acreditar que isso aconteça quando quem gostou do Grey diz que nunca leu nada tão na vida :)
ResponderEliminarOs CEO's não dormem eles pensam em tudo e a carneirada vai de retro atrás...
ResponderEliminarSe não fosse assim como é que eles nos conseguiriam roubar milhões (10,8 para o Cadilhe-uma vergonha nacional....)
Mas igual às sombras de grey já vi nas livrarias pelo menos dois títulos diferentes mas capas quase iguais, é uma tristeza...enfim...
Cada vez mais é preciso que no indignemos com estes ladrões...os inventores das sombras de grey , dos S. Valentim, da noite das abóboras, esses halloween importados lá dos saloios da américa .. indignenmo-nos por favor.
Não devemos talvez indignar-nos com tudo e mais um par de botas, sob pena de perdermos o foco de coisas verdadeiramente importantes gastando mal gastas munições preciosas com tipos que se lembraram de sugerir as milhentas pinocadas do grey aos namorados de são valentim mais pacóvios. O mundo não é perfeito: são vulgares espertalhaços. Além disso, só cai quem cai.
EliminarMas que nos importa a cada um de nós se existem pessoas felizes com essas leituras? aliás espero que essas mesmas leituras lhes proporcione umas longas e boas noites. Havendo pessoas felizes, o mundo fica melhor.
EliminarEspantar-nos-íamos com o número de intelectuais, ditos bem pensantes que espreitam revistas ou outro produto pornográfico. E daí?
Cada um vai buscar o seu prazer onde bem entender. A mim não me prejudica...Não me excita, mas não me prejudica. Cada um que leia o que quiser e "sejam felizes!".
Porque será que o folclore importamos? Lembro-me sempre daquela passagem dos maias : "Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas"
ResponderEliminarLIXO, a literatura tem muito LIXO.
ResponderEliminarPor isso nunca concordei com aqueles que dizem que o que é preciso é ler seja o que for. Há que selecionar.
Entre as Sombras de Grey e a Gaiola Aberta do Vilhena, vou para a Gaiola.
Almeida
"... não partilham a casa por quererem estar juntos, estão juntos por precisarem de partilhar - a casa e as madeiras e as bugigangas e os filhos e os amigos e as lojas e os cafés que se acumulam à volta e os netos, quando aparecem, se aparecem, e a memória, a mémória, a memória... O que foi - a cavalgar o que é; o que é - a galopar no caminho que os conduz ao fim."
ResponderEliminarO que há de mais anti-valentim? Um comentário da Anabela F. ao post do dia 5 de fevereiro passado fez-me ler o "Um Pinguim na Garagem", onde se encontra esta passagem. Raramente senti tanta comunhão entre a minha vida e a palavra escrita. Ao longo do livro senti que, a par de um grande escritor, Luís Caminha é um grande psicólogo.
Plenamente de acordo.
ResponderEliminar“As … sombras de grey é lixo”, mas é lixo que paga ordenados. E se calhar até paga edições de livros mais "ilustres".
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